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Mapa de questões · 1º dia
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Questão 12ENEM 2020 Digital

Pessoal intransferível Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.

Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.

E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.

TORQUATO NETO. Melhores poemas de Torquato Neto. São Paulo: Global, 2018.

Expoente da poesia produzida no Brasil na década de 1970 e autor de composições representativas da Tropicália, Torquato Neto mobiliza, nesse texto,

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Poesia marginal e Tropicália; Torquato Neto; metalinguagem
  • ⚡ Nível: Difícil — várias alternativas descrevem traços presentes no texto, mas erram a finalidade a que eles servem
  • 🎯 Tema/Habilidade: Relacionar recursos de construção do texto à concepção de poesia que ele defende
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que recursos Torquato Neto usa, e para defender o quê?"
  • Palavras-chave decisivas: um poeta não se faz com versos, É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, perigoso, divino, maravilhoso, quem não se arrisca não pode berrar, leve um homem e um boi ao matadouro
  • Armadilha típica: parar nos traços de estilo — gírias, tom de prosa, frases de efeito — sem verificar a que tese eles servem
  • O que a resposta precisa demonstrar: que citações e uma anedota final sustentam a defesa da coragem diante do risco de criar

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Torquato Neto: poeta e letrista piauiense ligado à Tropicália e à poesia marginal; sua coluna "Geleia Geral" misturava crítica, manifesto e conversa.
  • Intertextualidade: presença de outros textos em um texto; aqui, ecos de "Divino, maravilhoso" (Caetano Veloso) em "perigoso, divino, maravilhoso" e de versos consagrados em "como dois e dois são quatro" e "sei que a vida vale a pena".
  • Anedota: narrativa breve com efeito de fecho; no texto, a do homem e do boi levados ao matadouro.
  • Metalinguagem: o texto discute o que é ser poeta, isto é, fala sobre o próprio fazer literário.
  • Poesia marginal: vertente dos anos 1970 que rejeita o verso bem-comportado e o circuito oficial, valorizando risco e informalidade.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo" → a tese é enunciada logo de saída: poesia é risco, não técnica de versejar.
  • Evidência 2: "Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso" → retoma o título da canção de Caetano Veloso, marca intertextual explícita.
  • Evidência 3: "Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc." → encadeia fórmulas e versos já consagrados, seguidos de um "etc." depreciativo, para desqualificar a poesia fácil.
  • Evidência 4: "quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem" → a anedota fecha o texto ilustrando a tese sobre coragem.
  • Síntese: o texto mobiliza citações alheias e uma anedota para sustentar que ser poeta é enfrentar o risco sem medo.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a tese

Torquato abre negando a definição escolar de poeta: "um poeta não se faz com versos". O que faz o poeta é outra coisa — "o risco", "estar sempre a perigo sem medo", "inventar o perigo", "destruir a linguagem e explodir com ela". Todo o texto gira em torno dessa oposição entre versejar com segurança e criar arriscando.

Subpasso 4.2 — Identificar os recursos que sustentam a tese

Dois recursos se destacam. O primeiro é a intertextualidade: "perigoso, divino, maravilhoso" ecoa a canção de Caetano Veloso, e "como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena" costura fórmulas e versos já consagrados — usados ironicamente, seguidos de "etc.", para mostrar como é fácil repetir o que já está pronto. O segundo é a anedota do matadouro, que encerra o texto: entre um homem e um boi levados à morte, quem berra mais é o homem. A imagem ilustra o valor de reagir diante do perigo, ligando-se diretamente a "quem não se arrisca não pode berrar".

Subpasso 4.3 — Verificação

Recursos intertextuais e anedóticos, a serviço da defesa de uma atitude destemida diante dos riscos da criação: é exatamente o que descreve a alternativa E. As demais captam traços do texto, mas atribuem a eles finalidades que o texto não sustenta. Confirmada.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) gírias e expressões coloquiais para criticar a linguagem adornada da tradição literária então vigente.

❌ Incorreta: a coloquialidade existe ("meu chapa", "quando a barra pesa", "adeusão"), mas o alvo da crítica não é o ornamento da tradição literária. Torquato ataca a poesia acomodada e sorridente — "declamar versinhos sorridentes" —, isto é, a falta de risco, não o excesso de adorno.

B) intenções satíricas e humorísticas para delinear uma concepção de poesia voltada para a felicidade dos leitores.

❌ Incorreta: inverte a tese. O texto ridiculariza justamente o poeta "sorridente mestre de cerimônias" e os "versinhos sorridentes". Agradar o leitor é o oposto do que Torquato defende.

C) frases de efeito e interpelações ao leitor para ironizar as tentativas de adequação do poema ao gosto do público.

❌ Incorreta: é a alternativa mais próxima, mas incompleta e mal focada. Há interpelação ("Escute, meu chapa") e ironia contra o poeta que agrada, porém o texto não se resume a ironizar: ele afirma positivamente uma concepção de poesia — a do risco —, e o faz por citação e anedota, não por frases de efeito.

D) recursos da escrita em prosa e noções do senso comum para enfatizar as dificuldades inerentes ao trabalho do poeta.

❌ Incorreta: o texto é mesmo em prosa e menciona dificuldades, mas o senso comum aparece para ser desqualificado ("como dois e dois são quatro", seguido de "etc."), não para apoiar o argumento. E o ponto não é enfatizar dificuldades técnicas: é defender coragem.

E) referências intertextuais e anedóticas para defender a importância de uma atitude destemida ante os riscos da criação poética.

✅ Correta: o texto convoca outros textos — "perigoso, divino, maravilhoso", de Caetano Veloso, e fórmulas poéticas consagradas — e encerra com a anedota do homem e do boi no matadouro, em que quem berra na hora do perigo é o homem. Ambos os recursos servem à tese enunciada de início: ser poeta é "estar sempre a perigo sem medo", pois "quem não se arrisca não pode berrar".

🏆 Gabarito: E — Citações de outros textos e a anedota final do matadouro sustentam a defesa central: poesia se faz com risco e coragem, não com versos bem-comportados.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que casa recurso e finalidade; A erra o alvo da crítica, B inverte a tese, C reduz o texto à ironia e D toma por apoio o que é objeto de escárnio.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra a poesia marginal e a Tropicália pela recusa ao verso convencional e pela mistura de registros — prosa, gíria, citação, manifesto.
  • Generalização: quando a alternativa tem a estrutura "recurso X para finalidade Y", valide as duas partes. É comum o recurso estar certo e a finalidade, errada.
  • Dica de eliminação rápida: localize a tese na primeira frase forte do texto. Aqui, "um poeta não se faz com versos" já derruba qualquer alternativa que fale em agradar o público.
  • Conexões: Tropicália e poesia marginal dos anos 1970; Geleia Geral; intertextualidade e paródia.

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