Mapa de questões · 1º dia
Questão 78 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
Torna-se importante, portanto, salientar que as pautas econômicas dominantes não se incompatibilizavam com demandas políticas ou por garantia de direitos contra as decisões da própria Justiça do Trabalho. Pelo contrário, muitas greves incluíam várias demandas de natureza distinta, e mesmo em demandas primariamente econômicas, colocava-se muitas vezes a dimensão do enfrentamento político. Em todos esses casos, confirma-se a hipótese de que direitos instituídos ou garantias das convenções coletivas, respaldadas pela Justiça do Trabalho, não significavam conquistas materiais às quais os trabalhadores tivessem acesso líquido e certo. Era preciso muitas vezes recorrer às greves para garantir direitos conquistados.
MATTOS, M. B. Greves, sindicatos e repressão policial no Rio de Janeiro (1954-1964).
Revista Brasileira de História, n. 47, 2004 (adaptado).
De acordo com o texto, um dos problemas com os quais as organizações sindicais de trabalhadores se defrontavam, de 1954 a 1964, era o descompasso entre
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → sindicalismo brasileiro no período democrático-populista (1946-1964); CLT e Justiça do Trabalho; greves como instrumento político
- ⚡ Nível: Médio — o texto entrega as evidências de forma explícita, mas exige que o aluno traduza uma linguagem historiográfica (jurídico-sociológica) em um conceito-síntese preciso
- 🎯 Tema/Habilidade: Relação entre legislação trabalhista e efetivação prática dos direitos no Brasil pós-1945 — competência de leitura e interpretação de texto historiográfico (H6/H7 da matriz de Ciências Humanas)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo o texto, qual descompasso (contradição, distância) as organizações sindicais enfrentavam entre 1954 e 1964?"
- Palavras-chave decisivas: direitos instituídos, não significavam conquistas materiais, recorrer às greves para garantir direitos conquistados
- Armadilha típica: o candidato que não lê com atenção pode se apegar a palavras soltas do texto — "Justiça do Trabalho", "pautas econômicas" — e migrar para alternativas que parecem "econômicas" (como a E, sobre capital nacional × estrangeiro) ou "políticas" (como a D, sobre representação parlamentar), ignorando que o cerne do trecho é o hiato entre o que a lei prometia e o que a realidade entregava
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o texto descreve uma tensão entre a norma jurídica (leis trabalhistas, convenções coletivas, decisões da Justiça do Trabalho) e sua aplicação concreta na vida dos trabalhadores — não um conflito entre classes, regiões ou setores econômicos
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- CLT e Justiça do Trabalho (1943-1946): a Consolidação das Leis do Trabalho criou um arcabouço jurídico avançado para a época, com direitos trabalhistas garantidos "no papel" e tribunais especializados (Justiça do Trabalho) para arbitrar conflitos entre patrões e empregados.
- Descompasso entre norma e prática: ter um direito escrito em lei não significa, automaticamente, ter esse direito respeitado no cotidiano. Empregadores frequentemente descumpriam convenções coletivas e decisões judiciais, obrigando os trabalhadores a pressionar por outros meios.
- Greve como instrumento de efetivação: no período 1954-1964 (governos Café Filho, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart), o número de greves cresceu significativamente. Elas não serviam apenas para conquistar direitos novos, mas principalmente para fazer cumprir direitos já existentes na legislação — daí a expressão do texto "recorrer às greves para garantir direitos conquistados".
- Sindicalismo do período populista: os sindicatos operavam sob forte tutela do Ministério do Trabalho (estrutura corporativista herdada de Vargas), mas ganhavam autonomia crescente e usavam a mobilização de massa como resposta à distância entre a lei e a vivência real do trabalhador.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "direitos instituídos ou garantias das convenções coletivas, respaldadas pela Justiça do Trabalho, não significavam conquistas materiais às quais os trabalhadores tivessem acesso líquido e certo" → a lei existe, o direito está formalmente reconhecido pelo tribunal, mas isso não garante que o trabalhador efetivamente o receba na prática — eis o descompasso entre norma e realidade.
- Evidência 2: "Era preciso muitas vezes recorrer às greves para garantir direitos conquistados" → a greve surge exatamente como a ferramenta para preencher esse vazio entre o que a legislação promete e o que a realidade social entrega; sem pressão coletiva, o direito "de papel" não se converte em direito vivido.
- Síntese: as duas evidências, lidas em conjunto, apontam para um único eixo de contradição: de um lado está a legislação (leis, convenções coletivas, sentenças da Justiça do Trabalho); de outro está a realidade social vivida pelos trabalhadores, que não correspondia automaticamente àquilo que a lei previa. Esse é precisamente o "descompasso" que o comando pede para identificar.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar os dois polos da contradição no texto
O texto de Marcelo Badaró Mattos constrói sua argumentação em torno de dois polos: de um lado, o mundo formal-jurídico (direitos "instituídos", "garantias das convenções coletivas", decisões "respaldadas pela Justiça do Trabalho"); de outro, o mundo concreto-material (o que os trabalhadores efetivamente "tinham acesso líquido e certo"). O autor afirma que esses dois polos não coincidiam — havia um hiato entre eles.
Subpasso 4.2 — Traduzir os polos para os termos da alternativa correta
O polo jurídico-formal corresponde ao termo "legislação": são as leis trabalhistas, as convenções coletivas e as decisões judiciais que, no papel, garantiam direitos aos trabalhadores. O polo concreto-material corresponde ao termo "realidade social": é a vida cotidiana do trabalhador, onde esses direitos muitas vezes não se efetivavam sem luta organizada. A greve funciona, no texto, como a ponte forçada entre esses dois polos — o mecanismo que os trabalhadores usavam para tentar fazer a realidade social se aproximar do que a legislação prometia.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao testar a síntese "legislação × realidade social" contra o texto, ela explica integralmente por que "era preciso muitas vezes recorrer às greves": se a lei já fosse cumprida automaticamente, a mobilização seria desnecessária. A necessidade constante de greve é a prova histórica do descompasso entre o direito formal e sua efetivação prática — confirmando que a alternativa A é a única compatível com a totalidade do trecho.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) legislação e realidade social.
✅ Correta: é exatamente o descompasso descrito pelo autor — direitos existentes na lei e nas convenções coletivas, respaldados pela Justiça do Trabalho, não se traduziam automaticamente em benefícios materiais efetivos para os trabalhadores, exigindo greves para forçar seu cumprimento.
B) profissão e formação técnica.
❌ Incorreta: o texto não trata de qualificação profissional, ensino técnico ou adequação entre formação e mercado de trabalho — esse tema simplesmente não aparece no trecho, que está centrado em direito trabalhista e mobilização grevista.
C) meio rural e cidades industriais.
❌ Incorreta: não há qualquer menção a contraste entre campo e cidade, êxodo rural ou industrialização regional; o texto fala de trabalhadores urbanos organizados sindicalmente e de sua relação com a Justiça do Trabalho, não de uma dicotomia rural-urbana.
D) população e representação parlamentar.
❌ Incorreta: o texto não discute sistema eleitoral, proporcionalidade de cadeiras no Congresso ou déficit de representação política da população — o conflito descrito é entre direito trabalhista formal e sua aplicação prática, não entre eleitores e parlamento.
E) empresariado nacional e capitais estrangeiros.
❌ Incorreta: essa alternativa remete ao debate sobre nacionalismo econômico e dependência do capital estrangeiro (tema caro ao período JK/Jango), mas o texto não opõe empresários nacionais a investidores estrangeiros — a tensão apresentada é entre trabalhadores e o descumprimento de seus direitos legais, independentemente da origem do capital patronal.
🏆 Gabarito: A — o texto descreve, do início ao fim, a distância entre direitos trabalhistas formalmente instituídos (legislação) e sua efetivação concreta na vida dos trabalhadores (realidade social), distância que só era superada por meio de greves.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A capta o núcleo argumentativo do texto — a contradição entre o que a lei garantia e o que a prática social efetivamente entregava aos trabalhadores, resolvida à força por meio de greves.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora o tema do trabalhismo brasileiro (CLT, sindicalismo, período populista de 1945-1964) sob a chave do "direito formal versus direito real" — uma marca estrutural da cidadania regulada no Brasil, conceito clássico da historiografia (Wanderley Guilherme dos Santos).
- Generalização: sempre que um texto de humanas contrastar "o que a lei diz" com "o que acontece na prática", a resposta tende a girar em torno de termos como legislação/norma versus realidade social/efetivação — fique atento a esse padrão em questões de direitos sociais, cidadania e movimentos sociais.
- Dica de eliminação rápida: leia o texto procurando o verbo de ação central (aqui, "recorrer às greves para garantir direitos") e pergunte "garantir o quê, contra o quê?" — isso já elimina alternativas que introduzem temas ausentes do trecho, como rural×urbano (C) ou nacional×estrangeiro (E), que soam plausíveis por familiaridade histórica, mas não têm respaldo textual algum.
- Conexões: cidadania regulada (Wanderley Guilherme dos Santos); populismo trabalhista de Vargas e seus herdeiros políticos; história do movimento sindical brasileiro e o golpe civil-militar de 1964.
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