Mapa de questões · 1º dia
Questão 22 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
A ascensão das novas tecnologias de comunicação causou alvoroço, quando não gerou discursos apocalípticos acerca da finitude dos objetos nos quais se ancorava a cultura letrada. As atenções voltaram-se, sobretudo, para o mais difundido de todos esses objetos: o livro impresso. A crer nesses diagnósticos sombrios, os livros e a noção romântica de autoria estavam fadados ao desaparecimento. O triunfo do hipertexto e a difusão dos e-books inscreveriam um marco na linha do tempo, semelhante aos daqueles suscitados pelo advento da escrita e da “revolução do impresso”. Decerto porque as mudanças no padrão tecnológico de comunicação alteram práticas e representações culturais. Contudo, os investigadores insistem que uma perspectiva evolutiva e progressiva acaba por obscurecer o fato de que as normas, as funções e os usos da cultura letrada não são compartilhados de maneira igual, como também não anulam as formas precedentes.
Apesar dos avanços, a história da leitura não pode restringir seu interesse ao livro, tendo de considerar outras formas de impresso de ampla circulação e suportes de textos não impressos. Isso é particularmente relevante no Brasil, onde a imprensa aportou tardiamente e o letramento custou a se espalhar pela sociedade.
SCHAPOCHNIK, N. Cultura letrada: objetos e práticas – uma introdução. In: ABREU, M.; SCHAPOCHNIK, N. (Org.). Cultura letrada no Brasil: objetos e práticas. Campinas: Mercado das Letras, 2005 (adaptado).
Nesse texto, ao abordar o desenvolvimento da cultura letrada no país, o autor defende a ideia de que
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → interpretação de texto acadêmico/dissertativo; identificação da tese do autor
- ⚡ Nível: Médio — o vocabulário é denso e o registro é acadêmico, mas o autor sinaliza a própria tese com marcadores argumentativos claros
- 🎯 Tema/Habilidade: História da leitura e cultura letrada no Brasil; competência de reconhecer o posicionamento defendido pelo autor em um texto argumentativo
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é a tese que o autor efetivamente defende sobre o desenvolvimento da cultura letrada no Brasil?"
- Palavras-chave decisivas: não anulam as formas precedentes, não pode restringir seu interesse ao livro, outras formas de impresso
- Armadilha típica: confundir o discurso ALHEIO — os "diagnósticos sombrios" que o autor apenas cita para depois refutar — com a tese que ele próprio defende no restante do texto.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o autor rejeita a lógica evolutiva/substitutiva das tecnologias de leitura e defende a coexistência de múltiplas práticas letradas na construção da história da leitura.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Discurso apocalíptico/evolutivo: ideia — citada e depois criticada pelo autor — de que cada nova tecnologia de comunicação (hipertexto, e-book) decretaria o fim da anterior (livro impresso, noção romântica de autoria), como se a história fosse uma sucessão de fases que se cancelam.
- Cultura letrada: conjunto de práticas, objetos e representações ligados à leitura e à escrita numa sociedade; não se resume ao livro, engloba jornais, folhetos e outros suportes, impressos ou não.
- Perspectiva não evolutiva (tese do autor): normas, funções e usos da escrita coexistem; tecnologias novas se somam às antigas em vez de apagá-las — por isso a história da leitura precisa olhar para a pluralidade de suportes.
- Especificidade brasileira: a imprensa chegou tarde ao país e o letramento se espalhou lentamente, o que reforça a necessidade de estudar formas de leitura além do livro, especialmente as de ampla circulação popular.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "uma perspectiva evolutiva e progressiva acaba por obscurecer o fato de que as normas, as funções e os usos da cultura letrada não são compartilhados de maneira igual, como também não anulam as formas precedentes" → o autor rejeita explicitamente a ideia de substituição: tecnologias novas convivem com as antigas, não as eliminam.
- Evidência 2: "a história da leitura não pode restringir seu interesse ao livro, tendo de considerar outras formas de impresso de ampla circulação e suportes de textos não impressos" → a tese do autor é que a história da leitura precisa ser contada a partir de múltiplas práticas e suportes, não de um único objeto.
- Síntese: as duas evidências convergem para a mesma ideia — não existe tecnologia "vencedora" que apague as demais; a história da leitura resulta da coexistência de práticas distintas (livro, jornal, folheto, hipertexto), cada uma com seu papel, sobretudo num Brasil de letramento tardio e desigual.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a estrutura argumentativa do texto
O texto se organiza em contraponto. No primeiro parágrafo, o autor apresenta um discurso ALHEIO — o dos "diagnósticos sombrios" — segundo o qual as novas tecnologias decretariam o fim do livro e da autoria romântica, num "marco" comparável à invenção da escrita. Esse discurso é citado apenas para ser contestado: repare no conector "Contudo", que abre a frase seguinte e sinaliza a virada argumentativa. É depois desse "Contudo" que está a tese real do autor — não na citação inicial.
Subpasso 4.2 — Localizar a tese defendida pelo autor
Após o "Contudo", apoiado nos "investigadores" da área, o autor afirma que a perspectiva evolutiva "obscurece o fato de que... não anulam as formas precedentes". Ou seja: a chegada de novas tecnologias de leitura não apaga as antigas — elas coexistem, cada uma com suas normas, funções e públicos. No parágrafo seguinte essa tese é reforçada: "a história da leitura não pode restringir seu interesse ao livro", precisando abranger folhetos, jornais e outros suportes, impressos ou não. Somando as duas ideias, chega-se à síntese central: a história da leitura é construída pela coexistência de práticas de leitura distintas — não por uma sequência de tecnologias que se substituem.
Subpasso 4.3 — Verificação por confronto com as alternativas
Confrontando essa síntese com as cinco opções, apenas uma expressa "coexistência de práticas distintas" sem contradizer o texto: a alternativa que fala em práticas distintas construindo a história da leitura. As demais ou invertem o sentido do texto — afirmando substituição, revolução ou prejuízo quando o autor nega justamente isso — ou trazem ideias genéricas que o texto não sustenta como tese central. O resultado da checagem confirma o gabarito E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) livros eletrônicos revolucionam ações de letramento.
❌ Incorreta: essa é exatamente a tese do discurso "sombrio" que o autor CITA para depois refutar. Ele não endossa a ideia de que o e-book promove uma revolução do letramento; ao contrário, relativiza esse suposto "marco" tecnológico ao mostrar que as práticas antigas persistem lado a lado com as novas.
B) veículos midiáticos interferem na formação de leitores.
❌ Incorreta: é uma afirmação genérica, deslocada do argumento central do texto. O trecho não trata de "veículos midiáticos" formando leitores, e sim da relação entre tecnologias de comunicação e a permanência — não a substituição — de práticas de leitura já existentes. Não há foco em "interferência na formação do leitor", mas na coexistência histórica de suportes.
C) tecnologias de leitura novas desconsideram as anteriores.
❌ Incorreta: é o inverso exato do que o autor sustenta. O texto afirma literalmente que as novas tecnologias "não anulam as formas precedentes" — ou seja, elas NÃO desconsideram as anteriores, convivem com elas. Essa é a "pegadinha" mais perigosa da questão, pois inverte o sentido da tese usando quase as mesmas palavras do texto.
D) aparatos tecnológicos prejudicam hábitos culturais.
❌ Incorreta: reproduz o tom "apocalíptico" que o próprio texto qualifica como diagnóstico sombrio e insuficiente. O autor não afirma que a tecnologia "prejudica" a cultura; ele problematiza justamente essa leitura catastrofista, propondo em seu lugar uma visão de coexistência e pluralidade de práticas.
E) práticas distintas constroem a história da leitura.
✅ Correta: sintetiza com precisão as duas evidências centrais do texto — a recusa da lógica evolutiva/substitutiva ("não anulam as formas precedentes") e a defesa explícita de que a história da leitura deve abranger múltiplos suportes, impressos e não impressos ("não pode restringir seu interesse ao livro"). É exatamente a tese construída pelo autor ao longo dos dois parágrafos.
🏆 Gabarito: E — o autor defende que a história da leitura resulta da coexistência de práticas letradas diversas (livro, jornal, folheto, suportes não impressos, hipertexto), e não da substituição evolutiva de uma tecnologia por outra.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a alternativa E traduz fielmente a tese do autor sem inverter nem generalizar o argumento — a história da leitura é plural, construída por práticas distintas que coexistem, não por rupturas evolutivas.
- Padrão de cobrança: o ENEM usa com frequência textos acadêmicos/dissertativos que primeiro apresentam um senso comum ou um discurso "do outro" para depois refutá-lo (estrutura de contraponto); o candidato precisa localizar o conector de oposição — aqui, "Contudo" — para não confundir a tese refutada com a tese defendida.
- Generalização: em comandos do tipo "o autor defende a ideia de que...", a resposta quase sempre está DEPOIS do conector adversativo/concessivo do texto, nunca na citação do discurso alheio apresentado logo no início.
- Dica de eliminação rápida: desconfie de alternativas "categóricas" ou "catastróficas" (revoluciona, desconsideram, prejudicam) em textos acadêmicos de humanas — o ENEM tende a valorizar teses de matiz mais complexo, que reconhecem coexistência, pluralidade e continuidade histórica em vez de rupturas absolutas.
- Conexões: história da leitura e do livro (Roger Chartier, Robert Darnton); cultura letrada no Brasil; textos de estrutura tese-antítese nas provas de linguagens.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.