Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 32ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

esse cão que me segue
é minha família, minha vida
ele tem frio mas não late nem pede
ele sabe que o que eu tenho
divido com ele, o que eu não tenho
também divido com ele
ele é meu irmão
ele é que é meu dono

bicho se é por destino sina ou sorte
só faltando saber se bicho decente 
bicho de casa, bicho de carro, bicho
no trânsito, se bicho sem norte na fila
se bicho no mangue, se bicho na brecha
se bicho na mira, se bicho no sangue

catar papel é profissão, catar papel
revela o segredo das coisas, tem
muita coisa sendo jogada fora
muita pessoa sendo jogada fora

OLIVEIRA, V. L. O músculo amargo do mundo. São Paulo: Escrituras, 2014.

No poema, os elementos presentes do campo de percepção do eu lírico evocam um realinhamento de significados, uma vez que

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → poesia contemporânea/marginal, sujeito lírico e crítica social
  • ⚡ Nível: Médio — a resposta certa não está numa frase explícita, mas num paralelismo sintático que o leitor precisa decodificar
  • 🎯 Tema/Habilidade: Efeitos de sentido no texto poético; leitura crítica de uma denúncia social construída por comparação implícita
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que novo sentido nasce da forma como o eu lírico enxerga o mundo ao seu redor?"
  • Palavras-chave decisivas: campo de percepção, realinhamento de significados, catar papel
  • Armadilha típica: prender-se ao trecho inicial (a relação afetiva com o cão, "ele é que é meu dono") e escolher a alternativa sobre inversão de papéis, ignorando que o poema se desloca para outro assunto no seu fecho.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o "realinhamento" mencionado no comando é o deslocamento do sentido de "descarte" — do lixo material para o ser humano tratado como refugo social.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Eu lírico marginal: voz poética que fala a partir de uma posição social periférica (aqui, um catador de papel), traço típico da poesia marginal/periférica brasileira contemporânea, que usa a experiência cotidiana como matéria de denúncia.
  • Paralelismo sintático: repetição de uma mesma estrutura frasal trocando apenas um termo, recurso que cria equivalência de sentido entre os dois elementos comparados — no poema, "tem muita coisa sendo jogada fora / muita pessoa sendo jogada fora".
  • Metáfora do descarte: o "lixo"/"papel jogado fora", que é matéria-prima do trabalho do catador, passa a funcionar como imagem que se estende ao ser humano, revelando uma leitura crítica da desigualdade.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "catar papel é profissão, catar papel / revela o segredo das coisas" → o eu lírico apresenta sua atividade como fonte de um saber sobre o mundo — ele enxerga algo que passa despercebido a quem não vive à margem.
  • Evidência 2: "tem / muita coisa sendo jogada fora / muita pessoa sendo jogada fora" → construção em paralelo que iguala "coisa" e "pessoa" dentro do mesmo verbo ("jogada fora"), sendo a chave do "realinhamento de significados" citado no comando.
  • Síntese: o poema parte da observação concreta do descarte material (o papel que o catador recolhe) e, no verso final, generaliza essa mesma lógica para o plano humano: o verdadeiro "segredo das coisas" revelado pela catação é que pessoas também são tratadas como resíduo pela sociedade.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear o campo de percepção do eu lírico

O eu lírico constrói sua fala a partir de dois eixos: o afeto com o cão (que ele chama de família, irmão, e até de "dono", numa inversão carinhosa) e sua atividade profissional de catador de papel. Esse é o "campo de percepção" citado no comando: um olhar formado pela convivência com a precariedade e o descarte.

Subpasso 4.2 — Localizar o ponto de virada (o realinhamento)

"Realinhamento de significados" indica que algo muda de sentido ao longo do poema. Essa mudança ocorre exatamente na passagem final. O verso "catar papel... revela o segredo das coisas" funciona como uma preparação: avisa o leitor de que a atividade de catação vai revelar algo maior do que o simples ofício. A revelação vem no paralelo imediatamente seguinte — "muita coisa sendo jogada fora / muita pessoa sendo jogada fora". Aqui a percepção sai do plano material (papel, lixo, o que o catador recolhe) e se estende ao plano humano (gente descartada pela sociedade), num movimento de generalização crítica.

Subpasso 4.3 — Verificação

Voltando ao comando: pede-se o sentido que "emerge" desse realinhamento. Apenas uma leitura capta com precisão esse deslocamento semântico específico — do descarte de coisas ao descarte de pessoas —, respondendo exatamente ao que foi perguntado. Essa leitura corresponde à alternativa A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) emerge a consciência do humano como matéria de descarte.

✅ Correta: é exatamente o que o paralelismo final constrói. Ao repetir a mesma estrutura frasal trocando "coisa" por "pessoa", o poema equipara o descarte material ao descarte humano, tornando explícita a crítica de que pessoas são tratadas como resíduo social — esse é o realinhamento de significados pedido pelo comando.

B) reside na eventualidade do acaso a condição do indivíduo.

❌ Incorreta: o poema menciona "destino, sina ou sorte" ao classificar tipos de "bicho", mas não afirma que a condição do indivíduo decorre do acaso. Ao contrário, a enumeração sugere uma condição estrutural e recorrente (várias formas de exclusão), não um evento fortuito e isolado.

C) ocorre uma inversão de papéis entre o dono e seu cão.

❌ Incorreta: o verso "ele é que é meu dono" sugere, sim, uma troca afetiva de papéis entre eu lírico e cão, mas esse é apenas o ponto de partida emocional do texto, restrito aos primeiros versos. O comando pergunta pelo realinhamento que "emerge" do campo de percepção como um todo, e o eixo central do poema — reforçado pelo fecho — é a crítica social ao descarte humano, não a hierarquia doméstica entre humano e animal.

D) se instaura um ambiente de caos no mosaico urbano.

❌ Incorreta: a enumeração "bicho de casa, bicho de carro, bicho no trânsito... bicho no mangue... bicho na mira" caracteriza tipos e situações de vulnerabilidade ("bicho" como metáfora de condição indefinida), mas não constrói uma cena de caos generalizado; o tom é de catalogação crítica, não de desordem urbana.

E) se atribui aos rejeitos uma valorização imprevista.

❌ Incorreta: o poema denuncia a equivalência entre coisa e pessoa descartadas, mas não atribui a esses rejeitos nenhuma valorização inesperada. Não há elogio, reabilitação simbólica ou ressignificação positiva do lixo — há, isso sim, uma constatação amarga sobre a desumanização.

🏆 Gabarito: A — o paralelismo "muita coisa sendo jogada fora / muita pessoa sendo jogada fora" evidencia que o campo de percepção do catador revela, por realinhamento de sentido, a consciência do humano tratado como matéria de descarte.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que nomeia corretamente o deslocamento de sentido do plano material para o plano humano, presente no verso final do poema — o núcleo argumentativo do texto.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz poesia marginal/contemporânea de temática social (trabalho informal, periferia, exclusão) pedindo que o candidato identifique a crítica social construída pelo texto, muitas vezes por meio de um recurso formal (repetição, paralelismo, contraste).
  • Generalização: sempre que um texto poético repetir uma estrutura sintática trocando apenas um termo, procure o contraste semântico entre os dois termos — é ali, quase sempre, que está a chave interpretativa da questão.
  • Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que trazem ideias não sustentadas por evidência textual direta (acaso, caos, valorização positiva); restam as que dialogam com o verso de maior carga semântica do poema — normalmente o último.
  • Conexões: poesia marginal/periférica brasileira; literatura de denúncia social; funções da linguagem (poética e expressiva) aplicadas à crítica social.

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.