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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsFácil

Questão 30ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

Olhando o gavião no telhado, Hélio fala:
— Esta noite eu sonhei um sonho engraçado.
— Como é que foi? — pergunta o pai.
— Quer dizer, não é bem engraçado não. É sobre
uma casa de joão-de-barro que a gente descobriu ali no
jacarandá.
— A gente, quem?
— Eu mais o Timinho.
— O que tinha dentro?
— Um ninho.
— Vazio?
— Não.
— Tinha ovo?
— Tinha.
— Quantos? — pergunta a mãe.
Hélio fica na dúvida. Não consegue lembrar direito.
Todos esperam, interessados. Na maior aflição, ele pergunta ao irmão mais novo:
— Quantos ovos tinha mesmo, Timinho? Ocê lembra?

ROMANO, O. O ninho. In: Casos de Minas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

Esse texto pertence ao gênero textual caso ou “causo”, narrativa popular que tem o intuito de

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto / Gêneros textuais (causo, crônica) / Efeitos de humor e oralidade
  • ⚡ Nível: Fácil — o texto é curto e coloquial, mas a resposta exige separar a FUNÇÃO do texto de elementos apenas secundários (crianças, sotaque, diálogo)
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer a função predominante de um texto narrativo-dialógico do cotidiano (H19 — analisar a função da linguagem em situações específicas de interlocução)
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual é a função predominante desse texto — ou seja, para que ele foi construído?"
  • Palavras-chave decisivas: "sonho engraçado", "Na maior aflição", "Quantos ovos tinha mesmo, Timinho? Ocê lembra?"
  • Armadilha típica: confundir os ELEMENTOS presentes na cena (personagens crianças, marca regional "Ocê", formato de diálogo familiar) com a FUNÇÃO do texto, marcando a alternativa que apenas nomeia um desses elementos em vez do efeito comunicativo central — o humor.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de distinguir tema/cenário de função textual, percebendo que o texto usa um episódio banal do dia a dia para produzir comicidade por meio de um desfecho anticlimático.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Causo (gênero narrativo oral): relato curto, de tradição popular — muito presente na literatura regional brasileira, sobretudo mineira —, que narra um episódio simples do cotidiano e ganha graça pelo MODO de contar, não pelo conteúdo em si.
  • Função da linguagem/do texto: o propósito comunicativo que um texto cumpre (informar, comover, convencer, divertir...); nem sempre coincide com o tema ou com quem fala — é preciso perguntar "para que este texto foi escrito?", e não apenas "do que ele trata?".
  • Humor por expectativa frustrada (anticlímax): recurso cômico em que uma tensão é construída aos poucos (suspense, curiosidade crescente) e depois se resolve de forma trivial ou inesperada — quanto maior a expectativa, mais engraçado o desfecho banal.
  • Marca de oralidade regional ("Ocê"): índice linguístico do falar mineiro, típico de causos; sinaliza ambientação regional, mas é recurso de estilo — não é, por si só, a finalidade do texto.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Esta noite eu sonhei um sonho engraçado. [...] Quer dizer, não é bem engraçado não." → Hélio anuncia um "sonho" cômico e logo se corrige — sinal de que o episódio é, na verdade, banal (encontrar um ninho, de dia, ainda acordado), o que já cria humor pela contradição entre o anúncio e o fato.
  • Evidência 2: "Todos esperam, interessados. Na maior aflição, ele pergunta ao irmão mais novo: — Quantos ovos tinha mesmo, Timinho? Ocê lembra?" → A sequência de perguntas cada vez mais específicas (o quê, quem, o que tinha, vazio ou não, quantos) cria expectativa crescente, que se quebra comicamente quando o próprio narrador do "sonho" não sabe responder e precisa recorrer à memória do irmão caçula.
  • Síntese: o diálogo em cascata simula suspense em torno de um fato corriqueiro — a descoberta de um ninho — e resolve essa tensão de modo cômico quando Hélio esquece o número de ovos. É exatamente isso que caracteriza "relatar fatos do cotidiano de maneira cômica".

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o gênero e a situação comunicativa

O texto é um fragmento de "Casos de Minas" (1982), coletânea de causos — narrativas curtas, majoritariamente dialogadas, que registram situações do cotidiano com tom leve e humorístico. A cena ocorre em família: pai, mãe e os filhos Hélio e Timinho conversam sobre um "sonho" que, aos poucos, se revela ser a lembrança de um ninho de joão-de-barro encontrado no jacarandá. Reconhecer o gênero já orienta a resposta: o causo existe, por tradição, para provocar um sorriso a partir de fatos simples — não para ensinar hábitos, descrever tipos regionais ou celebrar a instituição família.

Subpasso 4.2 — Rastrear a construção do efeito cômico

Observe a progressão do diálogo: "O que tinha dentro?" → "Um ninho." / "Vazio?" → "Não." / "Tinha ovo?" → "Tinha." / "Quantos?". Cada pergunta é mais específica que a anterior, e o narrador reforça a tensão com "Hélio fica na dúvida. Não consegue lembrar direito. Todos esperam, interessados. Na maior aflição [...]". Esse acúmulo de expectativa é uma técnica clássica de humor: quanto maior a curiosidade criada, mais cômico é o desfecho quando ele frustra essa expectativa com algo trivial. E o desfecho é justamente a pergunta de Hélio ao irmão mais novo — "Ocê lembra?" —, ou seja, quem deveria saber a resposta também não sabe. É esse mecanismo (expectativa crescente + frustração banal) que classifica o texto como relato cômico de um fato do dia a dia.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confronte a síntese com as cinco alternativas: a única que nomeia, ao mesmo tempo, (a) a natureza do fato narrado — um episódio do cotidiano, sem grandiosidade — e (b) o efeito que esse relato produz — o humor gerado pelo desfecho — é a alternativa B ("relatar fatos do cotidiano de maneira cômica"). As demais capturam só elementos periféricos do texto (personagens infantis, sotaque regional, ambiente familiar), sem nomear corretamente sua função comunicativa central.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) contar histórias do universo infantil.

❌ Incorreta: Hélio e Timinho são crianças, mas a finalidade do texto não é narrar "o universo infantil" (brincadeiras, fantasias, visão de mundo da criança) — o foco é o efeito cômico de uma situação familiar banal, e os protagonistas serem crianças é circunstancial, não temático. É a alternativa mais tentadora, pois usa um elemento real do texto (personagens crianças) para mascarar a ausência da função correta.

B) relatar fatos do cotidiano de maneira cômica.

✅ Correta: o texto narra um episódio simples e corriqueiro — a descoberta de um ninho de pássaro — e constrói, pelo diálogo em cascata e pelo desfecho anticlimático ("Ocê lembra?"), um efeito humorístico típico do gênero causo. É exatamente essa combinação — fato banal tratado de forma cômica — que define a função do texto.

C) retratar personagens típicos de uma região.

❌ Incorreta: a marca linguística "Ocê" sinaliza regionalismo mineiro, mas o texto não constrói "tipos regionais" (personagens que representem características sociais ou culturais de uma região, como o caipira, o tropeiro etc.). Pai, mãe e filhos são apenas uma família comum; o regionalismo é pano de fundo linguístico-estilístico, não o objetivo do relato.

D) registrar hábitos de uma vida simples.

❌ Incorreta: registrar hábitos exigiria um relato descritivo e repetido de costumes ou rotinas (como a família se alimenta, trabalha, se diverte etc.). O texto, ao contrário, narra um episódio único e pontual — uma conversa sobre um achado específico —, sem qualquer intenção de catalogar hábitos cotidianos.

E) valorizar diálogos em família.

❌ Incorreta: o diálogo é o recurso formal usado para construir a cena — é o "como" do texto, não o "para quê". Confundir a forma (diálogo) com a função (humor) é o erro central dessa alternativa: o texto não tem como propósito exaltar a comunicação familiar em si, mas usar essa interação para gerar comicidade.

🏆 Gabarito: B — o texto relata um episódio banal do cotidiano familiar (a descoberta de um ninho) e o transforma em cena cômica por meio do acúmulo de expectativa seguido de um desfecho anticlimático, características centrais do gênero causo.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa B nomeia, ao mesmo tempo, a natureza do conteúdo (fato do cotidiano) e o efeito produzido (comicidade) — as demais mencionam elementos realmente presentes no texto, mas erram ao apontá-los como a função central.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência a identificação da função/efeito de sentido de textos curtos (tirinhas, crônicas, causos, anúncios, poemas) — é comum pedir "qual é a função desse texto" ou "que efeito de sentido X produz", testando a habilidade H19 (função da linguagem predominante em situações de interlocução).
  • Generalização: nesse tipo de questão, a alternativa correta costuma unir DOIS elementos — o tipo de conteúdo tratado (o "quê") e o efeito comunicativo gerado (o "para quê"); alternativas que citam apenas um elemento pontual do texto (um personagem, um cenário, um recurso formal) tendem a ser distratores.
  • Dica de eliminação rápida: para cada alternativa, pergunte-se "isso é só um ELEMENTO do texto ou é de fato a FUNÇÃO dele?" — respostas como "tem criança", "tem sotaque", "é um diálogo" quase sempre indicam distrator; a alternativa certa (aqui, "relatar... de maneira cômica") explica por que o texto foi escrito daquele jeito.
  • Conexões: gênero causo e crônica; variação linguística e regionalismos (marcas como "ocê", "trem", "uai"); humor por quebra de expectativa (mesmo recurso de piadas e tirinhas).

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