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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsDifícil

Questão 33ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

A orquestra atacou o tema que tantas vezes ouvi na vitrola de Matilde. Le maxixe!, exclamou o francês […] e nos pediu que dançássemos para ele ver. Mas eu só sabia dançar a valsa, e respondi que ele me honraria tirando minha mulher. No meio do salão os dois se abraçaram e assim permaneceram, a se encarar. Súbito ele a girou em meia-volta, depois recuou o pé esquerdo, enquanto com o direito Matilde dava um longo passo adiante, e os dois estacaram mais um tempo, ela arqueada sobre o corpo dele. Era uma coreografia precisa, e me admirou que minha mulher conhecesse aqueles passos. O casal se entendia à perfeição, mas logo distingui o que nele foi ensinado do que era nela natural. O francês, muito alto, era um boneco de varas, jogando com uma boneca de pano. Talvez pelo contraste, ela brilhava entre dezenas de dançarinos, e notei que todo o cabaré se extasiava com a sua exibição. Todavia, olhando bem, eram pessoas vestidas, ornadas, pintadas com deselegância, e foi me parecendo que também em Matilde, em seus movimentos de ombros e quadris, havia excesso. A orquestra não dava pausa, a música era repetitiva, a dança se revelou vulgar, pela primeira vez julguei meio vulgar a mulher com quem eu tinha me casado. Depois de meia hora eles voltaram se abanando, e escorria suor pelo colo de Matilde decote abaixo. Bravô, eu gritei, bravô, e ainda os estimulei a dançar o próximo tango, mas Dubosc disse que já era tarde, e que eu tinha um ar fatigado.

CHICO BUARQUE. Leite derramado. São Paulo: Cia. das Letras, 2009.

Os recursos expressivos de um texto literário fornecem pistas aos leitores sobre a percepção dos personagens em relação aos eventos da narrativa. No fragmento, constitui um aspecto relevante para a compreensão das intenções do narrador a

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Literatura Brasileira Contemporânea (Chico Buarque, Leite Derramado) — narrador-personagem e recursos expressivos
  • ⚡ Nível: Difícil — a resposta não está dita de forma explícita; exige inferir o sentimento do narrador a partir de pistas indiretas (escolhas lexicais e mudança abrupta de tom)
  • 🎯 Tema/Habilidade: Recursos expressivos na construção do narrador-personagem; leitura inferencial de texto literário (reconhecer, em textos verbais, os recursos responsáveis pela produção de sentido e pela caracterização de quem narra)
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que elemento do texto ajuda o leitor a perceber o que o narrador realmente sente, para além do que ele diz de forma explícita?"
  • Palavras-chave decisivas: "boneco de varas", "vulgar", "bravô... mas Dubosc disse que já era tarde"
  • Armadilha típica: interpretar a crítica à música, à dança ou ao comportamento de Matilde como um juízo estético ou moral sincero e autônomo, sem perceber que ele é reação a um gatilho emocional muito específico — a cumplicidade física entre a esposa e o francês.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar um recurso expressivo (a desqualificação verbal de personagens) e associá-lo corretamente ao sentimento que ele revela por trás do discurso do narrador.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Narrador-personagem (1ª pessoa): conta os fatos sob seu próprio ponto de vista, o que compromete a objetividade do relato — o leitor recebe os eventos já filtrados pela subjetividade e pelos interesses emocionais de quem narra.
  • Narrador não confiável: técnica em que o texto sugere, por contradições e mudanças bruscas de avaliação, que a versão do narrador não deve ser aceita ao pé da letra — cabe ao leitor "ler nas entrelinhas" para reconstituir o que de fato aconteceu e o que o narrador sente.
  • Contexto da obra: em Leite Derramado (2009), Eulálio — o narrador — é um aristocrata decadente que relembra, já idoso e internado, sua vida e seu casamento com Matilde, mulher mais jovem e de origem social distinta da sua. A relação é marcada por posse, vaidade ferida e ciúme constante.
  • Desqualificação como mecanismo de defesa: rebaixar verbalmente outra pessoa (chamá-la de "boneco", de "vulgar") é uma forma indireta de lidar com um sentimento que o próprio narrador não assume abertamente — aqui, o ciúme diante da exposição da esposa a outro homem.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "respondi que ele me honraria tirando minha mulher" → o narrador cede a esposa ao estrangeiro em tom cerimonioso, preservando uma pose de controle e superioridade social mesmo ao autorizar a dança — sinal de que sua postura inicial já é performática, não espontânea.
  • Evidência 2: "O francês, muito alto, era um boneco de varas, jogando com uma boneca de pano" → no auge da dança, o narrador reduz o parceiro a um objeto sem vontade própria (um "boneco") e a própria Matilde a um brinquedo manipulado ("boneca de pano") — desqualifica os DOIS integrantes da cena ao mesmo tempo.
  • Evidência 3: "ela brilhava entre dezenas de dançarinos" (admiração) contra "a dança se revelou vulgar, [...] julguei meio vulgar a mulher com quem eu tinha me casado" (desprezo) → em poucas linhas, a admiração inicial se transforma em condenação, sem que nada de objetivo tenha mudado na cena além da intimidade crescente entre Matilde e o francês.
  • Síntese: as três evidências formam um padrão coerente — o narrador desqualifica exatamente as duas pessoas envolvidas na dança, e faz isso no exato momento em que a cumplicidade entre elas se torna mais visível para todo o cabaré. Esse padrão textual é a assinatura do ciúme, não de um julgamento estético ou moral independente e coerente.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Reconstituir a cena e a posição do narrador

A cena se passa em um cabaré: a orquestra toca um maxixe, um francês convida Matilde para dançar, e o narrador — marido dela — cede o lugar e passa a observar a dança de fora. Esse deslocamento é central para a interpretação: o narrador não é o par de dança, é o espectador excluído, e é justamente dessa posição de quem observa sem poder participar que nascem suas impressões cada vez mais carregadas de emoção.

Subpasso 4.2 — Rastrear a curva emocional do narrador ao longo do trecho

No início da dança, a reação é de admiração genuína: "Era uma coreografia precisa", "ela brilhava entre dezenas de dançarinos". Em seguida, ainda tentando manter uma distância crítica, ele nota que "todo o cabaré se extasiava com a sua exibição" — sinal de que Matilde está se tornando o centro das atenções de outros homens, não apenas do francês. É exatamente nesse ponto que o discurso muda de direção: o narrador passa a enxergar "excesso" nos movimentos da esposa e conclui que a dança é "vulgar". Essa guinada, de admiração para desprezo, não tem uma causa externa nova — a causa é interna e emocional: o desconforto de vê-la desejada e admirada publicamente por outros homens.

Subpasso 4.3 — Verificação: por que é ciúme, e não outra coisa

Se o narrador estivesse fazendo uma crítica estética ou de classe genuína (como sugerem as alternativas C e D), ele manteria coerência interna: elogiaria tecnicamente a dança do francês (o que não faz — chama-o de "boneco de varas") e evitaria estimular nova apresentação ao final (o que ele faz, ao pedir que o casal "dançasse o próximo tango"). Se estivesse com inveja do talento do estrangeiro (alternativa A), o narrador o descreveria com admiração e não como um objeto inanimado e sem vida própria. Se fosse pura atitude interesseira (alternativa E), o "bravô" seria seguido de continuidade genuína da festa, não da aceitação apressada da desculpa de Dubosc para ir embora, alegando estar "fatigado". A única leitura que explica TODAS as pistas ao mesmo tempo — a desqualificação do francês, a desqualificação da própria esposa, a mudança abrupta de tom e a pressa em encerrar a noite — é o ciúme disfarçado de comentário sobre música, dança e comportamento.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) inveja disfarçada em relação ao estrangeiro, sugerida pela descrição de seu talento como dançarino.

❌ Incorreta: o texto não exalta o talento do francês — pelo contrário, o descreve como "um boneco de varas", imagem que ridiculariza e desumaniza, e não que reconhece habilidade invejável. Inveja pressuporia admiração pelo talento alheio; aqui há desqualificação, exatamente o oposto disso.

B) demonstração de ciúmes, expressa pela desqualificação dos participantes da cena narrada.

✅ Correta: o narrador rebaixa simultaneamente o francês ("boneco de varas") e a própria esposa ("vulgar"), revelando que o que está em jogo não é uma avaliação estética ou moral coerente, mas o desconforto diante da intimidade e do destaque que os dois ganham dançando juntos diante de todo o cabaré. A desqualificação de ambos os personagens da cena é o recurso expressivo que denuncia o ciúme do narrador.

C) postura aristocrática, assinalada pela crítica à orquestra e ao gênero musical executado.

❌ Incorreta: a menção à orquestra ("não dava pausa", "música repetitiva") é um comentário lateral, não o centro do julgamento — e uma postura aristocrática coerente não incluiria rebaixar a própria esposa, alguém do seu próprio círculo doméstico e social. A crítica migra rapidamente da música para as pessoas, o que descaracteriza um julgamento de classe isolado e consistente.

D) manifestação de desprezo pela dança, indicada pela crítica ao exibicionismo da mulher.

❌ Incorreta: quem despreza a dança não pede para dançar valsa logo no início do trecho, nem estimula o casal a "dançar o próximo tango" ao final — o próprio comportamento do narrador contradiz a hipótese de um desprezo genuíno pela prática da dança em si.

E) atitude interesseira, pressuposta no elogio final e no estímulo à continuação da dança.

❌ Incorreta: não há no texto qualquer indício de vantagem social, financeira ou de status que o narrador buscasse obter com o elogio; o "bravô" soa antes como tentativa de disfarçar o próprio desconforto — logo em seguida, ele aceita com alívio a desculpa de Dubosc para encerrar a noite, o que contradiz um interesse genuíno em prolongar a exibição do casal.

🏆 Gabarito: B — A alternativa B é a única que associa corretamente o recurso expressivo em jogo (a desqualificação simultânea do francês e de Matilde) ao sentimento que ele revela: o ciúme do narrador, disfarçado de comentário sobre dança, música e comportamento alheio.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa sustentada por evidências que atingem os DOIS polos da cena (o francês e Matilde) ao mesmo tempo — característica que aponta para ciúme, e não para uma crítica isolada de talento, classe social ou moral.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa fragmentos de narradores em 1ª pessoa (Machado de Assis, Clarice Lispector, Chico Buarque) para cobrar a percepção de sentimentos e intenções que não estão declarados explicitamente no texto — o chamado narrador não confiável.
  • Generalização: sempre que o narrador mudar de tom (de elogio para crítica, ou o contrário) sem que nada de objetivo tenha mudado na cena, desconfie de uma motivação emocional subjacente — procure identificar o que realmente disparou essa mudança.
  • Dica de eliminação rápida: observe quem é atingido pela crítica do narrador. Se o alvo é mais de um personagem ao mesmo tempo (aqui, o rival E a própria esposa), a explicação mais provável é um sentimento pessoal como o ciúme, não um julgamento estético, moral ou de classe isolado — esse único critério já elimina as alternativas C e D.
  • Conexões: Leite Derramado (Chico Buarque); foco narrativo em 1ª pessoa; narrador não confiável; caracterização indireta de personagens.

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