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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaDifícil

Questão 49ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

TEXTO I

É da maior utilidade saber falar de modo a persuadir e conter o arrebatamento dos espíritos desviados pela doçura da sua eloquência. Foi com este fim que me apliquei a formar uma biblioteca. Desde há muito tempo em Roma, em toda a Itália, na Germânia e na Bélgica, gastei muito dinheiro para pagar a copistas e livros, ajudado em cada província pela boa vontade e solicitude dos meus amigos.

GEBERTO DE AURILLAC. Lettres. Século X. Apud PEDRERO-SÁNCHEZ, M. G.  História da Idade Média: texto e testemunhas. São Paulo: Unesp, 2000.

TEXTO II

Eu não sou doutor nem sequer sei do que trata esse livro; mas, como a gente tem que se acomodar às exigências da boa sociedade de Córdova, preciso ter uma biblioteca. Nas minhas prateleiras tenho um buraco exatamente do tamanho desse livro e como vejo que tem uma letra e encadernação muito bonitas, gostei dele e quis comprá-lo. Por outro lado, nem reparei no preço. Graças a Deus sobra-me dinheiro para essas coisas.

AL HADRAMI. Século X. Apud PEDRERO-SÁNCHEZ, M. G. A Península Ibérica entre o Oriente e o Ocidente: cristãos, judeus e muçulmanos. São Paulo: Atual, 2002.

Nesses textos do século X, percebem-se visões distintas sobre os livros e as bibliotecas em uma sociedade marcada pela

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Idade Média Central; cultura escrita e renascimento urbano na Cristandade e no mundo islâmico
  • ⚡ Nível: Difícil — exige comparar dois relatos de religiões diferentes sem cair em anacronismos cronológicos
  • 🎯 Tema/Habilidade: Circulação da cultura escrita e vida urbana no século X (comparar processos históricos em espaços distintos)
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que os dois textos, escritos por autores de religiões diferentes no século X, têm em comum ao retratar a relação entre livros, bibliotecas e sociedade?"
  • Palavras-chave decisivas: formar uma biblioteca, boa sociedade de Córdova, copistas... em cada província
  • Armadilha típica: associar Gerberto à "laicização" só porque ele é um intelectual refinado, ou associar "corporações de ofício" à menção de copistas como profissionais do livro
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar o traço estrutural comum aos dois relatos — não o conteúdo religioso de cada um, mas o cenário social e espacial em que os livros circulam e ganham valor

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Renascimento urbano do século X: depois de séculos de maior ruralização (VIII-IX), cidades voltam a concentrar riqueza, comércio e vida intelectual — tanto no mundo cristão quanto no islâmico.
  • Califado de Córdova no apogeu: proclamado por Abd al-Rahman III em 929, tinha em Córdova uma das maiores cidades do mundo; sob Al-Hakam II, a biblioteca califal chegou a reunir centenas de milhares de volumes, e possuir livros virou marca de status na "boa sociedade".
  • Renovação cultural otoniana: na Cristandade, cortes e catedrais urbanas (Reims, Roma, cidades da Germânia) promovem cópia, comércio e coleção de manuscritos por clérigos letrados — Gerberto de Aurillac foi mestre-escola em Reims antes de se tornar o Papa Silvestre II.
  • Livro como bem de prestígio urbano: em ambos os relatos, possuir livros ultrapassa o valor de leitura/estudo e expressa posição social dentro de um circuito de trocas concentrado em cidades.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "gastei muito dinheiro para pagar a copistas e livros, ajudado em cada província pela boa vontade e solicitude dos meus amigos" → revela uma rede de contatos e de comércio de manuscritos espalhada por Roma, Itália, Germânia e Bélgica — regiões com catedrais, mosteiros urbanos e cortes —, sustentada por dinheiro e relações pessoais.
  • Evidência 2: "como a gente tem que se acomodar às exigências da boa sociedade de Córdova, preciso ter uma biblioteca" → revela que, em Córdova, cidade populosa e sofisticada do Califado Omíada, ter livros era convenção social ligada ao status urbano, independente do interesse pelo conteúdo (o próprio autor admite nem saber do que trata o livro).
  • Síntese: apesar de motivações religiosas distintas, os dois textos mostram o livro circulando e ganhando valor dentro de tramas urbanas — redes de copistas, comércio e sociabilidade letrada concentradas em cidades —, o que aponta para a cultura urbana como pano de fundo comum das duas cenas.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar o núcleo comum além da religião

A pergunta pede o que aproxima os textos, não o que os separa. Gerberto é um clérigo cristão movido por finalidade retórica — "saber falar de modo a persuadir e conter o arrebatamento dos espíritos". Al Hadrami é um leigo muçulmano movido por convenção social — comprar um livro só para preencher "um buraco" na estante. As motivações são diferentes, mas ambos precisam adquirir seus livros dentro do mesmo tipo de cenário: um ambiente onde circulam dinheiro, copistas, comerciantes e uma rede de relações que valoriza a posse de obras escritas.

Subpasso 4.2 — Localizar geograficamente cada relato

Gerberto viaja e mantém contatos em Roma, em toda a Itália, na Germânia e na Bélgica — pontos ligados a catedrais, mosteiros urbanos e cortes da Cristandade do século X. Al Hadrami vive em Córdova, capital do Califado Omíada, uma das cidades mais populosas e ricas do mundo naquele momento, com mercado de livros ativo e uma elite letrada que impõe padrões de comportamento. Em nenhum dos dois casos a cena se passa no campo ou em um mosteiro isolado: o eixo espacial de ambos é a cidade.

Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação

Cruzando as duas evidências, o traço comum é: bibliotecas particulares formadas graças a uma economia urbana do livro — copistas pagos, comércio de manuscritos, prestígio da "boa sociedade". Isso corresponde exatamente à alternativa A. Testando as demais hipóteses (laicização, corporações de ofício, ciência bizantina, publicização das escrituras) contra os trechos citados, nenhuma se sustenta, o que confirma A como única leitura compatível com as evidências.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) difusão da cultura favorecida pelas atividades urbanas.

✅ Correta: os dois textos situam a formação de bibliotecas dentro de circuitos urbanos — a rede de amigos e copistas que Gerberto mobiliza em cidades de várias regiões da Cristandade, e a "boa sociedade de Córdova" que impõe a posse de livros como signo de status em uma das maiores cidades do mundo no século X. A cultura escrita se difunde porque há cidades ricas, populosas e conectadas por comércio e sociabilidade.

B) laicização do saber, que era facilitada pela educação nobre.

❌ Incorreta: não há laicização no século X — Gerberto é um clérigo que chegaria a Papa (Silvestre II), e a produção e cópia de livros ainda passam majoritariamente por mosteiros, catedrais e círculos religiosos, tanto no mundo cristão quanto no islâmico. Também não há qualquer menção a "educação nobre": Al Hadrami fala em se adequar à "sociedade", não à nobreza, e Gerberto cita "amigos" e copistas, não uma rede aristocrática de ensino.

C) ampliação da escolaridade realizada pelas corporações de ofício.

❌ Incorreta: é um anacronismo. As corporações de ofício — associações de artesãos e comerciantes organizadas por atividade — só se consolidam a partir dos séculos XII-XIII, junto ao apogeu do renascimento urbano comercial da Baixa Idade Média, dois ou três séculos depois dos relatos apresentados. Nenhum dos textos menciona instituições de ensino corporativas.

D) evolução da ciência que era provocada pelos intelectuais bizantinos.

❌ Incorreta: Bizâncio não aparece em nenhum dos textos. Gerberto teve contato com saberes matemáticos e astronômicos transmitidos pelo mundo árabe-islâmico — inclusive na própria Península Ibérica —, e Al Hadrami está em Córdova, capital do Califado Omíada, um centro islâmico independente e rival de Bizâncio, não bizantino.

E) publicização das escrituras, que era promovida pelos sábios religiosos.

❌ Incorreta: as duas bibliotecas descritas são privadas e pessoais — Gerberto forma "uma biblioteca" para si mesmo, e Al Hadrami compra um livro para preencher um espaço em suas próprias prateleiras. Não há qualquer indício de esforço para tornar as escrituras públicas ou acessíveis a mais pessoas; ao contrário, o acesso a livros aparece como privilégio de quem tem dinheiro e prestígio social.

🏆 Gabarito: A — os dois textos descrevem bibliotecas particulares formadas em cidades ricas e conectadas (Roma, regiões da Itália, Germânia e Bélgica, de um lado; Córdova, de outro), onde comércio de manuscritos e prestígio social impulsionam a circulação de livros — por isso "difusão da cultura favorecida pelas atividades urbanas" é a única síntese compatível com as duas evidências.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que descreve um processo presente nos dois textos ao mesmo tempo — a circulação de livros dentro de ambientes urbanos —, sem depender da religião específica de cada autor nem de instituições incompatíveis com o século X.
  • Padrão de cobrança: o ENEM gosta de cruzar uma fonte cristã e uma fonte muçulmana (ou judaica) do mesmo período para testar se o aluno reconhece semelhanças estruturais — economia, sociedade, cultura material — por trás de diferenças religiosas, numa abordagem de história conectada da Idade Média.
  • Generalização: quando a questão pede o que dois textos "têm em comum", elimine primeiro as alternativas que descrevem apenas um dos lados (só o religioso, só o comercial) e procure o conceito que resuma os dois relatos simultaneamente.
  • Dica de eliminação rápida: desconfie de datas — "corporações de ofício" e "laicização" pertencem a séculos posteriores ao X; desconfie de geografia — nenhuma referência a Constantinopla aparece nos textos, então "intelectuais bizantinos" cai fácil.
  • Conexões: apogeu do Califado de Córdova (Abd al-Rahman III, Al-Hakam II) e de Al-Andalus; Gerberto de Aurillac como Papa Silvestre II e a renovação cultural otoniana; rotas de transmissão do saber greco-árabe para a Europa cristã via Península Ibérica.

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