Mapa de questões · 1º dia
Questão 48 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
O ponto de partida para o nascimento de uma cozinha brasileira foi o livro de receitas Cozinheiro Imperial, de 1840. Estimulava a nobreza e os ricos a acrescentarem ingredientes e pratos locais em suas festas. A princesa Isabel comemorou as bodas de prata com um banquete no qual foram servidos bolo de mandioca e canja à brasileira.
RIBEIRO, M. Fome imperial: Dom Pedro II não era um gourmet, mas ajudou a dar forma à gastronomia brasileira. Aventuras na História, mar. 2014 (adaptado).
O uso da culinária popular brasileira, no contexto apresentado, colaborou para
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Segundo Reinado; construção da identidade nacional; cultura material e alimentar
- ⚡ Nível: Médio — o texto dá pistas fortes, mas exige distinguir "construção de identidade cultural" de "ruptura política com a colônia"
- 🎯 Tema/Habilidade: O Segundo Reinado e o projeto de invenção de símbolos nacionais; interpretar processos históricos de construção identitária a partir de fontes de época
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que revela, sobre o Brasil do Segundo Reinado, a elite ter incorporado pratos populares e locais às suas mesas?"
- Palavras-chave decisivas: Cozinheiro Imperial, de 1840, nobreza e os ricos... ingredientes e pratos locais, bodas de prata... bolo de mandioca e canja à brasileira
- Armadilha típica: achar que "elemento local ganhando destaque" significa automaticamente ruptura com o colonizador — quando é a própria elite que promove e controla esse processo.
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que apropriar-se de pratos populares brasileiros, em ocasiões solenes, é mecanismo de construção simbólica da nação.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Segundo Reinado (1840-1889): governo de D. Pedro II, iniciado pelo golpe da Maioridade para encerrar a instabilidade regencial; um de seus pilares é construir símbolos que deem coesão e legitimidade à nação recém-independente.
- Invenção de tradições (Hobsbawm): elites ressignificam práticas populares como marcas "oficiais" da nação — no Brasil aparece no Romantismo indianista de Alencar e no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838).
- Cultura material como linguagem identitária: comida, arte e vestimenta comunicam pertencimento sem discurso explícito; servir mandioca e canja "à brasileira" à mesa da realeza declara que aquilo também é nobre por ser nacional — sem qualquer relação com política externa ou religião.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Cozinheiro Imperial, de 1840 (...) Estimulava a nobreza e os ricos a acrescentarem ingredientes e pratos locais" → manual de cozinha da elite passa a valorizar o brasileiro, rompendo o predomínio quase absoluto da cozinha francesa nas mesas de prestígio.
- Evidência 2: "bodas de prata com um banquete no qual foram servidos bolo de mandioca e canja à brasileira" → na celebração mais solene da família imperial, um ingrediente indígena (mandioca) e uma releitura "brasileira" de prato português (canja) ganham lugar de destaque.
- Síntese: de um livro de receitas a um banquete real, a elite absorve o popular e o local e o transforma em símbolo oficial de brasilidade — o mecanismo de construção de identidade nacional.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Situar o recorte temporal e político
1840 marca o início do Segundo Reinado: pela Maioridade, D. Pedro II assume o trono ainda adolescente para encerrar a turbulência regencial. Esse momento se apoia num projeto cultural de afirmação da nação — o IHGB organiza uma história "oficial", o Romantismo indianista glorifica figuras nativas. O texto mostra a gastronomia integrando esse mesmo movimento.
Subpasso 4.2 — Interpretar o mecanismo de construção identitária
O texto não descreve o povo se apropriando de hábitos da elite, mas o caminho inverso: é a nobreza e a família real que absorvem e "oficializam" pratos populares. Esse movimento de cima para baixo cria um repertório de símbolos ("isto é brasileiro e digno da mesa mais nobre") que dá à jovem nação um caráter próprio, sem exigir ruptura com a estrutura de poder monárquica.
Subpasso 4.3 — Verificação
Somando "livro de receitas de 1840 estimulando pratos locais" a "banquete real com mandioca e canja à brasileira", toda a evidência converge para um único processo: construção da identidade nacional pela cultura material. Não há menção a enfraquecimento de elites, rompimento com Portugal, religião ou escravidão — o que já descarta A, B, C e E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) enfraquecer as elites agrárias.
❌ Incorreta: o texto mostra o oposto — são a nobreza e os ricos que lideram a incorporação da culinária local, fortalecendo-se como guardiões da identidade brasileira e ditando o que passa a valer como "cultura nacional".
B) romper os laços coloniais.
❌ Incorreta: os laços coloniais políticos com Portugal já haviam sido rompidos em 1822, quase vinte anos antes. O texto descreve um processo cultural interno a um Império já independente — a corte manteve fortes vínculos europeus (a cozinha francesa seguiu hegemônica; só se somaram elementos locais). Confundir "construir identidade própria" com "romper com o colonizador" é o erro mais comum aqui.
C) reforçar a religião católica.
❌ Incorreta: não há menção a religião, ritual ou Igreja no fragmento. Bolo de mandioca e canja são pratos seculares, servidos numa comemoração familiar e civil (bodas de prata).
D) construir a identidade nacional.
✅ Correta: o uso, por nobres e pela realeza, de pratos populares brasileiros — mandioca, canja "à brasileira" — em ocasiões de prestígio é mecanismo clássico de invenção de símbolos nacionais, o mesmo movimento do Romantismo indianista e do IHGB. A gastronomia vira mais uma linguagem de brasilidade.
E) humanizar o regime escravocrata.
❌ Incorreta: o Brasil de 1840-1889 ainda era escravocrata (Lei Áurea só em 1888), mas o fragmento não menciona pessoas escravizadas, seu trabalho ou tratamento. É armadilha para quem sabe que a culinária brasileira tem raízes no saber de cozinheiras negras escravizadas e tenta "importar" essa informação para um texto que não a traz.
🏆 Gabarito: D — a apropriação de pratos populares brasileiros em livros de receita e banquetes oficiais é instrumento de construção simbólica da identidade nacional no Segundo Reinado.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa D é sustentada por todas as evidências — um manual de 1840 e um banquete real que transformam pratos populares em símbolos nacionais, processo de construção, não de ruptura política, religião ou humanização de mazelas sociais.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência o Segundo Reinado sob a chave "projeto de construção da nação" — pelo Romantismo/indianismo, pela historiografia do IHGB ou, como aqui, pela cultura alimentar.
- Generalização: quando o enunciado mostrar elite ou Estado "adotando oficialmente" um elemento popular (língua, festa, comida) numa nação recém-independente buscando coesão, a resposta tende a ser "construção da identidade nacional".
- Dica de eliminação rápida: o texto fala de ruptura com Portugal? Não → elimina B. Fala de religião? Não → elimina C. Fala de escravizados? Não → elimina E. As elites perdem poder? Não, ganham protagonismo → elimina A. Sobra D.
- Conexões: Romantismo indianista (José de Alencar); Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838); "invenção das tradições" (Hobsbawm).
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