Mapa de questões · 1º dia
Questão 18 — ENEM 2020 Digital
Carlos é hoje um homem dividido, Mário, e isso graças às suas cartas. Às vezes ele torce pelas palmeiras paródicas do Oswald de Andrade (a ninguém cá da terra passou despercebido o título que quer dar ao seu primeiro livro de poemas — Minha terra tem palmeiras). Às vezes não quer esquecer o gélido cinzel de Bilac e a prosa clássica dos decadentistas franceses, e à noite, ao ouvir o chamado da moça-fantasma, fica cismando ismálias em decassílabos rimados. Às vezes sucumbe ao trato cristão da condição humana e, à sombra dos rodapés de Tristão de Ataíde, tem uma recaída jacksoniana. Às vezes não sabe se prefere o barulho do motor do carro em disparada, ou se fica contemplando o sinal vermelho que impõe stop ao trânsito e silêncio ao cidadão. Às vezes entoa loas à vida besta, que devia jazer para sempre abandonada em Itabira. Mas na maioria das vezes sai saracoteando ironicamente pela rua macadamizada da poesia, que nem um pernóstico malandro escondido por detrás dos óculos e dos bigodes, ou melhor, que nem a foliona negra que você tanto admirou no Rio de Janeiro por ocasião das bacanais de Momo.
SANTIAGO, S. Contos antológicos de Silviano Santiago. São Paulo: Nova Alexandria, 2006.
Inspirado nas cartas de Mário de Andrade para Carlos Drummond de Andrade, o autor dá a esse material uma releitura criativa, atribuindo-lhe um remetente ficcional. O resultado é um texto de expressividade centrada na
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de Texto Literário / Sentido conotativo de provérbios e ditados populares
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade está em separar a intenção comunicativa da fala de dona Aparecida do efeito que ela produz no marido, e em não cair na leitura literal da palavra "herda".
- 🎯 Tema/Habilidade: Função argumentativa da linguagem popular em textos narrativos; competência de leitura que exige relacionar recursos linguísticos (ditado popular) ao contexto de enunciação para reconstruir a intenção do falante.
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Com que intenção dona Aparecida usa o ditado 'Quem herda, não rouba' na cena narrada?"
- Palavras-chave decisivas: ditado popular, intenção, emprega
- Armadilha típica: confundir o efeito observável no texto (o marido se acalma) com a intenção por trás da fala; ou interpretar "herda" no sentido literal de herança de bens/terras, puxado pela menção anterior à partilha de terras no conto.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o ditado, no contexto, desloca o sentido de "herança material" para "herança de temperamento", e que essa transposição serve para explicar/justificar por que o filho é do jeito que é.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ditado popular (provérbio): enunciado curto de sabedoria coletiva, de sentido fixo e conotativo, que só ganha significado pleno quando aplicado a uma situação concreta.
- Contexto de enunciação: quem fala, para quem e em que momento determinam o sentido pragmático de uma fala — o mesmo ditado pode servir para elogiar, criticar, consolar ou justificar, dependendo da cena.
- Intenção comunicativa x efeito: a intenção é o objetivo do falante ao produzir o enunciado; o efeito é a reação que esse enunciado provoca no interlocutor. Uma questão pode descrever corretamente o efeito e, ainda assim, errar ao apontá-lo como a intenção.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "De tão parecidos, pai e filho nunca combinaram direito. Cada qual mais topetudo" → mostra que o conflito nasce da semelhança: o "gênio difícil" de Chiquito é espelho do próprio pai, Chico Lourenço.
- Evidência 2: "muitas vezes dona Aparecida ouvia o marido reclamar da natureza forte do filho" → é Chico Lourenço quem critica o filho; dona Aparecida entra na cena como resposta a essa queixa, não como reforço dela.
- Evidência 3: "— Quem herda, não rouba. Vinha um brilho nos olhos, o velho se acalmava." → a fala tem um efeito pacificador visível, mas o conteúdo semântico do ditado é o que precisa ser decifrado: dizer que o filho "herdou" o temperamento é dizer que essa característica veio legitimamente de dentro da própria família — do próprio pai.
- Síntese: dona Aparecida não inventa uma defesa qualquer; ela usa um ditado cujo sentido literal (herança de bens é posse legítima, "não é roubo") é transposto para o campo do caráter: o temperamento forte do filho também é uma herança legítima, recebida do pai. Ao expor essa lógica, ela explica/justifica o comportamento de Chiquito diante da queixa do marido — e só como consequência disso o velho se acalma.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Sentido literal do ditado
"Quem herda, não rouba" é tradicionalmente usado para afirmar que algo recebido por herança pertence legitimamente a quem o recebeu — não há roubo, há direito de origem familiar. É um ditado do universo da posse de bens (terras, dinheiro, objetos).
Subpasso 4.2 — Transposição para o campo do caráter
No conto, porém, não se discute posse de terras nesse momento (isso já havia ocorrido antes, quando "o pai repartiu as terras"). O que está em jogo é a "natureza forte" do filho, alvo da reclamação do pai. Dona Aparecida pega o ditado e o aplica não a bens, mas a um traço de personalidade: se o filho tem gênio forte, é porque herdou isso de alguém — e esse alguém, evidenciado pela frase "de tão parecidos, pai e filho nunca combinaram", é o próprio Chico Lourenço. Logo, o ditado funciona como um espelho: "o defeito que você aponta no seu filho é o seu próprio traço, transmitido de forma legítima — não é uma anomalia dele".
Subpasso 4.3 — Verificação pelo efeito narrado
O texto confirma essa leitura ao descrever a reação do pai: "vinha um brilho nos olhos, o velho se acalmava." Isso mostra que Chico Lourenço reconhece a verdade do argumento — mas esse reconhecimento é a consequência do ditado, não o motivo pelo qual dona Aparecida o disse. A intenção dela, o propósito comunicativo por trás da escolha desse ditado específico, é justificar a origem do "gênio difícil" do filho, explicando-o como herança de família e não como falha isolada. Essa é exatamente a leitura da alternativa B, o que confirma a resolução.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) criticar a natureza forte do filho.
❌ Incorreta: quem critica a "natureza forte do filho" é Chico Lourenço, não dona Aparecida. Ela responde à crítica do marido relativizando-a, e não a reforça; atribuir a ela a intenção de criticar inverte o papel que ela exerce no diálogo.
B) justificar o gênio difícil de Chiquito.
✅ Correta: ao dizer "quem herda, não rouba", dona Aparecida transfere o sentido do ditado da esfera material para a do temperamento, mostrando que o "gênio difícil" do filho é herança legítima do próprio pai, e não um defeito isolado ou inexplicável. Essa é precisamente uma justificativa para o comportamento de Chiquito diante da queixa paterna.
C) legitimar o direito do filho à herança.
❌ Incorreta: é a armadilha de leitura literal — o verbo "herdar" remete, no enredo, à partilha de terras feita anteriormente ("quando o pai repartiu as terras"). Mas no momento em que o ditado é pronunciado, não há qualquer disputa ou questionamento sobre direitos de propriedade; o assunto da cena é exclusivamente o temperamento do filho.
D) conter o ânimo violento de Chico Lourenço.
❌ Incorreta: descreve apenas o efeito posterior do enunciado ("o velho se acalmava"), não a intenção dela ao proferi-lo. Além disso, o texto não caracteriza o pai como "violento" — ele apenas reclama verbalmente; qualificar seu ânimo como "violento" extrapola o que o excerto sustenta.
E) condenar a agressividade do marido contra o filho.
❌ Incorreta: não há no texto nenhuma menção a agressão física ou verbal do pai contra o filho — apenas reclamação sobre sua natureza forte. Dona Aparecida também não condena o marido; ela pondera e apazigua, o que é incompatível com a ideia de condenação.
🏆 Gabarito: B — dona Aparecida emprega o ditado popular para justificar o gênio difícil de Chiquito, mostrando que esse traço é herança legítima transmitida pelo próprio pai, e não uma falha isolada do filho.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa B capta a função argumentativa real do ditado — explicar a origem do temperamento do filho como herança do pai — sem se confundir com o efeito da fala (acalmar) nem com o sentido literal da palavra "herança" (bens materiais).
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência a interpretação de provérbios e ditados populares dentro de textos literários e jornalísticos, sempre exigindo que o candidato aplique o sentido conotativo ao contexto específico, e não o sentido de dicionário do ditado isolado.
- Generalização: diante de uma questão sobre a intenção de uso de um ditado, pergunte sempre "quem fala, para quem e em resposta a quê" — a intenção está na relação entre o que foi dito antes e depois da fala, nunca no ditado isolado de seu contexto.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que descrevem apenas um efeito observado no texto (como D, que fala em "conter o ânimo") e alternativas que retomam uma palavra do enunciado ("herança") em sentido literal fora de contexto (como C); elimine também as que invertem o papel da personagem, atribuindo a ela uma atitude de crítica ou condenação quando o texto mostra o oposto (A e E).
- Conexões: funções da linguagem em provérbios e frases feitas; leitura pragmática de discurso indireto em prosa regionalista mineira; diferença entre denotação e conotação aplicada a expressões cristalizadas da cultura popular.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.