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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 35ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

Gaetaninho

Ali na Rua do Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou de carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho. […]
— Traga a bola! Gaetaninho saiu correndo.
Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai do Gaetaninho.
A gurizada assustada espalhou a notícia na noite.
— Sabe o Gaetaninho?
— Que é que tem?
— Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boleia de nenhum dos carros do acompanhamento. Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boleia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.

MACHADO, A. A. Brás, Bexiga e Barra Funda: notícias de São Paulo. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Vila Rica, 1994.

Situada no contexto da modernização da cidade de São Paulo na década de 1920, a narrativa utiliza recursos expressivos inovadores, como

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Modernismo brasileiro (geração de 1922), prosa de Antônio de Alcântara Machado
  • ⚡ Nível: Médio — exige separar o que é "recurso expressivo" (forma) do que é apenas cenário ou detalhe pontual do texto.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer os procedimentos de construção do texto modernista e sua relação com o contexto histórico-social (modernização de São Paulo).
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que recurso de linguagem, novo para a época, o conto de Alcântara Machado utiliza?"
  • Palavras-chave decisivas: modernização da cidade, recursos expressivos inovadores, narrativa
  • Armadilha típica: confundir o conteúdo modernizado (bondes, automóveis, cidade) com a forma inovadora do texto (como as frases são escritas). Quatro alternativas usam detalhes reais do conto, mas erram ao apontá-los como o recurso central.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar o procedimento de escrita — léxico, sintaxe, registro — que rompe com o padrão narrativo erudito anterior ao Modernismo.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Modernismo de 1922: rejeita o Parnasianismo e o Realismo acadêmicos em nome de uma literatura de "língua brasileira", coloquial e sintaticamente enxuta.
  • Alcântara Machado: contista modernista que, em Brás, Bexiga e Barra Funda (1927), retrata os bairros operários e imigrantes de São Paulo com prosa de frases curtas e fala popular.
  • Recurso expressivo x conteúdo temático: recurso expressivo é como se narra (palavras, tamanho da frase, registro); conteúdo temático é o quê se narra (bonde, rua, enterro). O comando pede o "como".
  • Discurso direto x narração indireta: o direto reproduz a fala da personagem (travessão); no conto ele aparece em um bloco pequeno, enquanto a narração indireta conduz a maior parte do texto.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Um sonho. […] Pegou e matou." → frases nominais e curtíssimas, sem conectivos elaborados — sintaxe seca e telegráfica.
  • Evidência 2: "— Sabe o Gaetaninho? — Que é que tem? — Amassou o bonde!" → fala popular e elíptica, que reproduz a oralidade da rua, não a norma culta.
  • Evidência 3: "gurizada", "boleia", "palhetinha" → léxico coloquial e regional, distante do vocabulário erudito da prosa anterior.
  • Síntese: as três evidências apontam para o mesmo fenômeno — um narrador que troca a sintaxe complexa e o vocabulário culto por frases curtas e língua falada.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Contexto histórico-literário

O comando ancora o texto "na modernização da cidade de São Paulo na década de 1920" — industrialização, imigração italiana, expansão dos bondes elétricos e o automóvel como símbolo de status. É o cenário da geração modernista de 1922, à qual Alcântara Machado pertence. Em "Gaetaninho", narra-se a morte de um menino pobre atropelado por um bonde — o mesmo veículo que ele jamais possuiria como carro particular, já que "a ralé quando muito andava de bonde".

Subpasso 4.2 — O recurso formal predominante

Quase todas as frases são curtas, muitas sem conectivo elaborado, reduzidas a um núcleo mínimo: "Um sonho.", "Pegou e matou.". Esse corte sintático seco soma-se a um léxico coloquial — "gurizada", "boleia", "palhetinha" — e a falas diretas e ríspidas, como "Amassou o bonde!". Sintaxe enxuta + registro informal é o recurso que substitui o período longo e ornamentado da prosa pré-modernista por uma escrita que imita a fala cotidiana.

Subpasso 4.3 — Verificação

Cruzando esse levantamento com as alternativas, apenas uma nomeia com precisão os dois traços comprovados: registro informal (evidências 2 e 3) e frases curtas (evidência 1). As demais citam elementos que até aparecem no conto, mas generalizam ou apontam um traço que o texto não sustenta.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) o registro informal da linguagem e o emprego de frases curtas.

✅ Correta: frases nominais e telegráficas ("Um sonho.", "Pegou e matou.") somadas a vocabulário coloquial e falas populares ("Amassou o bonde!", "gurizada"). Essa fusão de sintaxe curta com língua falada é a marca que o Modernismo trouxe de novo para a prosa brasileira, rompendo com o período longo da tradição realista-parnasiana.

B) o apelo ao modelo cinematográfico com base em imagens desconexas.

❌ Incorreta: as imagens não são desconexas — seguem sequência causal e cronológica rastreável (sonho do automóvel → pedido da bola → atropelamento → notícia → velório → enterro). Não há corte ou colagem que justifique falar em "imagens desconexas"; o encadeamento é linear.

C) a representação de elementos urbanos e a prevalência do discurso direto.

❌ Incorreta: há elementos urbanos (bonde, rua), mas isso é conteúdo temático, não recurso expressivo. E o discurso direto não "prevalece": ocupa um bloco pequeno de falas, enquanto a narração indireta conduz a maior parte do conto.

D) a encenação crua da morte em contraponto ao tom respeitoso do discurso.

❌ Incorreta: não há esse contraponto. O tom seco usado na morte ("Pegou e matou.") é o mesmo que conduz todo o resto, inclusive o enterro, narrado com igual distanciamento irônico ("flores pobres", o terno vermelho de Beppino). A informalidade é constante do início ao fim, sem uma segunda camada "respeitosa".

E) a percepção irônica da vida assinalada pelo uso reiterado de exclamações.

❌ Incorreta: há ironia na trama — o menino só "anda" de carro depois de morto, no próprio caixão —, mas ela decorre da situação narrada, não de exclamações repetidas. O texto traz só duas exclamações pontuais ("Traga a bola!", "Amassou o bonde!"), em falas de personagens, longe de um recurso sistemático de pontuação.

🏆 Gabarito: A — a narrativa inova ao trocar o período longo e o vocabulário erudito por frases curtas e registro coloquial que reproduz a fala das ruas paulistanas dos anos 1920.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa A descreve um recurso formal — sintaxe e registro — comprovável em quase todas as linhas do texto; as demais descrevem traços ausentes ou mal dimensionados.
  • Padrão de cobrança: o ENEM traz com frequência prosa modernista (Alcântara Machado, Mário de Andrade, Oswald de Andrade) pedindo o reconhecimento dos "recursos inovadores" da geração de 22 — quase sempre ligados a oralidade, coloquialismo e frases curtas.
  • Generalização: diante de "recursos expressivos/inovadores", procure primeiro a forma — construção da frase, vocabulário, registro de fala — antes do conteúdo, como tema ou cenário retratado.
  • Dica de eliminação rápida: se a alternativa citar "uso reiterado" de algo, confira se isso realmente se repete no texto; e veja se a sequência narrada tem causalidade clara — isso elimina B e E em segundos.
  • Conexões: Semana de Arte Moderna de 1922; Mário de Andrade; Oswald de Andrade; imigração italiana e industrialização paulistana.

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