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Mapa de questões · 1º dia
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Questão 36ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

Vez por outra, indo devolver um filme na locadora ou almoçar no árabe da rua de baixo, dobro uma esquina e tomo um susto. Ué, cadê o quarteirão que estava aqui? Onde na véspera havia casinhas geminadas, roseiras cuidadas por velhotas e janelas de adolescentes, cheias de adesivos, há apenas uma imensa cratera, cercada de tapumes. […]

Em breve, do buraco brotará um prédio, com grandes garagens e minúsculas varandas, e será batizado de Arizona Hills, ou Maison Lacroix, ou Plaza de Marbella, e isso me entristece. Não só porque ficará mais feio meu caminho até a locadora, ou até o árabe na rua de baixo, mas porque é meu bairro que morre, devagarinho. Os bairros, como os homens, também têm um espírito. […]

Às vezes, no fim da tarde, quando ouço o sino da igreja da Caiubi badalar seis vezes, quase acredito que estou numa cidade do interior. Aí saio para devolver os vídeos, olho para o lado, percebo que o quarteirão desapareceu e me dou conta de que estou em São Paulo, e que eu mesmo tenho minha cota de responsabilidade: moro no segundo andar de um prédio. […] Ali embaixo, onde agora fica a garagem, já houve uma cratera, e antes dela o jardim de uma velhota e a janela de um adolescente, cheia de adesivos.

PRATA, A. Perdizes. In: Meio intelectual, meio de esquerda. São Paulo: Editora 34, 2010.

Na crônica, a incidência do contexto social sobre a voz narrativa manifesta-se no(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → leitura e interpretação de crônica; voz narrativa; relação texto-contexto social
  • ⚡ Nível: Médio — as alternativas incorretas parafraseiam detalhes reais do texto, exigindo separar o tema central do que é apenas sintoma dele
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer como um fenômeno social (verticalização/especulação imobiliária) atravessa e organiza a subjetividade do narrador
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que, na forma como o contexto social aparece na voz do narrador, resume o verdadeiro incômodo dele com a transformação do bairro?"
  • Palavras-chave decisivas: incidência do contexto social, voz narrativa, manifesta-se
  • Armadilha típica: escolher uma alternativa que cita um detalhe verdadeiro do texto (nostalgia, estrangeirismos, autocrítica, progresso) em vez da ideia que amarra todos esses detalhes
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de hierarquizar informações — reconhecer o eixo temático que organiza a crônica inteira, e não apenas uma pista isolada dela

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Crônica contemporânea de costumes: gênero híbrido entre jornalismo e literatura, ancorado no cotidiano urbano e no olhar pessoal do cronista — Antonio Prata é um dos nomes centrais desse subgênero na literatura brasileira recente.
  • Voz narrativa em 1ª pessoa: o narrador-personagem não só relata fatos, mas os filtra por uma percepção subjetiva moldada pelo contexto social em que vive (a especulação imobiliária em São Paulo).
  • Personificação estrutural: "os bairros, como os homens, também têm um espírito" é a chave conceitual do texto — transforma o bairro em entidade viva, dotada de identidade própria, que pode "morrer".
  • Descaracterização identitária: fenômeno urbano pelo qual marcas afetivas e locais (jardins cuidados, adesivos de adolescente) são substituídas por padrões genéricos e globalizados (nomes de empreendimento em inglês, francês, espanhol), apagando o que tornava o lugar único.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "será batizado de Arizona Hills, ou Maison Lacroix, ou Plaza de Marbella" → os nomes estrangeiros e pomposos não têm nenhuma relação com a história do lugar; eles apagam a referência local e a substituem por um rótulo genérico, que poderia estar em qualquer bairro nobre de qualquer cidade do mundo.
  • Evidência 2: "Não só porque ficará mais feio [...] mas porque é meu bairro que morre, devagarinho" → o próprio narrador hierarquiza o problema: descarta explicitamente a leitura estética (feio) e afirma que o cerne é a morte de algo identitário — o bairro enquanto entidade singular.
  • Evidência 3: "onde agora fica a garagem, já houve [...] o jardim de uma velhota e a janela de um adolescente, cheia de adesivos" → o fechamento reforça o contraste entre o humano e particular (jardim, adesivos) e o funcional e anônimo (garagem).
  • Síntese: as três evidências convergem para o mesmo eixo — a voz narrativa expressa a percepção de que o bairro perde os traços que o tornavam reconhecível, isto é, sua identidade.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar o fenômeno social por trás da crônica

O contexto social é a verticalização/especulação imobiliária das grandes metrópoles: quarteirões de casas antigas viram "cratera" e depois prédio com nome pomposo. É um fenômeno recorrente ("vez por outra"), não um episódio isolado — logo, o texto não fala de um evento pontual, mas de um padrão urbano.

Subpasso 4.2 — Rastrear como esse fenômeno molda a voz narrativa

O narrador não relata o processo de forma neutra: sente "susto", depois tristeza, e diz com precisão por que se entristece — não pelo prédio ficar feio, mas porque o bairro, tratado como organismo com "espírito", está sendo apagado e substituído por um padrão repetível e sem raiz local (daí os nomes em inglês, francês e espanhol).

Subpasso 4.3 — Verificação: cruzar a conclusão com o comando

A conclusão de que a voz narrativa manifesta a percepção da perda de identidade do bairro responde diretamente ao comando "a incidência do contexto social sobre a voz narrativa manifesta-se no(a)...". Essa leitura converge exatamente com a alternativa C. As alternativas B, D e E citam elementos reais do texto, mas cada uma isola apenas um sintoma, sem captar a ideia que os unifica; a alternativa A generaliza demais, tratando como "progresso da cidade" o que o texto trata como perda de identidade de UM bairro específico.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) decepção com o progresso da cidade de São Paulo.

❌ Incorreta: o texto não critica o "progresso" como categoria abstrata da cidade toda — é específico sobre a perda de identidade de UM bairro. Além disso, "progresso" tem conotação de avanço positivo que o texto nunca endossa.

B) sentimento de nostalgia causado pela demolição das casas antigas.

❌ Incorreta: a nostalgia é um efeito emocional presente, mas é consequência, não o cerne da crítica. O texto tematiza a perda do "espírito" do bairro — identidade coletiva e simbólica —, não só a saudade das construções físicas.

C) percepção de uma descaracterização da identidade do bairro.

✅ Correta: sintetiza o que a crônica constrói — nomes estrangeirizados e genéricos substituindo marcas locais e humanas (roseiras, adesivos, velhotas, adolescentes), culminando em "é meu bairro que morre, devagarinho". Está em jogo a identidade do lugar, não só a paisagem física.

D) necessidade de uma autocrítica em relação aos próprios hábitos.

❌ Incorreta: a autocrítica ("moro no segundo andar de um prédio") reforça a crítica social — o narrador se reconhece parte do problema —, mas é elemento complementar, não o eixo central, que permanece sendo a identidade do bairro.

E) descontentamento com os estrangeirismos da nova geografia urbana.

❌ Incorreta: os nomes estrangeiros são evidência/sintoma da descaracterização, não o objeto central da crítica. O incômodo não é linguístico (o idioma dos nomes), mas o que esses nomes representam: apagamento da identidade local por um padrão genérico e importado.

🏆 Gabarito: C — a crônica materializa, na voz do narrador, a percepção de que o bairro perde sua identidade singular diante da padronização imobiliária; essa é a única alternativa que sintetiza o tema central e unificador do texto, e não apenas um de seus sintomas.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que reúne todas as evidências textuais (nomes estrangeiros, "meu bairro que morre", "os bairros têm espírito") em um único conceito coerente: a perda de identidade do bairro.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa crônicas urbanas contemporâneas (Antonio Prata, Martha Medeiros e autores próximos) para testar a relação entre subjetividade do narrador e fenômenos sociais mais amplos, como urbanização e mudança de costumes.
  • Generalização: quando o comando cruzar "contexto social" com "voz narrativa/subjetividade", busque a ideia que UNIFICA as pistas emocionais do texto — não o sintoma mais explícito ou mais repetido.
  • Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que isolam um único detalhe (nomes estrangeiros → E; casas antigas → B; hábito pessoal → D) e prefira a que sintetiza o tema estrutural (identidade → C); desconfie de termos abstratos e pouco ancorados no texto, como "progresso" em A.
  • Conexões: crônica urbana contemporânea; gentrificação e verticalização; identidade e memória afetiva; Antonio Prata.

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