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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaMédio

Questão 84ENEM 2020 Digital

Sempre que se evoca o tema do Renascimento, a imagem que imediatamente nos vem à mente é a dos grandes artistas plásticos e de suas obras mais famosas, amplamente reproduzidas e difundidas até os nossos dias, como a Monalisa e a Última ceia, de Leonardo da Vinci, o Juízo final, a Pietá e o Moisés, de Michelangelo, assim como as inúmeras e suaves Madonas, de Rafael, que permanecem ainda como modelo mais frequente de representação da mãe de Cristo. Como veremos, de fato, as artes plásticas acabaram se convertendo num centro de convergência de todas as principais tendências da cultura renascentista.

SEVCENKO, N. O Renascimento. Campinas: Atual, 1988 (adaptado).

Esse movimento cultural, inserido no processo de transição da modernidade europeia, caracterizou-se pela

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Renascimento cultural e a transição entre a mentalidade medieval e a moderna
  • ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não está em decorar nomes de artistas, mas em perceber, além do óbvio "Humanismo", que o próprio texto de apoio aponta para uma continuidade temática entre a arte medieval e a renascentista
  • 🎯 Tema/Habilidade: Renascimento cultural europeu como processo de transição (e não de ruptura total) entre Idade Média e Idade Moderna; leitura crítica de fonte historiográfica
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O Renascimento, enquanto movimento de transição da modernidade europeia, caracterizou-se por qual traço cultural?"
  • Palavras-chave decisivas: transição, modernidade europeia, caracterizou-se por
  • Armadilha típica: marcar automaticamente a alternativa que fala em "humanismo" só porque é a associação mais imediata e decorada sobre o Renascimento, sem checar se ela responde exatamente ao recorte que o texto de apoio propõe (a arte como espelho de continuidades, não apenas de rupturas)
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o Renascimento é um processo de transição, isto é, que convive com heranças do período anterior — e não um corte absoluto que inaugura, do nada, uma cultura inteiramente nova

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Renascimento: movimento cultural, artístico e intelectual iniciado na Itália (séculos XIV-XVI) que floresce no contexto da ascensão econômica das cidades-Estado e do mecenato de famílias burguesas, como os Médici, em Florença.
  • Transição histórica: processo que os historiadores contrapõem a "ruptura": mudanças profundas ocorrem, mas convivem por décadas ou séculos com estruturas, temas e formas do período anterior — daí o enunciado falar em "processo de transição da modernidade europeia", e não em "ruptura com a Idade Média".
  • Arte gótica: estilo artístico predominante na Europa medieval (séculos XII-XV), fortemente ligado à religiosidade cristã, com forte presença de temas bíblicos (a Virgem Maria, a Paixão de Cristo, o Juízo Final) e uma iconografia religiosa muito codificada.
  • Continuidade temática Gótico-Renascimento: mesmo com a revolução técnica da perspectiva, da anatomia e da proporção, os grandes mestres renascentistas (Da Vinci, Michelangelo, Rafael) continuaram produzindo, majoritariamente, os mesmos temas religiosos centrais da arte gótica — Última Ceia, Pietá, Juízo Final, Madonas — o que evidencia herança e reelaboração, não apagamento do repertório anterior.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "a Monalisa e a Última Ceia, de Leonardo da Vinci, o Juízo final, a Pietá e o Moisés, de Michelangelo, assim como as inúmeras e suaves Madonas, de Rafael" → quase todas as obras citadas como emblemas do Renascimento têm temática religiosa de raiz medieval: Última Ceia, Juízo Final, Pietá e Madona são todos assuntos centrais da arte gótica cristã.
  • Evidência 2: "que permanecem ainda como modelo mais frequente de representação da mãe de Cristo" → o próprio texto usa o verbo "permanecem", reforçando a ideia de continuidade de um repertório iconográfico antigo, e não de substituição por temas totalmente novos.
  • Evidência 3: "inserido no processo de transição da modernidade europeia" → o comando da questão já entrega a chave de leitura: transição implica convivência entre o novo (técnica, perspectiva, antropocentrismo) e o herdado (temas, cenas e figuras da tradição religiosa medieval/gótica).
  • Síntese: a questão não pergunta "qual filosofia sustenta o Renascimento" (isso seria humanismo, de forma genérica), mas sim o que caracteriza esse movimento como processo de transição — e a resposta está em reconhecer que a arte renascentista incorpora e reelabora representações e temas de origem gótica/medieval, em vez de romper com eles.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear o que as obras citadas têm em comum

Observe a lista de obras dada pelo texto: Monalisa (retrato leigo, mas de composição e enquadramento herdados da pintura de devoção), Última Ceia, Juízo Final, Pietá e as Madonas de Rafael. Com exceção da Monalisa, todas são cenas religiosas centrais da iconografia cristã medieval — temas que já eram amplamente representados na arte gótica dos séculos XII a XIV, em vitrais de catedrais, afrescos e retábulos. Isso é um dado concreto do enunciado, não uma inferência forçada.

Subpasso 4.2 — Relacionar o dado ao conceito de "transição"

O comando pede o traço característico do Renascimento "inserido no processo de transição da modernidade europeia". Transição, em história, significa convivência de elementos novos com elementos herdados. A inovação renascentista está na técnica (perspectiva matemática, estudo anatômico, luz e sombra, proporção áurea) e na crescente valorização do indivíduo — mas os temas continuam, em grande parte, sendo os mesmos da tradição gótica cristã. Ou seja: a forma muda profundamente; o repertório temático, herdado do período anterior, é incorporado e reelaborado, não descartado.

Subpasso 4.3 — Verificação

Se a resposta fosse simplesmente "afirmação dos princípios humanistas" (alternativa C), a questão estaria testando apenas uma associação genérica e decorada, sem nenhuma relação direta com as evidências textuais específicas apresentadas (a lista de obras religiosas). Como o enunciado insiste em "transição" e enumera obras de temática majoritariamente gótico-religiosa que "permanecem" como modelo, a alternativa que dialoga com essas evidências concretas é a que fala em incorporação de representações góticas — confirmando a letra E como a que melhor amarra texto de apoio e comando.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) validação da teoria geocêntrica.

❌ Incorreta: o geocentrismo é uma tese astronômica da cosmologia aristotélico-ptolomaica sustentada pela Escolástica medieval. O Renascimento não valida esse modelo — ao contrário, é a partir dele que germina a Revolução Científica, com Copérnico (ainda no século XVI) propondo o heliocentrismo. O enunciado, além disso, fala de artes plásticas, sem qualquer menção à astronomia.

B) valorização da integração religiosa.

❌ Incorreta: o período renascentista coincide com a fragmentação religiosa da cristandade europeia, marcada pela Reforma Protestante de Lutero (1517) e pela consequente Contrarreforma católica. Não há, portanto, um projeto de "integração religiosa" característico do Renascimento — os temas religiosos citados no texto persistem por herança cultural, não por um esforço de unificação da fé.

C) afirmação dos princípios humanistas.

❌ Incorreta apesar de ser a associação mais conhecida sobre o Renascimento: o Humanismo é, de fato, a base filosófica geral do movimento, mas essa alternativa não responde ao recorte específico que o texto de apoio constrói. O enunciado não pergunta "qual filosofia orienta o Renascimento em geral", e sim o que o caracteriza como processo de transição — e as evidências dadas (Última Ceia, Juízo Final, Pietá, Madonas, todas de temática gótico-religiosa que "permanecem" como modelo) apontam para a continuidade de representações herdadas, não apenas para a afirmação de um ideário antropocêntrico novo.

D) legitimação das tradições aristocráticas.

❌ Incorreta: o financiamento das artes renascentistas veio majoritariamente de uma burguesia mercantil e bancária urbana em ascensão — famílias como os Médici, em Florença — e não de uma legitimação da nobreza feudal tradicional. Associar o Renascimento à aristocracia inverte o papel histórico da nova elite comercial no mecenato artístico.

E) incorporação das representações góticas.

✅ Correta: as obras citadas pelo texto — Última Ceia, Juízo Final, Pietá e as Madonas — são, em sua maioria, temas centrais da iconografia religiosa gótica medieval, retomados e reelaborados pelos mestres renascentistas com nova técnica, mas mantendo o repertório visual herdado. O próprio texto reforça essa continuidade ao dizer que as Madonas "permanecem ainda como modelo mais frequente de representação da mãe de Cristo". Isso confirma que o Renascimento, como processo de transição, incorporou representações de origem gótica em vez de romper integralmente com elas.

🏆 Gabarito: E — o texto de apoio evidencia que as obras-primas do Renascimento reproduzem majoritariamente temas religiosos herdados da tradição gótica medieval (Última Ceia, Juízo Final, Pietá, Madonas), mostrando que o movimento incorporou e reelaborou essas representações no seu processo de transição para a modernidade, em vez de rompê-las por completo.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a letra E é a única alternativa amarrada diretamente às evidências textuais (a lista de obras de temática gótico-religiosa que "permanecem" como modelo), respondendo com precisão ao que o comando pede sobre o Renascimento como processo de transição.
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma cobrar o Renascimento associado ao Humanismo e ao mecenato burguês, mas também gosta de testar leituras mais atentas de fontes historiográficas, em que o candidato precisa perceber continuidades entre períodos históricos, e não apenas repetir associações decoradas.
  • Generalização: em questões de história cultural que mencionam "transição" ou "processo", desconfie de alternativas que sugerem ruptura total — mudanças históricas raramente apagam por completo o legado do período anterior; busque, no texto de apoio, pistas concretas (palavras como "permanecem", "ainda", "ao longo") que indicam continuidade.
  • Dica de eliminação rápida: elimine primeiro A e B por contradizerem fatos básicos do período (heliocentrismo nascente e fragmentação religiosa da Reforma); elimine D por inverter o papel histórico da burguesia mercantil no mecenato; entre C e E, releia o comando: se ele fala em "transição", a resposta que evidencia continuidade (E) supera a resposta genérica sobre a filosofia do movimento (C).
  • Conexões: aprofunde relacionando este tema com a Reforma Protestante e com a Revolução Científica dos séculos XVI-XVII — ambos processos que também revelam como "modernidade" e "tradição" convivem e se reelaboram ao longo da história europeia.

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