Mapa de questões · 1º dia
Questão 31 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

TEXTO III
A arte pode estar, às vezes, muito mais preparada do que a ciência para captar o devir e a fluidez do mundo, pois o artista não quer manipular, mas sim “habitar” as coisas. O famoso artista francês Rodin, no seu livro L’Art (A Arte, 1911), comenta que a técnica de fotografia em série, mostrando todos os momentos do galope de um cavalo em diversos quadros, apesar de seu grande realismo, não é capaz de capturar o movimento. O corpo do animal é fotografado em diferentes posições, mas ele não parece estar galopando: “na imagem científica [fotográfica], o tempo é suspenso bruscamente”.
Para Rodin, um pintor é capaz, em única cena, de nos transmitir a experiência de ver um cavalo de corrida, e isso porque ele representa o animal em um movimento ambíguo, em que os membros traseiros e dianteiros parecem estar em instantes diferentes. Rodin diz que essa exposição talvez seja logicamente inconcebível, mas é paradoxalmente muito mais adequada à maneira como o movimento se dá: “o artista é verdadeiro e a fotografia mentirosa, pois na realidade o tempo não para”.
FEITOSA, C. Explicando a filosofia com arte. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
Observando-se as imagens (Textos I e II), o paradoxo apontado por Rodin (Texto III) procede e cria uma maneira original de perceber a relação entre a arte e a técnica, porque o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Artes → Estética e Filosofia da Arte (relação entre arte e técnica na representação do movimento)
- ⚡ Nível: Difícil — exige cruzar duas imagens (Texto I e II) com um texto teórico (Texto III) para enxergar uma inversão lógica sutil
- 🎯 Tema/Habilidade: Relação entre arte e técnica na representação da realidade; leitura comparada de linguagem verbal e não verbal
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Por que o paradoxo de Rodin — a foto mente, a pintura é verdadeira quanto ao movimento — procede e renova a relação entre arte e técnica?"
- Palavras-chave decisivas: paradoxo, procede, relação entre arte e técnica
- Armadilha típica: marcar a alternativa D, confundindo a distorção anatômica proposital de Géricault com um erro ingênuo do pintor.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato percebe a inversão — o que parece "objetivo" (a foto) falha em transmitir o movimento; o que parece "subjetivo" (a pintura) acerta.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Galope voador: convenção pictórica (retomada por Géricault) que representa o cavalo com as quatro patas esticadas e no ar simultaneamente — pose que a fotografia comprovaria ser anatomicamente impossível.
- Cronofotografia de Muybridge: sequência de 16 fotos (Texto I) que decompõe o galope em instantes estáticos e cientificamente exatos, porém isolados entre si.
- Paradoxo de Rodin: "o artista é verdadeiro e a fotografia mentirosa" — afirmação contraditória à primeira vista, mas que se sustenta: fidelidade ao instante não é fidelidade ao movimento vivido.
- Devir do tempo: o movimento real é contínuo; fatiar o tempo em fotogramas trai a experiência de vê-lo acontecer.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (Texto I): os 16 quadros de Muybridge mostram poses estáticas e nítidas das patas do cavalo — corretas cientificamente, mas isoladamente nenhuma delas "galopa". → confirma o "tempo suspenso bruscamente" de que fala Rodin.
- Evidência 2 (Texto II): Géricault pinta os cavalos com as patas dianteiras à frente e as traseiras atrás, todas no ar ao mesmo tempo — pose fisicamente impossível, mas que transmite forte sensação de velocidade. → o "erro" anatômico gera a sensação real de movimento.
- Evidência 3 (Texto III): "o artista é verdadeiro e a fotografia mentirosa, pois na realidade o tempo não para." → nomeia explicitamente qual técnica mente e qual diz a verdade sobre o movimento.
- Síntese: o senso comum vê a fotografia como fiel e a pintura como imprecisa; as duas imagens somadas ao comentário de Rodin invertem essa expectativa.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — O núcleo do paradoxo
A técnica tida como objetiva (a foto) mente sobre o movimento porque congela o tempo; a arte tida como subjetiva (a pintura) diz a verdade sobre ele porque sintetiza instantes ambíguos numa só cena. O comando pede para justificar por que essa inversão "procede" diante dos Textos I e II.
Subpasso 4.2 — Ligando o paradoxo à relação arte × técnica
No Texto I, a fotografia registra com exatidão cada posição das patas, mas cada quadro isolado não parece galopar — falta o elo entre um instante e outro. No Texto II, Géricault pinta uma pose logicamente impossível (as quatro patas no ar), mas é exatamente essa síntese ambígua que faz o observador "sentir" a velocidade do cavalo. A arte não copia o instante como a técnica fotográfica: ela reconstrói a experiência do movimento, mesmo à custa da exatidão factual.
Subpasso 4.3 — Verificação
A alternativa correta precisa nomear essa inversão — a foto, tida como fiel, na verdade falha; a pintura, tida como imprecisa, na verdade acerta. Apenas a alternativa E expressa diretamente essa inversão da lógica comum.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) fotografia é realista na captação da sensação do movimento.
❌ Incorreta: contraria o Texto III — para Rodin, a fotografia suspende o tempo e, por isso, é "mentirosa" quanto ao movimento; ela é fiel apenas à posição estática de cada instante.
B) pintura explora os sentimentos do artista e não tem um caráter científico.
❌ Incorreta: o texto não opõe "sentimento" a "ciência". O argumento de Rodin trata de qual técnica é mais fiel ao movimento, não de a pintura carecer de rigor científico.
C) fotógrafo faz um estudo sobre os movimentos e consegue captar a essência da sua representação.
❌ Incorreta: é o oposto do que o texto afirma — para Rodin, a fotografia científica não capta a essência do movimento; ela o interrompe bruscamente.
D) pintor representa de forma equivocada as patas dos cavalos, confundindo nossa noção de realidade.
❌ Incorreta: é a armadilha central da questão. O galope voador é, de fato, anatomicamente "errado", mas o texto trata essa escolha como um acerto paradoxal quanto ao movimento, não como confusão.
E) pintura inverte a lógica comumente aceita de que a fotografia faz um registro objetivo e fidedigno da realidade.
✅ Correta: é a inversão que os três textos comprovam em conjunto — a fotografia, tida como fiel, trai o movimento real ao congelar o tempo; a pintura, tida como imprecisa, o revela ao sintetizar instantes ambíguos numa única cena.
🏆 Gabarito: E — a pintura de Géricault, ao condensar numa única cena posições de patas logicamente incompatíveis, transmite a sensação real do galope, invertendo a expectativa de que a fotografia seria o registro mais fiel do movimento.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que nomeia corretamente a inversão de credibilidade entre fotografia e pintura na representação do movimento.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma cruzar uma obra de arte com um texto teórico que a reinterpreta, cobrando a tese central desse comentário — não uma opinião pessoal sobre a obra.
- Generalização: quando o enunciado apresenta um "paradoxo" e pergunta por que ele "procede", a alternativa certa reformula esse paradoxo com outras palavras, sem julgamentos que o texto-base não fez.
- Dica de eliminação rápida: elimine quem reafirma o senso comum sem inversão (A e C, que atribuem à foto a fidelidade ao movimento); depois, desconfie de quem trata como erro/confusão o que o texto trata como acerto paradoxal (B e D).
- Conexões: Henri Bergson e o conceito de duração; futurismo e cronofotografia como tentativas de representar o movimento na imagem estática.
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