Mapa de questões · 1º dia
Questão 21 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

Os azulejos das fachadas do centro histórico de São Luís (MA) integram o patrimônio cultural da humanidade reconhecido pela Unesco. A técnica artística utilizada para a produção desses revestimentos advém das
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Artes → história da azulejaria e patrimônio cultural material do Brasil
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer a dupla raiz (árabe-oriental e europeia) da técnica do azulejo, indo além da resposta óbvia "é português"
- 🎯 Tema/Habilidade: Patrimônio cultural material e processos de hibridização/sincretismo nas manifestações artísticas
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "De onde vem, historicamente, a técnica artística usada para produzir os azulejos que revestem o centro histórico de São Luís?"
- Palavras-chave decisivas: técnica artística, revestimentos, advém das, patrimônio cultural da humanidade
- Armadilha típica: confundir "de onde vieram os azulejos" (resposta óbvia: de Portugal) com "de onde vem a técnica" — a pergunta é sobre a genealogia do saber-fazer, não sobre a rota comercial do objeto
- O que a resposta precisa demonstrar: que a azulejaria portuguesa — e, por extensão, a de São Luís — não é uma invenção isolada de um único povo, mas resultado de um processo histórico de trocas culturais entre civilizações diferentes
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Azulejo (etimologia): vem do árabe az-zulayj, "pedra polida" ou "pedra pequena e lisa" — a própria palavra já denuncia a origem oriental da técnica.
- Esmaltação estanífera (faiança): técnica de cobrir a peça cerâmica com um vidrado branco opaco à base de óxido de estanho, desenvolvida no Oriente Médio (Mesopotâmia/Pérsia, por volta do século IX) e difundida para o Ocidente pela expansão islâmica.
- Al-Andalus e a herança mourisca: ao dominar a Península Ibérica, os mouros implantam ali as técnicas de cuerda seca e cuenca, de matriz geométrica e vegetal estilizada (arabescos) — já que a tradição islâmica evita a figuração humana, sobretudo em contextos religiosos.
- Absorção e reelaboração europeia: a partir do Renascimento, artesãos portugueses e espanhóis herdam a técnica árabe e a cruzam com a maiólica italiana (que traz policromia e cenas figurativas) e, mais tarde, com a faiança holandesa de Delft (o característico azul e branco, por sua vez inspirado na porcelana chinesa) — consolidando o azulejo português "clássico".
- São Luís, a "Cidade dos Azulejos": no século XIX, comerciantes portugueses e locais revestem fachadas de sobrados com azulejos importados de Portugal — muitos até usados como lastro de navio — tanto por proteção contra o clima quente e úmido quanto como símbolo de status social; o centro histórico foi tombado pela Unesco em 1997 justamente por preservar esse conjunto único na América Latina.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "azulejos das fachadas do centro histórico de São Luís (MA) integram o patrimônio cultural da humanidade reconhecido pela Unesco" → situa o objeto como testemunho material de um processo histórico de longa duração e valor universal, não como uma criação local recente ou episódica.
- Evidência 2 (imagem): o painel fotografado (fonte: Iphan) mostra uma roseta quadrifoliada emoldurada por linha pontilhada e contornos geométricos entrelaçados, com pequenos losangos nos encontros das peças e folhagens estilizadas (tipo acanto) preenchendo os cantos → o miolo geométrico e a moldura pontilhada remetem ao repertório decorativo árabe-mourisco (arabesco), enquanto o desenho floral naturalista dos cantos denuncia o gosto europeu incorporado posteriormente.
- Síntese: a própria fotografia "mostra" a hibridização descrita nos conceitos — geometria de raiz oriental somada a ornamento floral de tratamento europeu —, o que conduz diretamente à alternativa que fala em confluência de saberes do Oriente Médio e da Europa.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar exatamente o que está sendo perguntado
O enunciado não pergunta "quem fabricou" nem "de onde vieram fisicamente" os azulejos de São Luís (isso teria resposta óbvia: Portugal). Ele pergunta de onde advém a técnica artística usada na produção desses revestimentos. É uma questão sobre a origem histórica de um saber-fazer, não sobre logística de importação.
Subpasso 4.2 — Rastrear a origem histórica da técnica
A cerâmica vidrada com desenhos geométricos entrelaçados nasce no Oriente Médio (Pérsia e Mesopotâmia) e chega à Europa através da expansão islâmica, fixando-se na Península Ibérica durante o período de Al-Andalus. Artesãos portugueses e espanhóis herdam essa técnica dos mouros e, ao longo dos séculos XV a XVIII, incorporam contribuições especificamente europeias: a policromia da maiólica italiana e o padrão azul-e-branco da faiança holandesa de Delft. É desse encontro sucessivo de saberes que nasce o azulejo português posteriormente exportado ao Brasil.
Subpasso 4.3 — Verificação cruzando texto e imagem
Voltando à foto: o padrão geométrico pontilhado e a roseta simétrica pertencem à matriz decorativa árabe/oriental (arabesco); o acabamento com folhagens naturalistas nos cantos é um acréscimo do gosto europeu posterior. Isso confirma, tanto pelo conhecimento histórico quanto pela leitura da imagem, que a técnica resulta de um encontro — uma confluência — entre saberes do Oriente Médio e da Europa. Nenhuma outra alternativa reúne esses dois elementos com precisão histórica.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) A confluências de diferentes saberes do Oriente Médio e da Europa.
✅ Correta: a técnica de esmaltação e os padrões geométricos originam-se no Oriente Médio/mundo árabe-islâmico; a policromia, a figuração e o refinamento posterior (maiólica italiana, faiança holandesa) vêm da Europa. O azulejo português — e, por extensão, o de São Luís — é fruto direto dessa fusão de tradições técnicas e estéticas.
B) adequações para aproveitamento da mão de obra local.
❌ Incorreta: os azulejos de São Luís eram, em sua maioria, importados prontos de Portugal — muitos usados até como lastro em navios —, e não o resultado de uma técnica adaptada para empregar mão de obra maranhense. A alternativa inverte a lógica histórica: o produto (e a técnica) veio de fora, não foi criado para aproveitar trabalho local.
C) inovações decorrentes da Revolução Industrial.
❌ Incorreta: a técnica artística da azulejaria — o desenho, o vidrado, os padrões geométricos e florais — é secular, consolidada entre os séculos XIII e XVII, muito antes da Revolução Industrial (séculos XVIII-XIX). A industrialização ampliou a escala de produção no século XIX, mas não é a origem da técnica artística em si, que o enunciado pergunta.
D) inovaçõs das culturas francesa e holandesa.
❌ Incorreta: é verdade que a Holanda influenciou o azulejo português com o padrão azul e branco de Delft, mas a França teve papel irrelevante nessa tradição específica. Além disso, a alternativa ignora justamente a raiz mais antiga e determinante — a matriz árabe/oriental —, tornando a atribuição incompleta e historicamente imprecisa.
E) descoberta de recursos naturais na Colônia.
❌ Incorreta: o azulejo é um produto manufaturado e importado, não uma técnica derivada de recursos naturais encontrados no Brasil colonial (como ouro, diamantes ou madeira). A alternativa confunde história econômica da Colônia com a história de uma técnica artística de origem euro-oriental.
🏆 Gabarito: A — a técnica do azulejo que reveste o centro histórico de São Luís nasce do cruzamento entre o saber cerâmico do Oriente Médio (esmaltação, geometria, arabesco) e os desenvolvimentos europeus posteriores (maiólica italiana, faiança holandesa, tradição portuguesa), configurando uma autêntica confluência cultural.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A reconhece a dupla raiz — Oriente Médio e Europa — da técnica azulejar; todas as demais erram a origem histórica ou a natureza do objeto (importado x local, técnica x recurso natural, época errada).
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma testar patrimônio cultural material brasileiro (azulejaria, arquitetura colonial, culinária, línguas) exigindo que o aluno reconheça sua natureza híbrida e sincrética, fruto de encontros entre culturas — nunca invenções isoladas de um só povo.
- Generalização: sempre que uma questão tratar da "origem de uma técnica ou manifestação cultural brasileira", desconfie de alternativas que apontam um único povo, uma causa puramente econômica ou um marco temporal incompatível; o padrão histórico do Brasil (e de Portugal, sua matriz colonizadora) é o de sincretismo cultural.
- Dica de eliminação rápida: corte primeiro as alternativas com erro de cronologia ou de natureza do objeto — azulejo é técnica secular, anterior à Revolução Industrial (elimina C), e é produto importado pronto, não fruto de mão de obra local nem de recursos naturais coloniais (elimina B e E); entre A e D, lembre que a base geométrica do desenho é árabe, não francesa ou apenas holandesa.
- Conexões: patrimônio material e imaterial reconhecido pela Unesco no Brasil; arte mourisca/mudéjar na Península Ibérica; sincretismo cultural na formação histórica do Brasil colonial.
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