Mapa de questões · 1º dia
Questão 52 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
Na África, os europeus morriam como moscas; aqui eram os índios que morriam: agentes patogênicos da varíola, do sarampo, da coqueluche, da catapora, do tifo, da difteria, da gripe, da peste bubônica, e possivelmente da malária, provocaram no Novo Mundo o que Dobyns chamou de “um dos maiores cataclismos biológicos do mundo”. No entanto, é importante enfatizar que a falta de imunidade, devido ao seu isolamento, não basta para explicar a mortandade, mesmo quando ela foi de origem patogênica.
CUNHA, M. C. Índios no Brasil: história, direitos e cidadania. São Paulo: Claro Enigma, 2012.
Uma ação empreendida pelos colonizadores que contribuiu para o desastre mencionado foi o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → colonização da América; trabalho compulsório indígena; demografia histórica
- ⚡ Nível: Médio — exige cruzar a pista do texto historiográfico com conhecimento sobre os mecanismos concretos da exploração colonial, descartando distratores plausíveis.
- 🎯 Tema/Habilidade: Consequências sociais e demográficas da colonização para os povos indígenas — reconhecer a dominação colonial (trabalho compulsório) por trás de um processo aparentemente só "biológico".
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Além das epidemias, qual ação dos colonizadores ajuda a explicar a enorme mortandade indígena?"
- Palavras-chave decisivas: cataclismo biológico, a falta de imunidade [...] não basta, ação empreendida pelos colonizadores
- Armadilha típica: ler "cataclismo biológico" e buscar uma alternativa que reforce a explicação epidemiológica — o comando pede o contrário: o fator humano que a autora diz ser necessário para completar essa explicação.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a mortandade resultou da combinação entre doença E prática colonial de exploração, não de um contato biológico neutro ou acidental.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Choque biológico (epidemias de "solo virgem"): povos americanos, isolados da Afro-Eurásia havia milênios, não tinham anticorpos para varíola, sarampo, gripe, difteria etc. — o "cataclismo biológico" citado por Dobyns.
- Trabalho compulsório colonial: escravização indígena, "descimentos" forçados do sertão para o litoral e confinamento em aldeamentos jesuíticos arrancavam os nativos de seu território para jornadas extenuantes em engenhos e lavouras.
- Desqualificação do trabalho e do saber nativo: os colonizadores não reconheciam valor às formas indígenas de organizar a produção (agricultura itinerante, coleta, manejo do território) e as substituíam por trabalho forçado voltado à economia colonial, desestruturando a subsistência e a organização social dos grupos.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "agentes patogênicos [...] provocaram [...] um dos maiores cataclismos biológicos do mundo" → a doença foi o mecanismo mais visível da mortandade, mas é apresentada como pano de fundo, não como a resposta buscada.
- Evidência 2: "a falta de imunidade [...] não basta para explicar a mortandade, mesmo quando ela foi de origem patogênica" → chave interpretativa da questão: além da biologia, há um fator humano e estrutural agravando o quadro, que a alternativa correta precisa nomear.
- Síntese: o enunciado pede uma prática colonial — além do contágio — que agravou a mortandade. Isso aponta para a exploração do trabalho indígena, que destruiu a base material e social de sobrevivência desses povos.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — O argumento de Manuela Carneiro da Cunha
A antropóloga questiona a leitura puramente "biológica" do desastre demográfico americano, associada a Dobyns. Reduzir a mortandade a um evento epidemiológico natural naturaliza a violência colonial, como se fosse acidente sem responsáveis. Cunha reafirma que a intensidade da catástrofe também decorre de decisões humanas dos colonizadores — é isso que o enunciado pede.
Subpasso 4.2 — A ação concreta dos colonizadores
Entre as práticas mais determinantes está a apropriação e desqualificação do trabalho indígena: escravização sob as justificativas da "guerra justa" e do "resgate", "descimentos" forçados e aldeamentos jesuíticos que confinavam populações como mão de obra. Essas práticas tratavam o modo de produção nativo como "atraso" a substituir, deslocavam populações de seus territórios de subsistência, concentravam contingentes em espaços insalubres (favorecendo o contágio) e geravam fome e colapso da natalidade. O resultado se somava ao impacto das epidemias e o multiplicava.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando esse raciocínio com as cinco alternativas, apenas a opção sobre desvalorização e substituição do trabalho nativo por regimes de exploração colonial expressa o "fator humano" exigido como complemento à explicação biológica — a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) desqualificação do trabalho das populações nativas.
✅ Correta: os colonizadores não reconheciam valor às formas indígenas de organizar produção e subsistência, substituindo-as por trabalho compulsório voltado à economia de exportação (engenhos, lavouras, extração de recursos). Isso desarticulou a base alimentar e social dos povos nativos, tornando-os mais vulneráveis à fome, ao esgotamento físico e, consequentemente, às epidemias.
B) abertura do mercado da colônia às outras nações.
❌ Incorreta: contradiz o modelo vigente na América portuguesa, o pacto colonial — exclusivismo comercial da metrópole, e não abertura a terceiros (isso só ocorreria em 1808). Ainda que tivesse ocorrido, não teria relação com a mortandade indígena.
C) interdição de Portugal aos saberes autóctones.
❌ Incorreta: "interditar saberes" é vago demais e descreve, no máximo, repressão cultural pontual, não a ação estrutural de exploração do trabalho que o texto associa ao agravamento da mortandade.
D) incentivo da metrópole à emigração feminina.
❌ Incorreta: é tema à parte da historiografia colonial, ligado à formação da sociedade colonial, sem relação de causa com o cataclismo biológico indígena descrito no texto.
E) estímulo dos europeus às guerras intertribais.
❌ Incorreta: os europeus de fato exploraram rivalidades indígenas para obter prisioneiros e aliados, mas essa não é a ação central apontada pela autora — o texto aponta para a desestruturação do trabalho e da subsistência causada pelos colonizadores, não para conflitos armados entre nativos.
🏆 Gabarito: A — a desqualificação e a substituição do trabalho nativo por regimes de exploração colonial foram o fator humano que, somado às epidemias, produziu o cataclismo demográfico descrito por Manuela Carneiro da Cunha.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A conecta causa (ação colonial sobre o trabalho indígena) e efeito (agravamento da mortandade) como o texto exige.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra a crítica a explicações "naturalizadas" da colonização (doenças, clima, suposto "atraso" indígena), exigindo reconhecer a violência estrutural — trabalho forçado, escravização, expropriação de terras — por trás dos números demográficos.
- Generalização: quando um texto historiográfico disser que uma explicação "não basta", ele pede o fator complementar — geralmente ligado a poder, exploração econômica ou violência estrutural, nunca a coincidências naturais.
- Dica de eliminação rápida: descarte o que foge ao eixo trabalho/mortandade: B e D tratam de política comercial e migratória europeia; C é vaga demais para ser "a" ação decisiva; E é efeito colateral da presença europeia, não a causa estrutural do trecho.
- Conexões: escravidão indígena e aldeamentos jesuíticos no Brasil colonial; crítica historiográfica ao determinismo biológico da colonização; genocídio indígena e memória histórica.
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