Mapa de questões · 1º dia
Questão 16 — ENEM 2020 Digital
Fomos falar com o tal encarregado, depois com um engenheiro, depois com um supervisor que mandou chamar um engenheiro da nossa companhia, Esses homens são da sua companhia, engenheiro, ele falou, estão pedindo a conta. A companhia está empenhada nessa ponte, gente, falou o engenheiro, vocês não podem sair assim sem mais nem menos. Tinha uma serra circular cortando uns caíbros ali perto, então só dava pra falar quando a serra parava, e aquilo foi dando nos nervos.
Falei que a gente tinha o direito de sair quando a gente quisesse, e pronto. Nisso encostou em sujeito de paletó mas sem gravata, o engenheiro continuou falando e a serra cortando. Quando ele parou de falar, 50 Volts aproveitou uma parada da serra e falou que a gente não era bicho pra trabalhar daquele jeito; daí o supervisor falou que, se era falta de mulher, eles davam um jeito. O engenheiro falou que tinha mais de vinte companhias trabalhando na ponte, a maioria com prejuízo, porque era mais uma questão de honra, a gente tinha de acabar a ponte, a nossa companhia nunca ia esquecer nosso trabalho ali naquela ponte, um orgulho nacional.
PELLEGRINI, D. A maior ponte do mundo. In:
Melhores contos. São Paulo: Global, 2005.
As reivindicações dos operários, quanto às condições aviltantes de trabalho a que são submetidos, recebem algumas tentativas de neutralização dos representantes do empregador, das quais a mais forte é o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Leitura e interpretação de texto literário narrativo; análise do discurso e estratégias de persuasão
- ⚡ Nível: Médio — todas as cinco alternativas têm respaldo literal no texto, e o desafio está em hierarquizá-las por força persuasiva, não apenas em localizá-las
- 🎯 Tema/Habilidade: Identificação de mecanismos de coerção e manipulação na linguagem (Competência de leitura crítica — reconhecer recursos expressivos usados para convencer, neutralizar ou desqualificar o discurso do outro)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Entre as várias táticas usadas pelos prepostos da empresa para desarmar a reclamação dos operários, qual delas é a mais forte?"
- Palavras-chave decisivas: mais forte, neutralização, reivindicações
- Armadilha típica: escolher uma alternativa só porque ela "aparece no texto" — isso vale para as cinco. O erro é não perceber que a questão pede um julgamento comparativo de intensidade argumentativa, não apenas de presença textual.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de perceber que o discurso do engenheiro é construído em escalada, terminando no argumento de maior peso simbólico — e não em qualquer um dos que vieram antes dele.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Estratégias de persuasão/retórica: recursos usados para convencer ou desarmar um interlocutor; podem atuar em níveis distintos — prático (dinheiro, hierarquia), físico (intimidação) ou simbólico/emocional (valores, identidade, honra, pátria).
- Pathos vs. logos: argumentos racionais (prejuízo financeiro, prazo de entrega) mobilizam a razão; apelos emocionais (orgulho, pertencimento, patriotismo) mobilizam a identidade do ouvinte — e por isso costumam ser mais difíceis de recusar sem parecer "traição" a um valor maior.
- Discurso relatado em 1ª pessoa: o narrador-operário reproduz as falas dos representantes da empresa quase como um diálogo transcrito, o que permite ao leitor flagrar, em tempo real, a progressão das táticas de convencimento.
- Contexto sócio-histórico do conto: "A maior ponte do mundo" retrata a exploração de operários em uma grande obra de engenharia, tema recorrente na literatura brasileira engajada, que expõe como o discurso institucional maquia a precariedade do trabalho com retórica de grandiosidade.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "A companhia está empenhada nessa ponte, gente [...] vocês não podem sair assim sem mais nem menos." → apelo aos prejuízos e ao compromisso de entrega (alternativa B).
- Evidência 2: "Nisso encostou um sujeito de paletó mas sem gravata" → sugestão velada da presença de um agente de vigilância (alternativa C), mencionada de passagem, sem desenvolvimento.
- Evidência 3: "se era falta de mulher, eles davam um jeito" → tentativa grosseira de reduzir a reivindicação trabalhista a uma carência sexual (alternativa D).
- Evidência 4: "tinha mais de vinte companhias trabalhando na ponte, a maioria com prejuízo, porque era mais uma questão de honra [...] um orgulho nacional" → ponto culminante da fala do engenheiro, que abandona o argumento financeiro e escala para "honra" e "orgulho nacional" (alternativa E).
- Síntese: o texto encena uma escalada retórica: primeiro a burocracia de "quem manda em quem" (delegação de responsabilidade), depois o apelo prático ao prejuízo, uma intimidação sutil, um deboche sexual grosseiro e, por fim, o argumento mais difícil de contestar sem parecer desleal — transformar o sofrimento dos operários em orgulho nacional.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapeando todas as tentativas de neutralização em ordem de aparição
No texto, a empresa reage à reivindicação dos operários (que "pedem a conta" por causa das condições de trabalho) com pelo menos cinco movimentos distintos: (1) empurra a reclamação de um preposto a outro — encarregado → engenheiro → supervisor → engenheiro da companhia; (2) argumenta com os prejuízos financeiros e o compromisso da empresa com a obra; (3) deixa um "sujeito de paletó mas sem gravata" se aproximar da cena, sugerindo vigilância; (4) o supervisor oferece resolver a "falta de mulher"; (5) o engenheiro fecha o discurso dizendo que a ponte é "questão de honra" e "orgulho nacional".
Subpasso 4.2 — Avaliando o peso persuasivo de cada movimento
A delegação de responsabilidades (1) é só entrave burocrático — não neutraliza o conteúdo da queixa, apenas adia a resposta. O apelo ao prejuízo (2) é racional, mas fala do interesse da empresa, não dos operários, então tem baixa adesão emocional para quem já está exausto. A presença do "sujeito de paletó" (3) é ambígua e descrita como discreta — o próprio texto não a desenvolve como argumento, apenas como pano de fundo tenso. A oferta sexual (4) é deslocada e ofensiva: mais evidencia o desprezo da gestão do que convence alguém a ficar. Já o fechamento sobre "honra" e "orgulho nacional" (5) opera em outro nível: não pede que o operário aceite dinheiro nem hierarquia — pede que ele se identifique com a empresa a ponto de sentir que abandonar o trabalho seria abandonar a própria pátria.
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando com o enunciado ("a mais forte" tentativa de neutralização), apenas o apelo que ataca a identidade e os valores do trabalhador — e não apenas seu bolso ou sua segurança física — justifica o superlativo "mais forte". Isso corresponde exatamente à alternativa E, confirmando a leitura.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) sequência de atribuição de responsabilidades e de poder decisório a terceiros.
❌ Incorreta: a cadeia encarregado → engenheiro → supervisor → engenheiro da companhia realmente ocorre, mas é procedimento administrativo, não estratégia retórica de convencimento. Ela atrasa o enfrentamento da queixa, mas não a desarma psicologicamente.
B) solicitação em nome dos prejuízos e compromissos para entrega da obra.
❌ Incorreta: presente no texto ("companhia está empenhada", "maioria com prejuízo"), mas é argumento de interesse da empresa, não dos operários — funciona como "aquecimento" retórico que antecede e prepara o apelo final, sem ser, isoladamente, o mais forte.
C) intimidação pela discreta presença de um agente de segurança na cena.
❌ Incorreta: o texto apenas sugere essa presença ("sujeito de paletó mas sem gravata"); o próprio adjetivo "discreta" indica que a tática não é verbalizada nem desenvolvida como argumento — é insinuação de fundo, não a ferramenta central de neutralização.
D) promessa de imediato atendimento da carência sexual dos operários.
❌ Incorreta: a fala do supervisor é grosseira e desrespeitosa, reduzindo uma reivindicação coletiva por condições dignas de trabalho a uma questão íntima; revela o despreparo e o desprezo da gestão, não sua eficácia persuasiva.
E) apelo pela identificação com a empresa extensiva ao amor patriótico.
✅ Correta: a fala final do engenheiro — "a nossa companhia nunca ia esquecer nosso trabalho ali naquela ponte, um orgulho nacional" — converte o sofrimento dos operários em motivo de orgulho coletivo e pertencimento à pátria. Ao vincular a obra da empresa ao "orgulho nacional", o discurso transforma a reivindicação trabalhista quase em ato de deslealdade à nação — o recurso mais sofisticado e coercitivo porque mobiliza identidade e valores, não apenas interesse material.
🏆 Gabarito: E — é o único apelo que extrapola o vínculo empregado-empresa para o vínculo cidadão-pátria, tornando-se a tentativa de neutralização mais poderosa porque ataca a identidade dos trabalhadores, não apenas seu bolso ou sua segurança.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a alternativa E capta o clímax retórico do trecho — a ampliação do discurso empresarial para o registro do "orgulho nacional", reconhecida como a manipulação discursiva mais eficaz do fragmento.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma explorar, em textos narrativos com diálogos, a identificação de estratégias argumentativas e de manipulação da linguagem, muitas vezes pedindo que o candidato compare e hierarquize razões (com termos como "mais forte", "mais eficaz", "principal").
- Generalização: quando a questão opõe um apelo prático (dinheiro, hierarquia, procedimento) a um apelo emocional/identitário (honra, pátria, pertencimento) e pede o "mais forte", a resposta tende a ser o apelo emocional — porque ele atinge valores profundos e dificulta a recusa sem culpa.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro C e D — são menções pontuais, mais descritivas que argumentativas; depois elimine A — é procedimento burocrático, não tática de convencimento. Entre B e E, prefira a que fecha e amplia o raciocínio anterior: normalmente é a última fala do trecho, porque funciona como o ápice do argumento.
- Conexões: compare com textos sobre discurso ufanista/nacionalista usado como propaganda política e com narrativas sobre precarização do trabalho, greves e relações de poder entre patrão e empregado.
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