Mapa de questões · 1º dia
Questão 23 — ENEM 2020 Digital
Eu tenho empresas e sou digno do visto para ir a Nova York. O dinheiro que chove em Nova York é para pessoas com poder de compra. Pessoas que tenham um visto do consulado americano. O dinheiro que chove em Nova York também é para os nova-iorquinos. São milhares de dólares. […] Estou indo para Nova York, onde está chovendo dinheiro. Sou um grande administrador. Sim, está chovendo dinheiro em Nova York. Deu no rádio. Vejo que há pedestres invadindo a via onde trafega o meu carro vermelho, importado da Alemanha. Vejo que há carros nacionais trafegando pela via onde trafega o meu carro vermelho, importado da Alemanha. Ao chegar em Nova York, tomarei providências.
SANTANNA, A. O importado vermelho de Noé. In: MORICONI. I. (Org.). Os cem melhores contos. Rio de Janeiro: Objetiva. 2001.
As repetições e as frases curtas constituem procedimentos linguísticos importantes para a compreensão da temática do texto, pois
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Leitura e interpretação de texto literário (efeito de sentido dos recursos linguísticos)
- ⚡ Nível: Médio — não basta entender a superfície do enredo; é preciso perceber a ironia que a própria sintaxe fragmentada do narrador constrói.
- 🎯 Tema/Habilidade: Efeito de sentido produzido por repetição e frases curtas em um discurso de primeira pessoa.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual efeito de sentido as repetições e as frases curtas produzem na construção do tema do texto?"
- Palavras-chave decisivas: repetições, frases curtas, procedimentos linguísticos
- Armadilha típica: confundir o tema geral do conto (o fascínio pelo "sonho americano", pelo dólar, por Nova York) com o que a FORMA do discurso — curta, repetitiva, entrecortada — revela sobre o NARRADOR que fala.
- O que a resposta precisa demonstrar: amarrar o recurso sintático (frases curtas, repetição) a um efeito de sentido preciso sobre o discurso do próprio narrador, sem extrapolar para teses genéricas que o texto não sustenta.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Narrador autocentrado: o texto é um monólogo em primeira pessoa, sem narrador externo que julgue o personagem — a crítica precisa emergir da FORMA da fala.
- Ironia: efeito de sentido que surge do contraste entre o que o narrador afirma sobre si e a pobreza formal com que o afirma.
- Repetição como esvaziamento: repetir palavras e estruturas ("dinheiro", "Nova York", "carro vermelho, importado da Alemanha") sem desenvolvê-las argumentativamente não reforça o discurso — expõe sua falta de profundidade.
- Paralelismo sintático: sequências como "Vejo que há pedestres... / Vejo que há carros..." criam ritmo mecânico, de lista, que lembra fala decorada ou repetida de outra fonte (o rádio).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Eu tenho empresas e sou digno do visto para ir a Nova York." → Frase curta e categórica que já apresenta o narrador se autoafirmando por posses e status, como quem precisa provar algo.
- Evidência 2: "Sou um grande administrador. Sim, está chovendo dinheiro em Nova York. Deu no rádio." → Frases picotadas, quase telegráficas, que soam como slogans repetidos sem reflexão — o narrador reproduz clichês ouvidos ("Deu no rádio") como se fossem convicções próprias e originais.
- Evidência 3: "meu carro vermelho, importado da Alemanha" é repetido quase palavra por palavra em duas frases seguidas, reforçando a obsessão do narrador por símbolos de status — com efeito de exagero quase cômico, não de grandeza real.
- Síntese: a insistência em afirmações curtas e repetidas, em vez de reforçar a legitimidade do discurso de poder do narrador, expõe sua fragilidade: ele fala como quem recita um refrão vazio — e é esse contraste entre pretensão e pobreza formal que constrói a ironia do texto.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o gênero e o efeito básico
O trecho pertence a um conto de Sérgio Sant'Anna, autor de narradores irônicos que se autodenunciam pela própria fala. O narrador-personagem discursa em primeira pessoa numa sequência de frases curtas, diretas e repetitivas, quase sem conectivos que estabeleçam relações lógicas complexas entre as ideias.
Subpasso 4.2 — Relacionar forma e conteúdo
Um discurso genuíno "de poder" tenderia a ser elaborado, argumentativo, sustentado por nexos que reforçassem a autoridade de quem fala. O narrador faz o oposto: enuncia frases soltas e repetidas — "dinheiro", "Nova York", "carro vermelho, importado da Alemanha" — como quem recita um roteiro decorado ou reproduz o que ouviu no rádio. Essa fragmentação não confere solidez ao discurso; ao contrário, o esvazia, tornando visível o que o narrador tenta esconder: que sua distinção social ("digno do visto", carro importado, "grande administrador") é fachada rasa sustentada por posses e clichês, não por substância.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando com as alternativas, a única que nomeia exatamente esse efeito — a futilidade do discurso de poder e de distinção do próprio narrador — é a alternativa A. As demais deslocam o foco do texto: angústias existenciais inexistentes (B), crítica generalizada aos "brasileiros" (C), denúncia explícita do capitalismo como sistema (D), ou "estereótipos sociais" como categoria coletiva ampla (E). Nenhuma descreve com precisão o que a repetição e as frases curtas fazem: revelar a futilidade do discurso individual do narrador.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) expressam a futilidade do discurso de poder e de distinção do narrador.
✅ Correta: as frases curtas e repetitivas mimetizam um discurso pretensamente grandioso (narrador rico, "grande administrador", "digno" de visto) que se revela oco justamente pela forma fragmentada: a repetição sem desenvolvimento argumentativo denuncia a vacuidade da autoimagem de poder que o narrador tenta construir.
B) disfarçam a falta de densidade das angústias existenciais narradas.
❌ Incorreta: o texto não narra angústias existenciais — o narrador demonstra orgulho e euforia com bens materiais e status, não sofrimento ou crise interior. Não há "angústia" a ser disfarçada; a alternativa propõe conteúdo ausente no fragmento.
C) ironizam a valorização da cultura norte-americana pelos brasileiros.
❌ Incorreta: embora haja fascínio pelo "sonho americano" ao fundo, a questão pede o efeito específico das repetições e frases curtas, que atuam sobre o discurso individual do narrador — não sobre uma crítica generalizada a "brasileiros" enquanto grupo, tema que o trecho não desenvolve.
D) explicitam a ganância financeira do capitalismo contemporâneo.
❌ Incorreta: "explicitar" significa tornar claro, expresso; o texto opera por ironia e sugestão, não por denúncia explícita de um sistema econômico. O efeito da repetição incide sobre a caracterização do narrador, não sobre uma tese sociológica ampla.
E) criticam os estereótipos sociais das visões de mundo elitistas.
❌ Incorreta: é a alternativa mais próxima de A, mas generaliza demais o alvo da crítica para "estereótipos sociais" e "visões de mundo elitistas" como categoria coletiva — quando o recurso linguístico incide pontualmente sobre o discurso autocentrado daquele narrador específico.
🏆 Gabarito: A — a repetição de fórmulas e a fragmentação sintática do discurso do narrador expõem, pelo próprio modo de falar, a fragilidade e a vacuidade da imagem de poder e distinção que ele tenta projetar de si mesmo.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que localiza o efeito de sentido exatamente onde o recurso linguístico atua — no discurso de autoafirmação do narrador, revelando sua futilidade, sem extrapolar para teses externas.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência a relação entre FORMA (sintaxe, pontuação, extensão das frases, repetição) e efeito de sentido em textos literários e não literários — pilar da competência de leitura da área de Linguagens.
- Generalização: quando a questão perguntar "o que tal recurso linguístico revela", a alternativa correta amarra a forma ao conteúdo psicológico/discursivo mais específico do trecho — nunca a uma tese genérica que "soa bem", mas extrapola o texto.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que introduzem elementos ausentes no texto (angústia existencial em B) e as que generalizam o alvo da crítica (C: "brasileiros"; D: "capitalismo contemporâneo"; E: "estereótipos sociais") — todas ampliam o escopo além do fragmento, enquanto o gabarito mantém o foco no narrador individual.
- Conexões: compare com questões sobre discurso indireto livre, ironia e narradores autodenunciantes em crônicas e contos de crítica social, em que a forma da fala é sempre a chave do efeito de sentido pretendido.
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