Mapa de questões · 1º dia
Questão 4 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
Eduardo Galeano — 1976 — Libertad
Pájaros prohibidos
Los presos políticos uruguayos no pueden hablar sin permiso, silbar, sonreír, cantar, caminar rápido ni saludar a otro preso. Tampoco pueden dibujar ni recibir dibujos de mujeres embarazadas, parejas, mariposas, estrellas ni pájaros.
Didaskó Pérez, maestro de escuela, torturado y preso por tener ideas ideológicas, recibe un domingo la visita de su hija Milay, de cinco años. La hija le trae un dibujo de pájaros. Los censores se lo rompen en la entrada a la cárcel.
El domingo siguiente, Milay le trae un dibujo de árboles. Los árboles no están prohibidos, y el domingo pasa. Didashkó le elogia la obra y le pregunta por los circulitos de colores que aparecen en la copa de los árboles, muchos pequeños círculos entre las ramas:
— ¿Son naranjas? ¿qué frutas son?
La niña lo hace callar:
— Ssssshhhh.
Y en secreto le explica:
— Bobo, ¿no ves que son ojos? Los ojos de los pájaros que te traje a escondidas.
GALEANO, E. Memoria del fuego III. El siglo del viento. Madrid: Siglo Veintiuno de España, 1986.
A narrativa desse conto, que tem como pano de fundo a ditadura militar uruguaia, revela a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Espanhol → interpretação de texto literário (conto) e contexto histórico das ditaduras do Cone Sul
- ⚡ Nível: Médio — vocabulário acessível (muitos cognatos do português), mas exige captar um sentido implícito, não apenas explícito
- 🎯 Tema/Habilidade: Identificar o tema central de um relato em língua estrangeira a partir de índices textuais (Linguagens — a LE como acesso a outras culturas)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que este conto de Galeano, ambientado na ditadura militar uruguaia, revela sobre a relação entre repressão e quem a enfrenta?"
- Palavras-chave decisivas: recibir dibujos... de pájaros (proibição), Los árboles no están prohibidos (a brecha), son ojos... a escondidas (o código revelado)
- Armadilha típica: ler que os censores rasgam o desenho da menina e marcar a alternativa sobre falta de sensibilidade com crianças — confundindo um episódio duro do enredo com o sentido da narrativa como um todo.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o clímax do conto não é a crueldade da censura em si, mas a solução inteligente que a criança encontra para contorná-la.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Contexto histórico: a ditadura civil-militar uruguaia (1973–1985) controlava, nos presídios, até o que podia ser desenhado nas visitas — sinal do grau extremo da repressão.
- Censura de símbolos: a lista de proibições — grávidas, casais, borboletas, estrelas, pássaros — mira símbolos de vida e liberdade; é isso que o regime teme, não o traço do desenho.
- Resistência simbólica e perspicácia: barrada na primeira tentativa, Milay esconde os pássaros num desenho autorizado (árvores), virando-os pequenos círculos que parecem frutas mas são, em segredo, "os olhos dos pássaros" — engenho infantil para superar um problema real.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Tampoco pueden... recibir dibujos de... pájaros" → fixa a regra: pássaros são proibidos, o que transforma o afeto da menina em obstáculo concreto.
- Evidência 2: "Los censores se lo rompen..." / "Los árboles no están prohibidos" → contraste deliberado: o proibido é bloqueado, o que não está na lista passa — e é essa brecha que Milay explora.
- Evidência 3: "¿no ves que son ojos? ...que te traje a escondidas" → a virada: os círculos que o pai lê como frutas são, no segredo entre os dois, pássaros camuflados.
- Síntese: duas cenas espelhadas — um desenho de pássaros que fracassa e um de árvores que, aparentemente inofensivo, contém pássaros disfarçados — colocam em primeiro plano a inteligência da criança ao burlar a censura.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear o conflito inicial
O texto abre com uma regra: presos políticos uruguaios não podem receber desenhos de pássaros. No primeiro domingo, Milay é vítima dela — seu desenho é destruído "en la entrada a la cárcel", antes de chegar ao pai.
Subpasso 4.2 — Identificar a virada
No domingo seguinte, Milay leva um desenho de árvores — categoria não listada entre os proibidos — e ele passa. Didaskó faz então leitura ingênua dos "circulitos de colores" na copa: pergunta se são laranjas, como um censor desatento interpretaria. A menina o faz calar e revela em segredo: os círculos são os olhos dos pássaros que ela contrabandeou disfarçados dentro de uma imagem permitida.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando o comando com o mapeado acima: o sentido central não é a violência da censura isolada (só o ponto de partida), nem a estrutura física da prisão (não descrita), nem falha de comunicação entre presos (não há outros presos em cena), nem abandono afetivo (o vínculo pai–filha é reforçado pelo segredo). A narrativa demonstra como uma criança de cinco anos supera, com criatividade, um sistema adulto de vigilância — a perspicácia da criança ao burlar a censura. Corresponde à alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) desvinculação social dos presos políticos.
❌ Incorreta: o conto mostra o oposto — Milay visita o pai todo domingo e mantém com ele uma cumplicidade afetiva forte, coroada pelo segredo final. A prisão limita o corpo de Didaskó, não o vínculo entre pai e filha.
B) condição precária dos presídios uruguaios.
❌ Incorreta: o texto não descreve infraestrutura, superlotação ou qualquer aspecto material do cárcere. O único elemento detalhado do ambiente prisional é a fiscalização simbólica na entrada — dado sobre repressão ideológica, não sobre condições físicas.
C) perspicácia da criança ao burlar a censura.
✅ Correta: toda a construção narrativa — desenho de pássaros destruído, desenho de árvores aceito, revelação sussurrada do código secreto — converge para mostrar a esperteza de Milay ao driblar a censura sem violá-la abertamente.
D) falta de sensibilidade no trato com as crianças.
❌ Incorreta — a armadilha mais forte da questão. É verdade que os censores rasgam o desenho da menina, gesto duro. Mas o alvo é o símbolo "pássaro", não a criança em si, e esse não é o sentido final que o conto desenvolve: a narrativa avança para mostrar a resposta inteligente de Milay. Tomar esse detalhe pela "revelação" central é confundir um evento pontual com o tema que o texto de fato constrói.
E) dificuldade de comunicação entre os presos políticos.
❌ Incorreta: não há, em nenhum momento, cena de comunicação entre presos políticos entre si. Toda a comunicação do conto ocorre na relação pai–filha, entre Didaskó e Milay.
🏆 Gabarito: C — a narrativa é organizada para revelar, pelo contraste entre os dois desenhos e pela revelação final sussurrada, a perspicácia de uma criança de cinco anos ao burlar a censura política imposta ao pai preso.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só C nomeia o efeito de sentido que estrutura o conto inteiro; as demais descrevem elementos ausentes do texto ou elevam um detalhe pontual do enredo a tema central (caso de D).
- Padrão de cobrança: o ENEM, na regular e na PPL, usa com frequência textos literários curtos em língua estrangeira perguntando o que a narrativa "revela/mostra/critica" — leitura global, não tradução literal.
- Generalização: em textos narrativos, a resposta certa está no efeito de sentido do arco completo do enredo (início → conflito → virada → desfecho), não em um detalhe isolado, por mais marcante que pareça.
- Dica de eliminação rápida: descarte o que o texto não menciona (B e E); entre as restantes, escolha a que resume o arco completo da história, não só seu ponto de partida (elimina D em favor de C).
- Conexões: literatura hispano-americana de temática política (Galeano, "Memoria del fuego"); ditaduras civis-militares do Cone Sul e censura simbólica.
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