Mapa de questões · 1º dia
Questão 71 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
A maioria das necessidades comuns de descansar, distrair-se, comportar-se, amar e odiar o que os outros amam e odeiam pertence a essa categoria de falsas necessidades. Tais necessidades têm um conteúdo e uma função determinada por forças externas, sobre as quais o indivíduo não tem controle algum.
MARCUSE, H. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
Segundo Marcuse, um dos pesquisadores da chamada Escola de Frankfurt, tais forças externas são resultantes de
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Escola de Frankfurt; Teoria Crítica; indústria cultural e sociedade de consumo
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer o vocabulário conceitual de Marcuse e descartar distratores que imitam outros autores ou soam anacrônicos.
- 🎯 Tema/Habilidade: Crítica da Escola de Frankfurt à sociedade industrial de consumo — reconhecer como interesses econômicos moldam comportamentos e desejos individuais.
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é a origem das forças externas que fabricam as falsas necessidades dos indivíduos, segundo Marcuse?"
- Palavras-chave decisivas: falsas necessidades, forças externas, indivíduo não tem controle algum
- Armadilha típica: trocar a crítica de Marcuse (sistema econômico-industrial) pela crítica foucaultiana do discurso médico-científico (E) ou por uma leitura anacrônica de "cibernética" (C), termo fora do contexto histórico do texto, de 1964.
- O que a resposta precisa demonstrar: que as falsas necessidades têm origem no sistema de produção e consumo capitalista — forças ligadas à economia e à manutenção do lucro de determinados grupos sociais.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Escola de Frankfurt / Teoria Crítica: grupo de intelectuais (Adorno, Horkheimer, Marcuse, Benjamin, Fromm) do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt (1923), que uniu marxismo, psicanálise e sociologia para investigar como o capitalismo avançado domina sem violência explícita, pelo consumo e pela cultura de massa.
- Indústria cultural: conceito de Adorno e Horkheimer para os bens culturais (cinema, rádio, TV, publicidade) produzidos em série, que padronizam o gosto e neutralizam a capacidade crítica das massas.
- Necessidades verdadeiras x falsas (Marcuse, "O Homem Unidimensional", 1964): verdadeiras são vitais — alimentação, moradia, vestuário. Falsas são "sobrepostas" ao indivíduo por interesses sociais particulares: relaxar, divertir-se, consumir, amar e odiar conforme a propaganda dita — e perpetuam o trabalho alienado, mesmo parecendo desejos espontâneos.
- Homem unidimensional: sociedade em que o sistema técnico-industrial absorve toda oposição, pois os desejos dos indivíduos já nascem alinhados aos interesses do sistema que deveriam questionar.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "falsas necessidades... têm um conteúdo e uma função determinada por forças externas" → essas necessidades não nascem do sujeito; são implantadas por algo estrutural, não por escolha pessoal ou espiritual.
- Evidência 2: "sobre as quais o indivíduo não tem controle algum" → poder sistêmico e impessoal, típico de estruturas econômicas de larga escala (mercado, produção, publicidade), não de discursos técnicos pontuais.
- Síntese: unindo as evidências ao contexto da obra — crítica ao capitalismo tardio e à sociedade de consumo —, as "forças externas" só podem ser as engrenagens do sistema produtivo: interesses socioeconômicos que fabricam consumidores dóceis para se perpetuarem no poder.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o autor e a tese central
Marcuse é um dos principais nomes da Escola de Frankfurt. Em "O Homem Unidimensional", argumenta que a sociedade industrial avançada não domina mais apenas pela exploração clássica do trabalho, como descrevia Marx, mas também pela fabricação de desejos de consumo. O sistema cria necessidades — descansar de determinada forma, comprar certos produtos, "amar e odiar o que os outros amam e odeiam" — que parecem espontâneas, mas servem para mantê-lo funcionando sem contestação.
Subpasso 4.2 — Rastrear a origem das "forças externas"
O indivíduo "não tem controle algum" sobre essas forças: elas não vêm de dentro do sujeito — não são espirituais nem de solidariedade de classe —, mas de uma estrutura maior. Para Marcuse, essa estrutura é o aparato produtivo do capitalismo avançado: indústria, mercado e publicidade, cujo objetivo é manter a produção e o consumo, gerar lucro e evitar ruptura revolucionária, mantendo a população satisfeita e conformada — a "euforia na infelicidade".
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando essa cadeia lógica — necessidade fabricada → serve ao sistema produtivo → sustenta lucro e poder de grupos econômicos — com as cinco alternativas, só a opção "interesses de ordem socioeconômica" traduz com precisão o argumento de Marcuse. As demais trocam a causa econômica por causas espirituais, solidárias, tecnológicas ou médico-científicas, ausentes do trecho citado.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) aspirações de cunho espiritual.
❌ Incorreta: inverte o sentido do texto. Marcuse fala de necessidades materiais de consumo fabricadas pelo sistema produtivo — o oposto de aspirações espirituais, internas e ligadas à subjetividade do indivíduo, não a uma estrutura externa.
B) propósitos solidários de classes.
❌ Incorreta: "solidários" sugere cooperação entre classes, mas o argumento de Marcuse é o oposto: descreve dominação e controle de interesses do capital sobre os indivíduos, não um pacto solidário entre classes.
C) exposição cibernética crescente.
❌ Incorreta: anacronismo conceitual. A obra é de 1964, quando a exposição cibernética digital ainda não existia como fenômeno social. Marcuse critica os meios de comunicação de massa da época, mas a origem das falsas necessidades é econômica, não tecnológico-digital.
D) interesses de ordem socioeconômica.
✅ Correta: é exatamente o que Marcuse defende. As falsas necessidades são criadas e mantidas pelo aparato produtivo capitalista — indústria, mercado, publicidade — para garantir a reprodução do sistema de produção e consumo, beneficiando interesses econômicos e mantendo o indivíduo conformado à ordem vigente.
E) hegemonia do discurso médico-científico.
❌ Incorreta: chave de leitura foucaultiana, ligada a biopoder e medicalização, não marcuseana. Marcuse não atribui as falsas necessidades a saberes médicos, mas à lógica de produção e consumo do capitalismo industrial avançado.
🏆 Gabarito: D — as falsas necessidades descritas por Marcuse nascem do aparato produtivo capitalista, isto é, de interesses de ordem socioeconômica que moldam desejos para manter o sistema de consumo em funcionamento.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa D atribui a origem das falsas necessidades a uma força estrutural e impessoal ligada ao sistema produtivo — exatamente o que Marcuse descreve ao falar em forças externas fora do controle individual.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra a Escola de Frankfurt em torno de três eixos recorrentes: indústria cultural, sociedade de consumo e crítica à razão instrumental, destacando como o capitalismo "fabrica" comportamentos que parecem naturais.
- Generalização: sempre que um autor da Escola de Frankfurt falar em manipulação, alienação ou necessidades "criadas", a resposta tende a apontar para interesses econômicos de dominação, nunca para causas espirituais, biológicas ou tecnológicas isoladas.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas com vocabulário fora de época ou de outro autor (cibernética, discurso médico-científico) e as que soam "positivas demais" (solidariedade, espiritualidade) — a Escola de Frankfurt formula uma teoria da dominação, não da cooperação.
- Conexões: indústria cultural (Adorno e Horkheimer); alienação e fetichismo da mercadoria (Marx); sociedade do espetáculo (Guy Debord).
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