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Mapa de questões · 1º dia
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Questão 23ENEM 2020 Digital

Dias depois da morte de D. Mariquinha, Seu Lula, todo de luto, reuniu os negros no pátio da casa-grande e falou para eles. A voz não era mais aquela voz mansa de outros tempos. Agora Seu Lula era o dono de tudo. O feitor, o negro Deodato, recebera as suas instruções aos gritos. Seu Lula não queria vadiação naquele engenho. Agora, todas as tardes, os negros teriam que rezar as ave-marias. Negro não podia mais andar de reza para S. Cosme e S. Damião. Aquilo era feitiçaria. [...]

E o feitor Deodato, com a proteção do senhor, começou a tratar a escravatura como um carrasco. O chicote cantava no lombo dos negros, sem piedade. Todos os dias chegavam negros chorando aos pés de D. Amélia, pedindo valia, proteção contra o chicote do Deodato. A fama da maldade do feitor espalhara-se pela várzea. O senhor de engenho do Santa Fé tinha um escravo que matava negro na peia. [...] E o Santa Fé foi ficando assim o engenho sinistro da várzea.

RÊGO, J. L. Fogo morto. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.

A condição dos trabalhadores escravizados do Santa Fé torna-se exponencialmente aflitiva após a morte da senhora do engenho. Nessa passagem, o sofrimento a que se submetem é intensificado pela reação à

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Romance de 30; José Lins do Rego; escravidão e religiosidade
  • ⚡ Nível: Médio — a violência física salta aos olhos, mas o comando pede o que INTENSIFICA o sofrimento
  • 🎯 Tema/Habilidade: Identificar o elemento que agrava a condição de personagens em texto narrativo
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Além dos açoites, o que torna a vida dos escravizados ainda mais aflitiva depois da morte de D. Mariquinha?"
  • Palavras-chave decisivas: todas as tardes, os negros teriam que rezar as ave-marias, Negro não podia mais andar de reza para S. Cosme e S. Damião, Aquilo era feitiçaria
  • Armadilha típica: responder com o chicote de Deodato, que é a violência mais visível, mas está contemplada em outra dimensão da narrativa
  • O que a resposta precisa demonstrar: que, junto à violência física, impôs-se a proibição das práticas religiosas próprias dos escravizados

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Fogo morto: romance de José Lins do Rego (1943), do ciclo da cana-de-açúcar; retrata a decadência dos engenhos paraibanos.
  • Seu Lula: senhor do engenho Santa Fé, que endurece o regime após a morte da esposa, D. Mariquinha.
  • S. Cosme e S. Damião: santos católicos associados, no Brasil, aos orixás Ibejis e a festas populares de forte presença afro-brasileira.
  • Sincretismo religioso: prática de associar entidades africanas a santos católicos, estratégia de sobrevivência cultural sob a escravidão.
  • Repressão religiosa: proibição de cultos e devoções próprias, tratada aqui como "feitiçaria" pelo senhor.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "A voz não era mais aquela voz mansa de outros tempos. Agora Seu Lula era o dono de tudo" → marca a virada: com a morte de D. Mariquinha, muda o regime do engenho.
  • Evidência 2: "Agora, todas as tardes, os negros teriam que rezar as ave-marias" → impõe-se uma devoção obrigatória, definida de fora.
  • Evidência 3: "Negro não podia mais andar de reza para S. Cosme e S. Damião. Aquilo era feitiçaria" → e proíbe-se, ao mesmo tempo, a devoção própria, desqualificada como feitiçaria.
  • Evidência 4: "O chicote cantava no lombo dos negros, sem piedade" → a violência física se soma à supressão religiosa, mas em outro plano.
  • Síntese: ao lado dos açoites, os escravizados perdem sumariamente o direito às suas próprias práticas de fé, o que aprofunda o sofrimento.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o que muda com a morte de D. Mariquinha

O trecho é organizado em torno de uma virada. Antes, havia "aquela voz mansa de outros tempos"; agora, Seu Lula é "o dono de tudo" e dá ordens aos gritos. Duas medidas concretas seguem: rezas obrigatórias todas as tardes e proibição das rezas a S. Cosme e S. Damião. Só depois entra o feitor Deodato e o chicote.

Subpasso 4.2 — Entender o peso da medida religiosa

As devoções a S. Cosme e S. Damião eram, entre populações negras, expressão sincrética de uma religiosidade de matriz africana — espaço de sociabilidade, memória e identidade preservado mesmo sob o cativeiro. Ao classificá-las como "feitiçaria" e substituí-las por ave-marias impostas, Seu Lula retira dos escravizados o último âmbito em que ainda dispunham de alguma autonomia. É uma violência que se soma à do corpo e atinge a vida simbólica.

Subpasso 4.3 — Verificação

O comando afirma que a condição se torna "exponencialmente aflitiva" e pergunta pelo que intensifica o sofrimento. A supressão sumária das crenças e práticas ritualísticas é a medida que, junto ao chicote, transforma o Santa Fé no "engenho sinistro da várzea". Alternativa C confirmada.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) mania do novo senhor de se dirigir a eles aos gritos.

❌ Incorreta: o tom de voz é detalhe que caracteriza a mudança de postura de Seu Lula, mas não constitui, por si, agravamento do sofrimento. O texto trata de medidas concretas — proibições e açoites —, não de estilo de fala.

B) saudade do afeto antes dispensado por D. Mariquinha.

❌ Incorreta: a morte da senhora é o marco temporal da virada, e o texto sugere que antes havia um trato mais brando. Mas não há qualquer menção a saudade ou afeto por parte dos escravizados; o foco recai sobre as novas imposições.

C) privação sumária de suas crenças e práticas ritualísticas.

✅ Correta: Seu Lula impõe as ave-marias todas as tardes e proíbe as rezas a S. Cosme e S. Damião, classificando-as como "feitiçaria". Retira-se, sem discussão, o espaço de religiosidade própria dos escravizados — âmbito de identidade e memória —, o que, somado ao chicote de Deodato, aprofunda a aflição descrita.

D) inércia moral de D. Amélia ante as imposições do marido.

❌ Incorreta: D. Amélia não é apresentada como omissa. O texto diz que os escravizados chegavam "chorando aos pés de D. Amélia, pedindo valia, proteção contra o chicote" — ela é procurada como possível amparo, e o narrador não julga sua conduta.

E) reputação do Santa Fé de lugar funesto a seus moradores.

❌ Incorreta: a fama do engenho é consequência do que ali passou a ocorrer — "E o Santa Fé foi ficando assim o engenho sinistro da várzea" —, e não causa do sofrimento dos escravizados.

🏆 Gabarito: C — Além dos açoites, Seu Lula proíbe as rezas a S. Cosme e S. Damião e impõe as ave-marias, suprimindo sumariamente a religiosidade própria dos escravizados.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que aponta uma medida efetiva de agravamento; A se prende a um detalhe, B e D atribuem sentimentos e juízos ausentes e E confunde consequência com causa.
  • Padrão de cobrança: o ENEM usa o Romance de 30 para discutir escravidão, poder senhorial e repressão às religiosidades afro-brasileiras.
  • Generalização: quando o comando diz que algo é "intensificado por", procure o elemento que se SOMA ao dano já existente — e não o dano principal, que costuma estar pressuposto.
  • Dica de eliminação rápida: desconfie de alternativas construídas sobre detalhes de caracterização (tom de voz, fama do lugar); o ENEM cobra ações com consequência concreta sobre os personagens.
  • Conexões: ciclo da cana-de-açúcar de José Lins do Rego; sincretismo religioso e resistência cultural; repressão às religiões de matriz africana.

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