Mapa de questões · 1º dia
Questão 61 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
O justo e o bem são complementares no sentido de que uma concepção política deve apoiar-se em diferentes ideias do bem. Na teoria da justiça como equidade, essa condição se expressa pela prioridade do justo. Sob sua forma geral, esta quer dizer que as ideias aceitáveis do bem devem respeitar os limites da concepção política de justiça e nela desempenhar um certo papel.
RAWLS, J. Justiça e democracia. São Paulo: Martins Fontes, 2000 (adaptado).
Segundo Rawls, a concepção de justiça legisla sobre ideias do bem, de forma que
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Política; teoria da justiça de John Rawls
- ⚡ Nível: Difícil — exige vocabulário técnico rawlsiano (o justo, o bem, prioridade do justo) e discriminação fina entre a tese de Rawls e teorias vizinhas (determinismo, historicismo moral, relativismo pós-moderno, compatibilismo)
- 🎯 Tema/Habilidade: Relação entre a concepção política de justiça (o justo) e as concepções individuais de vida boa (o bem); leitura de texto filosófico dos eixos ética e política
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo Rawls, o que ocorre quando os princípios de justiça (o justo) regulam as concepções de bem?"
- Palavras-chave decisivas: prioridade do justo, ideias aceitáveis do bem, limites da concepção política de justiça
- Armadilha típica: confundir a tese rawlsiana com teses "vizinhas" — determinismo, historicismo moral, relativismo pós-moderno, compatibilismo — presentes nas alternativas erradas com linguagem sedutora.
- O que a resposta precisa demonstrar: que os bens e projetos de vida de cada indivíduo continuam existindo, mas dentro de limites fixados por princípios de justiça compartilhados por toda a sociedade.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Justiça como equidade: teoria de Rawls que busca os princípios de justiça que pessoas livres e iguais escolheriam numa situação inicial equitativa (posição original, véu da ignorância), para reger a estrutura básica da sociedade.
- O justo × o bem: "o justo" são os princípios políticos que organizam a vida em comum; "o bem" são as concepções pessoais sobre o que torna a vida digna — planos de vida, crenças, valores, que variam de pessoa para pessoa.
- Prioridade do justo: os princípios de justiça têm precedência sobre qualquer concepção de bem — nenhuma doutrina de vida boa se impõe às regras públicas; toda concepção de bem, para ser aceitável, precisa caber dentro dos limites da justiça política.
- Pluralismo razoável: como a sociedade abriga diferentes doutrinas religiosas, morais e filosóficas, a justiça política não adota nenhuma delas como oficial; cria um espaço neutro dentro do qual cada um persegue seu bem.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "essa condição se expressa pela prioridade do justo" → o justo ocupa posição hierarquicamente superior às concepções de bem, funcionando como sua moldura.
- Evidência 2: "as ideias aceitáveis do bem devem respeitar os limites da concepção política de justiça e nela desempenhar um certo papel" → o bem só é socialmente aceito quando cabe dentro do espaço definido pelos princípios de justiça.
- Síntese: a justiça não dita a cada um qual é o seu bem, mas fixa os limites dentro dos quais os diferentes projetos de vida coexistem de modo equilibrado — a ideia central da alternativa D.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Estrutura lógica do texto-base
O texto relaciona dois termos: o justo (princípios de justiça) e o bem (concepções individuais de vida boa). A "prioridade do justo" afirma que é o justo quem estabelece as condições de aceitação do bem, e não o contrário — por isso são "complementares", mas de forma hierárquica.
Subpasso 4.2 — Traduzindo a prioridade do justo
Cada indivíduo continua livre para perseguir seus objetivos e concepções de vida boa — seus "bens particulares" —, mas essa busca só é legítima quando cabe no quadro de princípios de justiça compartilhados. Rawls chama esses princípios de "equilibrados" porque nascem de um acordo hipotético entre pessoas livres e iguais, não da imposição de uma doutrina específica.
Subpasso 4.3 — Verificação
A paráfrase correta é: "bens e projetos individuais são regulados por princípios de justiça equilibrados". Só a alternativa D reproduz essa estrutura; as demais trazem teses estranhas ao texto. Isso confirma D.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) as ações individuais são definidas como efeitos determinados por fatores naturais ou constrangimentos sociais.
❌ Incorreta: descreve determinismo naturalista/sociológico, em que a ação humana é efeito de causas externas. Rawls pressupõe pessoas morais livres e racionais, capazes de formular e revisar seus planos de vida; a prioridade do justo regula essa liberdade, não a nega.
B) o estudo da origem e da história dos valores morais concluem a inexistência de noções absolutas de bem e mal.
❌ Incorreta: descreve um projeto genealógico de crítica da moral, mais próximo de Nietzsche do que de Rawls. O texto não investiga a origem histórica dos valores; admite várias concepções de bem como legítimas, desde que compatíveis com a justiça.
C) o próprio estatuto do homem como centro do mundo é abalado, marcando o relativismo da época contemporânea.
❌ Incorreta: refere-se ao descentramento do sujeito e à crítica ao antropocentrismo, tema da filosofia pós-moderna. O foco de Rawls é político-normativo — como organizar a estrutura básica da sociedade —, não uma tese sobre o lugar do homem no mundo.
D) as intenções e bens particulares que cada indivíduo almeja alcançar são regulados na sociedade por princípios equilibrados.
✅ Correta: traduz com precisão a prioridade do justo. Os projetos de vida e bens pessoais não desaparecem, mas são regulados por princípios de justiça (os "princípios equilibrados" da justiça como equidade), que delimitam onde cada concepção de bem pode ser legitimamente perseguida.
E) o homem é compreendido como determinado e livre ao mesmo tempo, já que a liberdade limita-se a um conjunto de condições objetivas.
❌ Incorreta: descreve uma posição compatibilista entre liberdade e determinismo, e não a relação rawlsiana entre justiça política e concepções de bem, que é normativa — como regular —, não metafísica — o que o homem é.
🏆 Gabarito: D — Rawls sustenta a prioridade do justo sobre o bem: os princípios de justiça, equilibrados por resultarem de um acordo equitativo entre pessoas livres e iguais, regulam os bens e projetos particulares que os indivíduos podem legitimamente perseguir na vida social.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que descreve regulação de bens individuais por princípios de justiça compartilhados, exatamente o que o texto afirma ao falar em "prioridade do justo".
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma cobrar autores contemporâneos pedindo que o candidato "traduza" um trecho técnico para uma alternativa em linguagem mais simples, sem se deixar seduzir por vocabulário filosófico parecido de outras correntes.
- Generalização: em questões de filosofia política sobre justiça, pergunte "quem regula quem?". Em Rawls, é o justo que regula o bem — nunca o contrário.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas com determinismo (A), negação histórica de valores absolutos (B) ou relativismo pós-moderno (C): nenhuma combina com um texto sobre regulação, não sobre negação de valores.
- Conexões: John Rawls; justiça como equidade; véu da ignorância; liberalismo político.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.