Mapa de questões · 1º dia
Questão 36 — ENEM 2020 Digital

GUARNIERI, A. Suplemento Literário de Minas Gerais, n. 1 338, set.-out. 2011.
Ao correlacionar o trabalho humano ao da máquina, o autor vale-se da disposição visual do texto para
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Poesia contemporânea; recursos visuais do texto; trabalho e alienação
- ⚡ Nível: Difícil — exige ler a diagramação como parte do sentido, e não apenas o conteúdo verbal
- 🎯 Tema/Habilidade: Interpretar a disposição visual de um texto como recurso expressivo
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que o autor consegue dizer pelo modo como as palavras estão dispostas na página?"
- Palavras-chave decisivas: convulsionamosnúmeros(necessárioédiscá-los todos), um por um, inú-teis, caminham na calma, máquinaspermanecemasós,semóciónemlaços, o monstro é um patrão eletrônico, ao invés de mãos, há troncos telefônicos
- Armadilha típica: responder apenas pelo conteúdo — burocracia, repetição, alienação — sem considerar que o comando pede o efeito da DISPOSIÇÃO VISUAL
- O que a resposta precisa demonstrar: que a fusão e o espaçamento das palavras encenam graficamente a perda dos limites individuais
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Poema em prosa: texto que dispensa o verso, mas mantém trabalho intenso sobre a linguagem.
- Aglutinação gráfica: supressão dos espaços entre palavras, que faz o texto perder as fronteiras entre unidades.
- Espacejamento: separação exagerada entre letras, que fragmenta a palavra e retarda a leitura.
- Desumanização no trabalho: processo em que o trabalhador é reduzido a função, perdendo traços individuais — tema clássico da sociologia do trabalho.
- Iconicidade: propriedade de a forma do texto imitar aquilo que ele significa.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (conteúdo): "o monstro é um patrão eletrônico, ao invés de mãos, há troncos telefônicos" → o humano é substituído por peças de máquina; o corpo vira equipamento.
- Evidência 2 (conteúdo): "se matando aos poucos estes homens que trabalham: um por um, inúteis" → os trabalhadores são contados como unidades intercambiáveis.
- Evidência 3 (forma): "convulsionamosnúmeros(necessárioédiscá-los todos)" e "máquinaspermanecemasós,semóciónemlaços" → as palavras se fundem, perdendo os espaços que as separam.
- Evidência 4 (forma): "um por um, inú-teis, caminham na calma" → aqui ocorre o inverso: as letras se espalham e a palavra "inúteis" é partida ao meio.
- Síntese: o texto ora comprime as palavras umas nas outras, ora as desmancha — e é essa oscilação gráfica que encena a dissolução dos indivíduos.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Ler o que a página mostra
Antes de qualquer interpretação de conteúdo, salta aos olhos o que a diagramação faz. Em vários trechos, as palavras estão coladas — "convulsionamosnúmeros", "máquinaspermanecemasós", "semóciónemlaços" —, como se tivessem perdido os limites que as distinguem. Em outros, ocorre o oposto: as letras se afastam e a palavra se quebra, como em "inú-teis".
Subpasso 4.2 — Relacionar forma e sentido
Palavras que perdem suas fronteiras funcionam como imagem visual de pessoas que perdem as suas. No escritório descrito, os funcionários são "um por um, inúteis", operam sob um "patrão eletrônico" e terminam "em suicídios tão limpos quanto burocráticos". A massa gráfica indistinta é o correlato tipográfico dessa massa humana sem individualidade — a linguagem sofre na página o mesmo que os corpos sofrem na repartição.
Subpasso 4.3 — Verificação
A alternativa A é a única que articula os dois planos: desumanização (o humano reduzido a máquina) e perda de identidade (o indivíduo dissolvido no conjunto) — exatamente o que a disposição visual encena. Confirmada.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) expressar a ideia de desumanização e de perda de identidade.
✅ Correta: as palavras aglutinadas — "convulsionamosnúmeros", "máquinaspermanecemasós" — perdem seus limites, assim como os funcionários perdem os seus, reduzidos a "um por um, inúteis" sob um "patrão eletrônico" que tem "troncos telefônicos" no lugar de mãos. A disposição gráfica encena, na página, a dissolução do humano descrita no conteúdo.
B) ironizar a realização de tarefas repetitivas e acríticas.
❌ Incorreta: não há ironia no texto. O tom é sombrio e direto — suicídios, ódio, homens se matando aos poucos —, sem o distanciamento humorístico que caracteriza o recurso irônico.
C) realçar a falta de sentido de atividades burocráticas.
❌ Incorreta: a burocracia é o cenário, mas o texto vai além da ausência de sentido: descreve a destruição dos próprios trabalhadores. Além disso, a alternativa não explica o que a disposição visual acrescenta.
D) sinalizar a alienação do funcionário de repartição.
❌ Incorreta: é a alternativa mais próxima, mas insuficiente. Alienação é não se reconhecer no trabalho; o texto mostra algo mais radical — a supressão da própria distinção entre os indivíduos, que é o que a fusão das palavras representa graficamente.
E) destacar a inutilidade do trabalhador moderno.
❌ Incorreta: "inúteis" aparece no texto, mas como sintoma do processo, e não como tese. O poema não afirma que o trabalhador é inútil: mostra um sistema que o torna assim, esvaziando-o.
🏆 Gabarito: A — Palavras coladas umas nas outras e sílabas partidas encenam, na própria página, a dissolução dos limites entre os indivíduos: a forma visual expressa a desumanização e a perda de identidade.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que dá conta do efeito visual; B supõe ironia inexistente, C e E se prendem a aspectos parciais e D nomeia um fenômeno menos radical que o descrito.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra poesia visual e concreta, exigindo que a diagramação seja lida como parte do sentido.
- Generalização: quando o comando menciona "disposição visual", "diagramação" ou "arranjo gráfico", a resposta precisa explicar o que a FORMA faz — descrever apenas o conteúdo é insuficiente.
- Dica de eliminação rápida: procure a relação de espelhamento entre forma e tema. Se as palavras se fundem, o tema envolve perda de limites; se se fragmentam, envolve ruptura.
- Conexões: poesia concreta e visual; alienação no trabalho; burocracia e desumanização.
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