Mapa de questões · 1º dia
Questão 83 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
Jamais deixou de haver sangue, martírio e sacrifício, quando o homem sentiu a necessidade de criar em si uma memória; os mais horrendos sacrifícios e penhores, as mais repugnantes mutilações (as castrações, por exemplo), os mais cruéis rituais, tudo isto tem origem naquele instinto que divisou na dor o mais poderoso auxiliar da memória.
NIETZSCHE, F. Genealogia da moral. São Paulo: Cia. das Letras, 1999.
O fragmento evoca uma reflexão sobre a condição humana e a elaboração de um mecanismo distintivo entre homens e animais, marcado pelo(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Nietzsche; Genealogia da Moral; memória, dor e consciência de si
- ⚡ Nível: Difícil — exige interpretar um texto filosófico denso e abstrato sem se apoiar em vocabulário técnico explícito no enunciado
- 🎯 Tema/Habilidade: o papel da memória (produzida pela dor) na constituição da consciência humana — competência de leitura e análise de textos filosóficos (H6/C1, Ciências Humanas)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que, segundo o trecho de Nietzsche, distingue radicalmente o ser humano do animal?"
- Palavras-chave decisivas: necessidade de criar em si uma memória, dor como auxiliar da memória, mecanismo distintivo entre homens e animais
- Armadilha típica: o candidato lê "sangue", "sacrifício" e "mutilações" e associa a alternativa a temas concretos e físicos — como biologia, natureza ou ciência —, ignorando que Nietzsche está falando de um processo cultural e reflexivo, não de um dado orgânico ou científico.
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que a violência descrita não é o fim em si, mas o meio pelo qual o ser humano grava em si a passagem do tempo — ou seja, adquire a capacidade de se relacionar com seu passado e seu futuro, algo que o animal (preso ao presente imediato) não possui.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Genealogia da Moral (2ª Dissertação): obra em que Nietzsche investiga a origem histórica de conceitos morais como culpa, dívida e promessa. Ele pergunta: como se "cria um animal com o direito de fazer promessas"? A resposta passa pela construção artificial da memória.
- Mnemotécnica da dor: para Nietzsche, "só o que não cessa de doer permanece na memória". Como o esquecimento é a condição natural (e até saudável) do animal humano, foi preciso inscrever compromissos e normas no corpo por meio de rituais dolorosos — sacrifícios, mutilações, marcas — para que o homem aprendesse a lembrar e, com isso, a responder por si mesmo ao longo do tempo.
- Consciência da existência (autoconsciência temporal): capacidade humana de se perceber como um ser que existiu, existe e existirá — que tem um passado a lembrar e um futuro a prometer. É esse traço, e não a razão científica nem a biologia, que separa o humano do animal no fragmento.
- Animal x homem em Nietzsche: o animal vive imerso no eterno presente; o homem, ao contrário, é o "animal que pode fazer promessas" justamente porque desenvolveu, à custa de dor, uma memória da vontade — o embrião da consciência de si.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "quando o homem sentiu a necessidade de criar em si uma memória" → revela que a memória não é dada biologicamente: ela precisa ser construída, é um processo cultural e deliberado, não um instinto natural pronto.
- Evidência 2: "aquele instinto que divisou na dor o mais poderoso auxiliar da memória" → mostra que a dor é o instrumento, não o objetivo; ela serve para fixar no indivíduo algo que o acompanhará no tempo — a base da capacidade de se reconhecer como o mesmo sujeito entre o passado e o futuro.
- Síntese: as duas evidências convergem para uma mesma ideia: o sofrimento ritualizado foi o método pelo qual o ser humano se tornou capaz de reter sua própria história e de se comprometer com ela — ou seja, de ter consciência de sua existência ao longo do tempo, o que o animal, preso ao instante presente, não possui.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Situar o fragmento na obra
O trecho pertence à Segunda Dissertação da Genealogia da Moral, na qual Nietzsche investiga como a humanidade produziu um "animal com o direito de fazer promessas". Antes de existir qualquer consciência moral, houve um longo e violento trabalho de memória — rituais de sangue, castrações, marcas no corpo — cuja função era combater o esquecimento natural e gravar regras e compromissos na experiência do indivíduo.
Subpasso 4.2 — Identificar o que a dor produz
A dor não é celebrada por si mesma: ela é o "mais poderoso auxiliar da memória", o meio mais eficaz de fazer algo permanecer gravado quando ainda não existe escrita ou lei consolidada. Ao reter essa marca dolorosa, o ser humano passa a poder se relacionar com o próprio passado (lembra do que prometeu, do que deve) e com o próprio futuro (sabe que responderá por seus atos). Essa capacidade de "amarrar" passado e futuro em torno de um mesmo "eu" é o que Nietzsche entende como embrião da consciência — a consciência da própria existência ao longo do tempo, e não apenas no instante presente, como vivem os animais.
Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas
Se o traço distintivo apontado pelo fragmento é a capacidade de reter a experiência e se relacionar com o tempo, a única alternativa que nomeia diretamente esse fenômeno é "consciência da existência". As demais remetem a campos que o texto não trata (ciência, biologia inata, natureza, contingência genérica), confirmando que a resposta correta é a letra E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) racionalidade científica.
❌ Incorreta: o texto de Nietzsche é uma genealogia — um método histórico-filosófico que rastreia a origem cultural e violenta de conceitos morais —, não uma discussão sobre método científico ou racionalidade lógico-experimental. Não há, no fragmento, nenhuma menção a ciência, experimento ou razão calculadora.
B) determinismo biológico.
❌ Incorreta: é praticamente o oposto do argumento nietzschiano. O fragmento mostra que a memória humana não é um dado biológico automático — ela precisou ser fabricada culturalmente, à força de rituais e sofrimento. Se fosse determinismo biológico, não haveria necessidade de "criar em si uma memória"; ela simplesmente existiria por natureza.
C) degradação da natureza.
❌ Incorreta: o texto não trata de meio ambiente, natureza física ou sua deterioração. Os "sacrifícios" e "mutilações" mencionados são práticas culturais simbólicas, voltadas à formação da memória humana, não eventos de degradação ecológica.
D) domínio da contingência.
❌ Incorreta: é uma alternativa genérica demais e não corresponde ao argumento específico do fragmento. "Contingência" remeteria ao acaso ou ao imprevisível, mas o texto fala de algo construído deliberadamente (a memória via dor) para fixar compromissos, não para dominar o acaso.
E) consciência da existência.
✅ Correta: a memória forjada pela dor é o mecanismo que permite ao ser humano se relacionar com seu passado e projetar-se no futuro — ou seja, saber-se existindo ao longo do tempo, e não apenas no presente imediato, como o animal. Esse é precisamente o traço distintivo entre humanos e animais evocado pelo fragmento.
🏆 Gabarito: E — o fragmento descreve como a dor foi historicamente usada para fabricar a memória humana, e essa memória é a base da capacidade humana de se reconhecer como um ser que existe no tempo — a consciência da existência, ausente no animal preso ao presente.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a letra E nomeia o que o texto realmente descreve — a construção, via memória dolorosa, da capacidade humana de se saber existindo no tempo; nenhuma outra alternativa trata de tempo, memória ou autoconsciência.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer excertos de filósofos (Nietzsche, Rousseau, Hobbes, Marx) pedindo que o aluno identifique o conceito central por trás de uma linguagem figurada ou histórica, sem citar o termo técnico diretamente — o candidato precisa "traduzir" a imagem (dor, sacrifício) para o conceito filosófico (memória, consciência).
- Generalização: em questões de interpretação filosófica, sempre pergunte "qual conceito abstrato esse relato concreto está ilustrando?" — a resposta certa costuma nomear esse conceito com precisão, enquanto os distratores usam termos vagos ou de outra área do conhecimento.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que trazem vocabulário de outra área (científica, biológica, ecológica) quando o texto-base é claramente filosófico-histórico; entre as sobras, prefira o termo mais específico e coerente com o campo semântico do trecho (aqui, memória → tempo → consciência) e desconfie de termos vagos como "contingência".
- Conexões: Nietzsche e a crítica à moral tradicional; a diferença ontológica entre homem e animal em outros autores (Aristóteles, Rousseau); memória e identidade pessoal na filosofia contemporânea.
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