Mapa de questões · 1º dia
Questão 40 — ENEM 2020 Digital
– O senhor pensa que eu tenho alguma fábrica de dinheiro? (O diretor diz essas coisas a ele, mas olha para todos, como que a dar uma explicação a todos. Todas as caras sorriem.) Quando o seu filho esteve doente, eu o ajudei como pude. Não me peça mais nada. Não me encarregue de pagar as suas contas: já tenho as minhas, e é o que me basta… (Risos).
O diretor tem o rosto escanhoado, a camisa limpa. A palavra possui um tom educado, de pessoa que convive com gente inteligente, causeuse. O rosto do Dr. Rist resplandece, vermelho e glabro. Um que outro tem os olhos no chão, atitude discreta.
Naziazeno espera que ele lhe dê as costas, vá reatar a palestra interrrompida, aquelas observações sobre a questão social, consumismo e integralismo.
MACHADO, D. Os ratos. São Paulo: Circuito do Livro, s/d.
A ficção modernista explorou tipos humanos em situação de conflito social. No fragmento do romancista gaúcho, esse conflito revela a:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Prosa modernista brasileira (conflito social e caracterização de personagens)
- ⚡ Nível: Médio — exige articular a cena narrada (fala, gestos, silêncio dos presentes) com um conceito sociológico específico, sem se deixar levar por leituras genéricas do texto.
- 🎯 Tema/Habilidade: Relações de poder e humilhação social na ficção modernista (Competência de Área 1 de Linguagens — reconhecer usos da língua e da literatura como veículo de valores e conflitos sociais).
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual conflito social o fragmento de 'Os ratos' revela, entre o diretor (patrão/credor) e Naziazeno (empregado/devedor)?"
- Palavras-chave decisivas: conflito social, tipos humanos, revela
- Armadilha típica: confundir o cenário (uma empresa, uma dívida, uma conversa sobre "questão social") com o verdadeiro objeto da cena, que não é a economia em si, mas o efeito humano da desigualdade — a humilhação pública de quem depende financeiramente de outro.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ler além do enredo explícito (empréstimo, recusa, risos) e identificar a relação de poder simbólico que a pobreza impõe ao personagem subalterno diante do grupo.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ficção modernista de segunda geração (Romance de 30): movimento literário brasileiro que abandona o experimentalismo formal da primeira fase modernista e passa a documentar as tensões sociais, econômicas e psicológicas do Brasil urbano e rural, com personagens marcados por opressão, miséria e conflitos de classe.
- Dyonélio Machado e "Os Ratos" (1935): romance urbano-psicológico ambientado em Porto Alegre, que acompanha um único dia de Naziazeno Barbosa, funcionário público humilde, em sua via-crúcis para conseguir dinheiro emprestado e comprar leite para o filho doente. A obra expõe o drama íntimo de quem vive na dependência financeira alheia.
- Sujeição moral: subordinação que não é apenas econômica, mas psicológica e simbólica — o indivíduo pobre perde autonomia sobre sua própria dignidade porque depende do favor de quem tem dinheiro; qualquer pedido o expõe ao julgamento e ao riso público.
- Foco narrativo e gestos como discurso: o narrador não precisa dizer "Naziazeno sente vergonha" — os detalhes físicos (rosto escanhoado do diretor, olhos no chão de alguns presentes, risos coletivos) fazem esse trabalho, técnica típica da prosa realista-psicológica do período.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "O senhor pensa que eu tenho alguma fábrica de dinheiro? [...] olha para todos, como que a dar uma explicação a todos. Todas as caras sorriem." → O diretor transforma a recusa em espetáculo público; ele não fala só para Naziazeno, fala para a plateia, e a plateia ri — a humilhação é coletivizada, não é um desentendimento privado.
- Evidência 2: "Um que outro tem os olhos no chão, atitude discreta." → Mesmo entre os que não riem, ninguém defende Naziazeno; o silêncio constrangido confirma que a cena expõe uma hierarquia aceita por todos, não um conflito de opiniões.
- Evidência 3: "Naziazeno espera que ele lhe dê as costas [...] aquelas observações sobre a questão social, consumismo e integralismo." → O próprio personagem humilhado só deseja que a cena acabe e a "conversa séria" (política, economia) recomece — ele é reduzido a um interlúdio incômodo, não a um interlocutor.
- Síntese: as três evidências convergem para o mesmo ponto: o dinheiro (ou a falta dele) dá ao diretor o direito de expor Naziazeno ao ridículo diante de todos, e Naziazeno, por depender dele, não tem como reagir — sua condição de pobre o obriga a engolir a humilhação em silêncio. Isso é sujeição moral amplificada pela pobreza.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar quem tem o poder na cena e por quê
O diretor detém o poder não porque seja politicamente superior a Naziazeno, mas porque já emprestou dinheiro a ele antes ("Quando o seu filho esteve doente, eu o ajudei como pude") e agora se recusa a continuar ajudando. Esse poder é financeiro, mas seu exercício é moral: ele escolhe fazer a recusa publicamente, diante de terceiros, o que transforma uma simples negativa em constrangimento deliberado.
Subpasso 4.2 — Observar a reação do grupo e a passividade de Naziazeno
O narrador registra três reações distintas: o riso da maioria, o olhar baixo de "um que outro" e o silêncio resignado de Naziazeno, que apenas espera a cena passar. Nenhuma delas é de solidariedade ativa. Isso mostra que a humilhação do pobre diante do rico é naturalizada pelo grupo — ninguém rompe o script social que coloca o devedor em posição de inferioridade.
Subpasso 4.3 — Verificação
Se a questão perguntasse sobre "crise econômica", o texto precisaria mostrar números, escassez ou instabilidade financeira coletiva — não há isso. Se perguntasse sobre "falta de diálogo", seria preciso mostrar ausência de comunicação — mas há fala direta e explícita do diretor. Se fosse sobre "perspicácia intelectual", o foco estaria na inteligência de algum personagem, o que não é destacado. Se fosse sobre "tensão política e ideologias", o texto cita "integralismo" apenas de passagem, como assunto que retomará depois, não como o cerne do conflito narrado. Restando apenas a alternativa que nomeia a subordinação moral do pobre diante de quem o sustenta financeiramente — confirmando a leitura do Passo 4.1 e 4.2.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) sujeição moral amplificada pela pobreza.
✅ Correta: a cena mostra exatamente isso — Naziazeno, por depender financeiramente do diretor, é obrigado a suportar calado uma humilhação pública (a recusa dita em tom de deboche, seguida de risos gerais). Sua pobreza não gera apenas uma dificuldade material, mas uma subordinação da própria dignidade: ele não pode reagir, revidar ou sequer se defender, porque sua sobrevivência (e a do filho) depende da boa vontade alheia.
B) crise econômica em expansão nas cidades.
❌ Incorreta: o fragmento não trata de um fenômeno econômico coletivo ou estrutural (inflação, desemprego em massa, falência de empresas); trata de uma relação pessoal e pontual entre dois indivíduos — um pedido de empréstimo negado. Não há qualquer menção a "expansão" de crise nem a um panorama urbano mais amplo.
C) falta de diálogo entre patrões e empregados.
❌ Incorreta: há diálogo — o diretor fala diretamente com Naziazeno, de forma clara e até didática ("Não me peça mais nada..."). O problema da cena não é ausência de comunicação, mas o conteúdo humilhante dessa comunicação, feita propositalmente diante de terceiros.
D) perspicácia marcada pela formação intelectual.
❌ Incorreta: embora o texto mencione que a fala do diretor tem "um tom educado, de pessoa que convive com gente inteligente", isso caracteriza a postura social do diretor, não é o conflito central da cena. A questão pede o conflito revelado, e a habilidade intelectual de ninguém está em disputa ali.
E) tensão política gerada pelas ideologias vigentes.
❌ Incorreta: "questão social", "consumismo" e "integralismo" são citados apenas como o assunto da conversa que será retomada depois — um pano de fundo histórico dos anos 1930 —, não como o motor do conflito entre diretor e Naziazeno. O conflito narrado é interpessoal e de classe, não um debate ideológico entre as personagens.
🏆 Gabarito: A — o fragmento expõe como a dependência financeira de Naziazeno o obriga a suportar, em silêncio e diante de todos, uma humilhação pública movida pelo diretor, evidenciando a sujeição moral que a pobreza impõe.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A nomeia com precisão o que a cena narra: não é falta de diálogo, nem crise econômica genérica, nem embate ideológico, mas a subordinação da dignidade de um personagem pobre à vontade de quem detém o dinheiro.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz excertos do Romance de 30 (Graciliano Ramos, Dyonélio Machado, Érico Veríssimo, José Lins do Rego) para testar se o estudante enxerga, por trás da cena cotidiana, a crítica social latente — quase sempre ligada a fome, dívida, trabalho ou hierarquia entre patrão e subalterno.
- Generalização: em questões de interpretação literária sobre "conflito social", procure sempre quem detém o poder na cena, como esse poder é exercido (verbal, gestual, silencioso) e como a personagem subordinada reage — a resposta certa costuma nomear essa relação de forma abstrata e precisa, evitando parafrasear apenas o enredo.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que descrevem fatos do cenário (crise, política, ideologias citadas de passagem) sem tocar na relação de poder entre os personagens; a alternativa correta quase sempre usa um substantivo abstrato (sujeição, opressão, humilhação, submissão) ligado à causa social do conflito (aqui, a pobreza).
- Conexões: compare com excertos de "Vidas Secas" (Graciliano Ramos) sobre a relação entre Fabiano e o patrão, e com poemas de Carlos Drummond de Andrade sobre alienação urbana — ambos exploram, por vias diferentes, a mesma sujeição do indivíduo pobre diante das estruturas de poder.
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