Mapa de questões · 1º dia
Questão 16 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

Uma das funções da obra de arte é representar o contexto sociocultural ao qual ela pertence. Produzida na primeira metade do século XX, a Estrada de Ferro Central do Brasil evidencia o processo de modernização pela
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Artes → Modernismo brasileiro (fase Pau-Brasil de Tarsila do Amaral); leitura e análise formal de imagem
- ⚡ Nível: Médio — exige cruzar a leitura visual da tela com o conceito histórico de "modernização", distinguindo o recurso plástico específico do rótulo genérico do movimento
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de procedimentos e recursos expressivos das linguagens visuais em relação ao contexto sociocultural de produção da obra (leitura de imagem — matriz de Linguagens do ENEM)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual recurso de composição da pintura EFCB, de Tarsila do Amaral, torna visível na tela o processo de modernização do Brasil?"
- Palavras-chave decisivas: "evidencia... pela", "modernização", "primeira metade do século XX"
- Armadilha típica: confundir "modernização" (o processo histórico retratado — chegada de ferrovias, energia elétrica e telecomunicações ao interior do país) com "modernismo" (o movimento estético do qual Tarsila participa) e marcar uma alternativa que soe como definição genérica de vanguarda ("desconstrução da forma", "abstração do tema"), mas que não corresponda ao que está de fato pintado na tela.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de nomear, com precisão técnica, o procedimento de composição — e não apenas o tema — que traduz visualmente a chegada da técnica industrial ao cenário representado.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Tarsila do Amaral e a fase Pau-Brasil (1923-1928): após retornar de Paris e viajar por Minas Gerais na "caravana modernista" com Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Blaise Cendrars em 1924, Tarsila passa a pintar temas nacionais — cidades do interior, ferrovias, festas populares — com cores fortes e formas geometrizadas e simplificadas.
- Manifesto Pau-Brasil (Oswald de Andrade, 1924): propõe uma arte brasileira que misture, sem hierarquia, o "arcaico" (casario colonial, igrejas, morros) e o "moderno" (trilhos, postes, pontes de ferro) — exatamente a convivência de elementos que aparece em EFCB.
- Sobreposição/justaposição de planos: ao dialogar com o Cubismo aprendido em Paris (com Léger, Gleizes e Lhote) e com a arte popular/naïf brasileira, Tarsila abandona a perspectiva de ponto de fuga único; os objetos são organizados em camadas empilhadas e cruzadas dentro de um espaço raso, e não em profundidade naturalista.
- Iconografia da modernização técnica: trilhos, ponte ferroviária, torres de transmissão de energia, postes telegráficos, semáforos ferroviários e o vagão de trem são os símbolos visuais recorrentes da industrialização penetrando a paisagem rural/colonial brasileira.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (imagem): ao menos três estruturas treliçadas de postes/torres de transmissão cruzam verticalmente a tela, sobrepostas às casas e aos morros ao fundo → elementos técnicos "colados" sobre o cenário, sem recuo de profundidade que os separe.
- Evidência 2 (imagem): a ponte ferroviária, pintada em preto sólido e curva, atravessa por cima da estrada sinuosa, que por sua vez passa sob o vagão do trem em primeiro plano, ao lado de sinaleiros circulares (semáforos) → trilhos, ponte, trem e via se cruzam num único plano comprimido.
- Evidência 3 (imagem): as casas de telhados geométricos estão enfileiradas quase coladas umas às outras, e a igreja ao fundo divide o mesmo espaço visual com os postes de fiação, sem perspectiva atmosférica que as distancie.
- Síntese: em nenhum momento a tela separa "o antigo" e "o moderno" em planos distintos (técnica ao fundo, vila em primeiro plano, por exemplo); ao contrário, torres, postes, ponte, trilhos, casas, morro e igreja se cruzam e se empilham no mesmo espaço raso — é essa sobreposição constante que expõe, visualmente, a chegada da modernização.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar exatamente o que a pergunta pede
O comando não pergunta "qual é o tema da obra" (resposta óbvia: a ferrovia/modernização em si), mas "por qual recurso" esse tema é evidenciado. É preciso, portanto, observar COMO a tela foi construída — sua composição e organização espacial — e não apenas O QUE ela representa.
Subpasso 4.2 — Ler a organização espacial da tela
Observando a imagem, percebe-se que Tarsila recusa a perspectiva clássica de ponto de fuga único. Torres de transmissão, postes, casas, morro, igreja, ponte, trilhos e trem aparecem dispostos em camadas que se cruzam e se sobrepõem na superfície da tela, como se fossem recortados e colados uns sobre os outros. Não existe um intervalo atmosférico separando primeiro plano, plano médio e fundo: tudo disputa o mesmo espaço visual raso e comprimido.
Subpasso 4.3 — Verificação com o conceito histórico
Esse procedimento plástico é exatamente o que insere o vocabulário técnico-industrial (trilhos, postes, torres, ponte, semáforo) dentro do cenário rural-colonial (casas simples, morro, igreja): a modernização não é isolada em segundo plano nem tratada como elemento à parte — ela é "encaixada" por sobreposição direta sobre a paisagem tradicional. Confrontando essa leitura com as cinco alternativas, apenas a que nomeia esse procedimento de composição — "sobreposição de elementos" — corresponde ao que a imagem mostra.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) verticalização do espaço.
❌ Incorreta: ainda que os postes e torres sejam elementos altos, a composição não constrói uma cidade que cresce "para cima" (não há prédios, arranha-céus ou adensamento vertical do espaço urbano); predominam casas baixas e morros dispostos lado a lado — a leitura da tela é de acúmulo/cruzamento de planos, não de elevação da paisagem.
B) desconstrução da forma.
❌ Incorreta: as formas continuam plenamente reconhecíveis e figurativas (casas, igreja, trem, postes, ponte); Tarsila simplifica e geometriza os volumes, mas não os fragmenta nem os deforma a ponto de perderem sua identidade visual, como ocorreria numa desconstrução cubista analítica mais radical.
C) sobreposição de elementos.
✅ Correta: postes, torres, trilhos, ponte, trem, casas, morro e igreja se cruzam e se empilham num mesmo plano raso da tela, sem hierarquia de profundidade — é essa justaposição constante entre o vocabulário técnico-industrial e a paisagem rural-colonial que evidencia, visualmente, o avanço da modernização sobre o espaço brasileiro.
D) valorização da natureza.
❌ Incorreta: embora morros e árvores apareçam ao fundo, eles funcionam como pano de fundo secundário; o protagonismo visual é dos elementos técnico-urbanos (ferrovia, postes, torres, ponte), que ocupam o primeiro plano e "competem" visualmente com a paisagem natural — e não o contrário.
E) abstração do tema.
❌ Incorreta: o tema (a estrada de ferro e seu entorno) é representado de modo concreto e identificável — trem, trilhos, postes, casas e igreja são reconhecíveis à primeira vista; não há dissolução das formas em elementos não figurativos, como exigiria uma leitura de "abstração".
🏆 Gabarito: C — a modernização é evidenciada pela sobreposição de elementos técnico-industriais (trilhos, postes, torres, ponte, trem) sobre a paisagem rural-colonial (casas, morro, igreja), organizados num mesmo plano raso e sem hierarquia de profundidade.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas "sobreposição de elementos" descreve com precisão o procedimento de composição observado na tela — os demais termos (verticalização, desconstrução, abstração) descrevem estratégias plásticas legítimas de outras correntes modernistas, mas que não estão presentes nesta obra específica.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente pede a relação entre recurso formal/plástico de uma obra de arte (pintura, escultura, arquitetura) e o contexto histórico-social que ela representa — não basta identificar o tema, é preciso nomear COMO a obra constrói esse sentido visualmente.
- Generalização: em questões de leitura de imagem, sempre separe "o que a obra retrata" (tema) de "como ela retrata" (recurso/procedimento formal: composição, cor, plano, perspectiva, linha); a alternativa correta quase sempre nomeia o COMO.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que descrevem procedimentos plásticos ausentes da imagem (sem arranha-céus → sem verticalização; formas reconhecíveis → sem desconstrução/abstração); o que sobrar deve corresponder ao que os seus olhos realmente veem na tela.
- Conexões: Semana de Arte Moderna de 1922; Manifesto Pau-Brasil (Oswald de Andrade, 1924); outras obras de Tarsila do mesmo período, como "A Cuca" e "Morro da Favela"; Cubismo francês (Léger, Gleizes, Lhote) como base formal da geometrização de Tarsila.
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