Mapa de questões · 1º dia
Questão 29 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

TEXTO II
Os artistas, liberados do peso da história, ficavam livres para fazer arte da maneira que desejassem ou mesmo sem nenhuma finalidade. Essa é a marca da arte contemporânea, e não é para menos que, em contraste com o Modernismo, não existe essa coisa de estilo contemporâneo.
DANTO, A. Após o fim da arte: a arte contemporânea e os limites da história. São Paulo: Odysseus, 2006.
A obra de Ernesto Neto revela a liberdade de criação abordada no texto ao
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Artes → arte contemporânea e instalação interativa (Ernesto Neto)
- ⚡ Nível: Médio — exige articular um conceito teórico abstrato (o texto de Arthur Danto sobre a liberdade pós-histórica da arte) com a leitura visual de uma obra específica.
- 🎯 Tema/Habilidade: Linguagens artísticas contemporâneas e a relação obra-espectador (competência de leitura de imagem associada a texto teórico, típica da área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias).
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "De que maneira a obra de Ernesto Neto exemplifica, na prática, a liberdade criativa sem estilo fixo que Danto atribui à arte contemporânea?"
- Palavras-chave decisivas: liberdade de criação, instalação interativa, Ernesto Neto
- Armadilha típica: confundir "liberdade sem estilo único" com "ruptura formal radical" e marcar a alternativa B, que soa mais "revolucionária" — mas ignora que a obra já É contemporânea, não uma reação contra o contemporâneo.
- O que a resposta precisa demonstrar: a alternativa correta precisa nomear o traço concreto, visível na imagem e apoiado no texto teórico, que materializa essa liberdade — não uma definição genérica de arte contemporânea, mas o comportamento específico da obra de Neto.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Arte contemporânea segundo Danto: depois do fim das grandes narrativas históricas da arte (do Renascimento ao Modernismo), o artista fica livre de seguir um estilo obrigatório de época; cada obra pode adotar sua própria lógica, inclusive dispensando qualquer "finalidade" tradicional (representar, embelezar, denunciar).
- Instalação: linguagem artística que ocupa e transforma o espaço físico como um todo, em vez de se limitar a um quadro ou escultura isolada; o público não apenas observa de fora, mas entra no ambiente criado pelo artista.
- Arte relacional/participativa: vertente contemporânea (da qual Ernesto Neto é um dos nomes mais reconhecidos internacionalmente) em que a obra só se completa com a presença, o movimento e, muitas vezes, o toque do espectador — o corpo do público passa a ser parte da experiência estética.
- Ernesto Neto: artista carioca conhecido por esculturas e instalações têxteis, orgânicas, com formas que lembram gotas, membranas e vísceras suspensas, pensadas para serem atravessadas, tocadas e sentidas com todos os sentidos, não apenas vistas.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (texto): "Os artistas, liberados do peso da história, ficavam livres para fazer arte da maneira que desejassem" → mostra que a "liberdade de criação" do enunciado é a ausência de regras estilísticas fixas — o artista contemporâneo pode inventar seu próprio formato de obra.
- Evidência 2 (legenda + imagem): "Dancing on the Cutting Edge. Instalação interativa, 2004" e a foto mostrando pessoas caminhando por dentro de uma estrutura de tecido translúcido suspensa por fios e pesos em forma de gota → a própria legenda classifica a obra como "interativa", e a imagem comprova isso: os visitantes não estão diante de um objeto emoldurado, mas dentro dele, circulando entre as formas.
- Síntese: o texto de Danto fornece o conceito (liberdade = ausência de estilo único, obra pode fugir da função tradicional), e a imagem fornece a prova concreta de como Ernesto Neto exerce essa liberdade: ele cria um ambiente têxtil sem função representativa clássica, cuja única "regra" é convidar o público a entrar e interagir com a estrutura. A resposta correta precisa nomear exatamente esse gesto — envolver o espectador na obra.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o elo entre texto teórico e obra
O comando pede a alternativa que mostra "como" a obra de Ernesto Neto revela a liberdade de criação discutida por Danto. Isso significa que a resposta não pode ser apenas uma repetição do conceito abstrato do texto (isso testaria só a Evidência 1); ela precisa ser uma característica observável da obra na imagem, que funcione como prova daquela liberdade. Ou seja, a alternativa correta liga texto + imagem.
Subpasso 4.2 — Traduzir a imagem em linguagem de análise de arte
Na fotografia, veem-se: (1) tecido translúcido esticado em abóbadas onduladas, preso por fios finos que terminam em pesos em forma de gota tocando o chão; (2) três pessoas caminhando por baixo e por dentro dessas formas, em escala real, comparável ao tamanho da instalação. Não há moldura, base ou distância de segurança entre obra e público — o espaço da galeria inteiro foi tomado pela peça, e o corpo do visitante se torna parte da composição enquanto ele percorre o ambiente. Essa é precisamente a definição de arte interativa/participativa.
Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação
Nenhuma outra alternativa é sustentada pela imagem: não há qualquer elemento (verde, reciclagem, materiais ecológicos evidentes) que remeta a sustentabilidade (A); a obra não rompe com o contemporâneo, ela É o contemporâneo em ação, então "romper com referenciais estéticos contemporâneos" (B) inverte a lógica do texto; não há réplica de uma cena do mundo real, a estrutura é abstrata e orgânica, não uma "fatia da realidade" (D); e não há qualquer citação de estilos históricos anteriores organizados em sequência (E). Isso confirma que a única alternativa amparada simultaneamente pelo texto de Danto e pela imagem é a que fala em envolver e fazer o espectador interagir com a obra.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) destacar o papel da arte na valorização da sustentabilidade.
❌ Incorreta: a sustentabilidade não é tema da obra nem é mencionada no texto de Danto; a imagem mostra tecido e estrutura suspensa, sem qualquer discurso ambiental explícito — essa alternativa insere um assunto estranho ao recorte da questão.
B) romper com a estrutura dos referenciais estéticos contemporâneos.
❌ Incorreta: erro conceitual sutil — a obra de Neto não rompe com o contemporâneo, ela é uma expressão típica dele. O texto de Danto diz que a arte contemporânea já rompeu com a história (o Modernismo e anteriores); dizer que a obra rompe com o "contemporâneo" contradiz a própria lógica do texto-base.
C) envolver o espectador ao promover sua interação com a obra.
✅ Correta: é exatamente isso que a legenda ("instalação interativa") e a imagem (pessoas caminhando dentro da estrutura têxtil) comprovam. A liberdade de criação de Neto se manifesta ao abandonar a ideia de obra fixa e contemplativa, transformando o público em parte ativa da experiência artística — a materialização perfeita da "arte sem finalidade única" descrita por Danto.
D) reproduzir no espaço da galeria um fragmento da realidade.
❌ Incorreta: a instalação não reproduz uma cena realista ou reconhecível do cotidiano; suas formas orgânicas e abstratas (gotas, membranas suspensas) não imitam nenhum "fragmento da realidade" — pelo contrário, criam um ambiente inventado, sem correspondência direta com o mundo físico externo.
E) utilizar a linearidade de estilos artísticos anteriores.
❌ Incorreta: contradiz diretamente o texto de Danto, que afirma que a arte contemporânea rompeu justamente com a ideia de uma sequência linear e obrigatória de estilos históricos. Ernesto Neto não retoma uma linha estilística anterior; ele cria uma linguagem própria, sem vínculo com uma tradição sequencial.
🏆 Gabarito: C — a obra revela a liberdade criativa contemporânea justamente por dispensar forma e função tradicionais e apostar na interação física e sensorial do público com a instalação.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C é confirmada tanto pelo texto teórico (liberdade = ausência de estilo/função fixos) quanto pela imagem (legenda "interativa" + pessoas dentro da obra); todas as demais contradizem o texto, a imagem ou ambos.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cruza um texto teórico sobre arte (crítico, historiador, filósofo da arte) com a imagem de uma obra específica, exigindo que o candidato use o texto como "chave de leitura" da imagem, e não os dois separadamente.
- Generalização: em questões de leitura de imagem artística, a alternativa correta costuma ser a que descreve um elemento literalmente visível na obra (ação, material, composição) — desconfie de alternativas que trazem temas "socialmente relevantes" (sustentabilidade, crítica social) não sustentados pela imagem.
- Dica de eliminação rápida: risque de cara qualquer alternativa que contradiga a premissa do texto-base (aqui, B e E contradizem "liberdade sem estilo fixo"/"sem linearidade histórica"); depois, compare as restantes com o que está literalmente na foto.
- Conexões: arte relacional e participativa; Hélio Oiticica e os "Parangolés" (outro caso brasileiro de arte que exige o corpo do espectador); Nicolas Bourriaud e a "estética relacional".
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