Mapa de questões · 1º dia
Questão 39 — ENEM 2020 Digital
TEXTO I
A planta de Belo Horizonte
Foi muito grande o contraste entre a nova capital e as antigas vilas coloniais mineiras, nascidas das necessidades das populações do século XVIII, que se desenvolveram sem nenhum planejamento. A futura capital seria inovadora, moderna e progressista. Assim, o projeto urbanístico que o engenheiro paraense Aarão Reis elaborou para Belo Horizonte causou curiosidade e entusiasmo.
É digno de atenção observar os nomes que foram dados às ruas de Belo Horizonte: estados brasileiros, tribos indígenas, rios etc. Mencioná-los era uma verdadeira aula de estudos sociais. Era, inclusive, uma forma de ensinar a população, ainda carente de ensino formal.
Disponível em: www.descubraminas.com.br. Acesso em: 9 dez. 2017 (adaptado).
TEXTO II
Ruas da cidade
Guaicurus, Caetés, Goitacazes
Tupinambás, Aimorés
Todos no chão
Guajajaras, Tamoios, Tapuias
Todos Timbiras, Tupis
Todos no chão
A parede das ruas não devolveu
Os abismos que se rolou
Horizonte perdido no meio da selva
Cresceu o arraial, arraial
Passa bonde, passa boiada
Passa trator, avião
Ruas e reis
Guajajaras, Tamoios, Tapuias
Tupinambás, Aimorés
Todos no chão
A cidade plantou no coração
Tantos nomes de quem morreu
Horizonte perdido no meio da selva
Cresceu o arraial, arraial
A parede das ruas não devolveu
Os abismos que se rolou
Horizonte perdido no meio da selva
BORGES, L.; BORGES, M. In: NASCIMENTO, M. Clube da esquina 2. Rio de Janeiro: EMI, 1978 (fragmento)
Os textos abordam a preservação da memória e da identidade nacional, presente na nomeação das ruas belorizontinas. Quais versos do Texto II contestam o projeto arquitetônico descrito no Texto I?
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura e História → Confronto de textos; planejamento urbano de Belo Horizonte; memória indígena
- ⚡ Nível: Difícil — quatro alternativas citam versos que dialogam com o Texto I, e só uma o contesta
- 🎯 Tema/Habilidade: Identificar, em um texto, os versos que se opõem à visão apresentada em outro
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Quais versos da canção criticam o projeto urbanístico elogiado no primeiro texto?"
- Palavras-chave decisivas: inovadora, moderna e progressista, causou curiosidade e entusiasmo (Texto I); A parede das ruas não devolveu / Os abismos que se rolou (Texto II)
- Armadilha típica: escolher os versos que apenas listam nomes indígenas, que retomam o Texto I sem contestá-lo
- O que a resposta precisa demonstrar: que a contestação está nos versos que apontam uma perda irreversível causada pela construção da cidade
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Belo Horizonte: primeira capital brasileira inteiramente planejada, projetada por Aarão Reis e inaugurada em 1897 sobre o antigo arraial do Curral del Rei.
- Toponímia: nomeação de lugares; em BH, ruas receberam nomes de estados, rios e povos indígenas.
- Homenagem x apagamento: dar o nome de um povo a uma rua pode preservar a memória ou substituí-la por um rótulo esvaziado.
- Clube da Esquina: movimento musical mineiro; "Ruas da cidade", de Lô e Márcio Borges, integra o Clube da Esquina 2.
- Contestação: oposição a uma visão; exige que o verso aponte um problema, e não apenas descreva.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (Texto I): "A futura capital seria inovadora, moderna e progressista... causou curiosidade e entusiasmo" → a visão é elogiosa; o projeto é celebrado.
- Evidência 2 (Texto I): "os nomes que foram dados às ruas... tribos indígenas, rios etc. Mencioná-los era uma verdadeira aula de estudos sociais" → a nomeação é apresentada como virtude pedagógica.
- Evidência 3 (Texto II): a enumeração de povos — Guaicurus, Caetés, Goitacazes, Tupinambás, Aimorés — seguida do refrão "Todos no chão" → os nomes estão no chão, pisados, e não honrados.
- Evidência 4 (Texto II): "A parede das ruas não devolveu / Os abismos que se rolou" → a cidade construída não restituiu o que foi aterrado e desfeito para erguê-la.
- Síntese: o Texto II reconhece a nomeação, mas afirma que a obra não repôs o que destruiu — é aí que reside a contestação do projeto.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Fixar o que deve ser contestado
O Texto I celebra o projeto arquitetônico: cidade planejada, moderna, com ruas que homenageiam povos indígenas e ensinam a população. É essa avaliação positiva que os versos precisam contrariar.
Subpasso 4.2 — Testar os versos candidatos
As enumerações de povos apenas reproduzem o que o Texto I descreve — são a matéria da homenagem, não a crítica a ela. Os versos sobre bonde, boiada, trator e avião registram a modernização, sem julgá-la. "A cidade plantou no coração / Tantos nomes de quem morreu" chega perto, mas ainda descreve o gesto de nomear. Já "A parede das ruas não devolveu / Os abismos que se rolou" faz outra coisa: afirma que a obra tomou algo e não repôs. O verbo "devolver" na negativa é a marca da contestação.
Subpasso 4.3 — Verificação
Esses versos atingem exatamente o ponto celebrado pelo Texto I. Se a cidade foi erguida aterrando abismos e apagando o arraial e os povos que ali estavam, então a "aula de estudos sociais" nas placas não compensa a perda — o nome nas ruas não devolve o que a construção levou. Alternativa B confirmada.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) "Guaicurus, Caetés, Goitacazes" / "Tupinambás, Aimorés".
❌ Incorreta: são apenas os nomes dos povos, exatamente os que o Texto I cita como acerto do projeto. Isolados, esses versos reproduzem a informação em vez de contestá-la — a crítica só aparece quando se acrescenta o refrão "Todos no chão", que não integra a alternativa.
B) "A parede das ruas não devolveu" / "Os abismos que se rolou".
✅ Correta: aqui a canção afirma que a cidade construída não restituiu o que foi destruído para erguê-la — os abismos aterrados e, com eles, o mundo anterior ao projeto. É a contestação direta da visão do Texto I, que apresenta a obra como inovação sem perdas.
C) "Passa bonde, passa boiada" / "Passa trator, avião" / "Ruas e reis".
❌ Incorreta: os versos registram o avanço da modernização — transportes e máquinas atravessando a cidade —, mas de forma descritiva. Não há juízo negativo sobre o projeto urbanístico.
D) "A cidade plantou no coração" / "Tantos nomes de quem morreu".
❌ Incorreta: é a alternativa mais próxima, pois evoca os mortos. Ainda assim, descreve o ato de nomear as ruas com nomes de povos desaparecidos, sem afirmar que o projeto falhou. Falta o elemento de perda irreparável que caracteriza a contestação.
E) "Horizonte perdido no meio da selva" / "Cresceu o arraial, arraial".
❌ Incorreta: os versos narram o crescimento do antigo arraial até virar cidade. Registram uma transformação, sem contrapor-se ao entusiasmo com que o Texto I a apresenta.
🏆 Gabarito: B — Ao dizer que as paredes das ruas "não devolveram os abismos que se rolou", a canção afirma que a cidade planejada destruiu sem repor — contestando a celebração do projeto feita no Texto I.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa em que há afirmação de perda; A, C, D e E descrevem ou retomam elementos do Texto I sem se opor a eles.
- Padrão de cobrança: o ENEM cruza texto informativo e canção para cobrar leitura crítica de projetos de modernização e do apagamento de povos originários.
- Generalização: contestar exige oposição, não menção. Ao comparar textos, procure verbos de negação, perda ou dano — eles marcam o ponto de ruptura.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que apenas repetem informações já dadas no outro texto; elas ilustram, não contestam.
- Conexões: Belo Horizonte e o urbanismo planejado; Clube da Esquina; toponímia indígena e memória.
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