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Mapa de questões · 1º dia
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Questão 63ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

Em Utopia, tudo é comum a todos. A distribuição dos bens lá não é um problema, não se vê nem pobre nem mendigo e, embora ninguém tenha nada de seu, todos são ricos. Haverá maior riqueza do que levar uma existência alegre e pacífica, livre de ansiedades e sem precisar se preocupar com a subsistência?

MORUS, T. Utopia. Brasília: UnB, 2004.

Retirado da obra de Thomas Morus, escrita no século XVI, esse trecho influenciou movimentos sociais do século XIX que lutaram para

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Pensamento político moderno e Socialismo Utópico do século XIX
  • ⚡ Nível: Médio — exige relacionar um texto renascentista a um movimento histórico específico do século XIX, descartando pautas anacrônicas como meio ambiente, religião e tecnologia
  • 🎯 Tema/Habilidade: Recepção histórica da obra Utopia, de Thomas Morus, pelo socialismo utópico (Saint-Simon, Fourier, Owen); relação entre produção intelectual e movimentos sociais
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Esse texto de Thomas Morus (Utopia, 1516) inspirou movimentos sociais do século XIX que lutavam por qual objetivo?"
  • Palavras-chave decisivas: tudo é comum a todos, nem pobre nem mendigo, ninguém tenha nada de seu
  • Armadilha típica: confundir a crítica à propriedade privada e ao acúmulo de riqueza (alvo real: a lógica do capital) com uma suposta oposição à ascensão social da burguesia enquanto indivíduos (alternativa A) — o texto não fala em impedir alguém de subir na vida, fala em abolir a própria estrutura da propriedade e do lucro.
  • O que a resposta precisa demonstrar: reconhecimento da linhagem histórica entre a utopia comunitária de Morus e o ideário de igualdade material dos socialistas utópicos, que se posicionavam contra a exploração e a concentração de riqueza — e não contra pautas ambientais, religiosas ou tecnológicas.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Utopia, de Thomas Morus (1516): obra que descreve uma ilha imaginária sem propriedade privada, onde os bens são coletivos, não há pobreza e todos vivem com tranquilidade material. É, na prática, uma crítica indireta à Inglaterra do início do capitalismo mercantil, marcada pelos cercamentos (enclosures) que expulsavam camponeses de terras comunais para dar lugar à criação de ovelhas voltada ao lucrativo comércio de lã.
  • Socialismo utópico (primeira metade do século XIX): corrente de pensadores como Saint-Simon, Charles Fourier e Robert Owen que, diante da miséria gerada pela Revolução Industrial, propunham superar as desigualdades por meio de comunidades igualitárias, cooperativas e posse coletiva dos meios de produção — sem, contudo, apresentar uma estratégia de luta de classes (por isso Marx e Engels os classificaram como "utópicos", em oposição ao seu próprio "socialismo científico").
  • Questão social do século XIX: conjunto de problemas — exploração do trabalho, jornadas extenuantes, miséria urbana, concentração de renda — provocados pela industrialização capitalista, berço tanto do socialismo utópico quanto, depois, do socialismo científico e do anarquismo.
  • "Domínio do capital": expressão que sintetiza a crítica a um sistema em que a posse privada dos meios de produção e a busca pelo lucro subordinam o trabalho e geram desigualdade — exatamente o oposto do mundo sem propriedade privada descrito por Morus.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "tudo é comum a todos" → revela a ausência de propriedade privada: a base material da utopia de Morus é o compartilhamento coletivo dos bens, ideia central também no programa dos socialistas utópicos.
  • Evidência 2: "não se vê nem pobre nem mendigo... todos são ricos" → mostra que a fartura só existe porque não há apropriação privada dos bens por poucos; a riqueza comum substitui a riqueza individual acumulada — crítica direta à lógica do lucro e da acumulação, ou seja, ao capital.
  • Síntese: as duas evidências convergem para uma crítica à propriedade privada e à concentração de riqueza — exatamente o núcleo doutrinário retomado, três séculos depois, pelos socialistas utópicos que lutavam contra o domínio do capital sobre a vida social e econômica.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o eixo temático do texto de Morus

O trecho de Utopia apresenta uma sociedade ideal organizada em torno de três elementos: (1) propriedade comum dos bens, (2) ausência de pobreza e (3) tranquilidade decorrente da garantia de subsistência para todos. Morus escreve em 1516, em pleno processo de cercamento das terras comunais na Inglaterra, que expulsava camponeses do campo para dar lugar a um modelo econômico voltado ao lucro. A utopia funciona, portanto, como uma crítica literária a um sistema nascente baseado na propriedade privada excludente — o embrião do capitalismo.

Subpasso 4.2 — Conectar o texto ao século XIX

O enunciado pede a ponte entre um texto de 1516 e os movimentos sociais do século XIX. Nesse período, a Revolução Industrial radicalizou exatamente o problema que Morus já criticava: fábricas, propriedade privada dos meios de produção e concentração de riqueza nas mãos da burguesia industrial, ao lado da miséria do proletariado urbano. Pensadores como Saint-Simon, Fourier e Owen — os chamados "socialistas utópicos" — recuperaram o ideal de Morus de uma sociedade sem propriedade privada e sem pobreza como modelo para imaginar alternativas ao capitalismo industrial: cooperativas de produção, comunidades igualitárias (como a New Lanark, de Owen) e falanstérios (Fourier). O fio condutor entre Morus e esses movimentos é a rejeição da propriedade privada e da lógica do lucro — em outras palavras, o combate ao domínio do capital.

Subpasso 4.3 — Verificação

Testando essa síntese contra as cinco alternativas, apenas uma descreve corretamente o objetivo desses movimentos: combater a lógica de acumulação privada e exploração inerente ao capitalismo nascente — a alternativa C. As demais trazem pautas ausentes do texto (religião, natureza, tecnologia) ou distorcem o alvo da crítica, deslocando-o da estrutura econômica (o capital) para um grupo social específico (a burguesia enquanto classe que ascende).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) inibir a ascensão da burguesia.

❌ Incorreta: o texto de Morus não trata da mobilidade social de indivíduos ou classes, mas da abolição da propriedade privada como estrutura. Os socialistas utópicos não queriam impedir pessoas de "ascender" socialmente; queriam abolir o sistema de propriedade e exploração que sustentava essa ascensão. A crítica é estrutural (ao capital), não pessoal (à burguesia como grupo que sobe na hierarquia social).

B) evitar a destruição da natureza.

❌ Incorreta: a pauta ambiental é anacrônica para o contexto descrito. Nem Morus nem os socialistas utópicos do século XIX tinham a preservação da natureza como eixo de sua crítica; essa preocupação (ecossocialismo, movimento ambientalista) só ganha força política a partir do século XX.

C) combater o domínio do capital.

✅ Correta: tanto a utopia de Morus quanto o socialismo utópico do século XIX compartilham o mesmo alvo — a propriedade privada dos bens e a lógica de acumulação que gera pobreza para uns e riqueza para outros. "Tudo é comum a todos" é a antítese direta da lógica capitalista de apropriação privada; por isso o texto se tornou referência para movimentos que lutavam contra o domínio do capital sobre a vida social e econômica.

D) eliminar a intolerância religiosa.

❌ Incorreta: a intolerância religiosa não é mencionada nem sugerida no trecho. Embora Utopia, em outros trechos da obra completa, também aborde a tolerância religiosa, esse não é o tema do excerto citado na questão, que fala exclusivamente de distribuição de bens e ausência de pobreza.

E) superar o atraso tecnológico.

❌ Incorreta: tecnologia e desenvolvimento técnico não aparecem no trecho. A crítica de Morus recai sobre a organização social da propriedade e da riqueza, não sobre o nível de desenvolvimento técnico da sociedade.

🏆 Gabarito: C — o texto de Morus, ao descrever uma sociedade sem propriedade privada e sem pobreza, forneceu a base ideológica retomada pelo socialismo utópico do século XIX, cujo objetivo central era combater o domínio do capital sobre a vida econômica e social.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C conecta corretamente a crítica à propriedade privada presente no texto de Morus com o objetivo histórico dos movimentos socialistas do século XIX — combater a lógica de exploração e acumulação do capital.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa trechos de autores clássicos (Morus, Rousseau, Marx, Engels) como ponte entre séculos, testando se o estudante reconhece a genealogia das ideias políticas e sociais — é preciso saber "de onde vêm" as ideias dos movimentos do século XIX.
  • Generalização: sempre que um texto do Renascimento ou do Iluminismo descrever igualdade material, ausência de propriedade privada ou crítica ao acúmulo de riqueza, a resposta caminha para o eixo "crítica ao capitalismo/socialismo" — e não para pautas ambientais, religiosas ou tecnológicas, que pertencem a outros debates históricos.
  • Dica de eliminação rápida: identifique o "alvo da crítica" no texto-base: se o alvo é a propriedade e a riqueza, elimine de cara alternativas sobre natureza (pauta recente), religião (só entra se o texto mencionar crença ou culto) e tecnologia (só entra se o texto mencionar máquinas ou produção técnica).
  • Conexões: Thomas Morus e o Humanismo renascentista; Revolução Industrial e a "questão social"; socialismo utópico (Saint-Simon, Fourier, Owen) versus socialismo científico (Marx e Engels).

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