Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 10ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

Quantos há que os telhados têm vidrosos
E deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receiosos.

Adeus, praia, adeus, ribeira,
De regatões tabaquista,
Que vende gato por lebre
Querendo enganar a vista.

Nenhum modo de desculpa
Tendes, que valer-vos possa:
Que se o cão entra na igreja,
É porque acha aberta a porta.

GUERRA, G. M. In: LIMA, R. T. Abecê de folclore. São Paulo: Martins Fontes, 2003 (fragmento).

Ao organizar as informações, no processo de construção do texto, o autor estabelece sua intenção comunicativa. Nesse poema, Gregório de Matos explora os ditados populares com o objetivo de

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Barroco brasileiro; poesia satírica de Gregório de Matos
  • ⚡ Nível: Médio — exige diferenciar o sentido literal dos ditados populares da intenção crítica que o poeta constrói ao reuni-los
  • 🎯 Tema/Habilidade: Intenção comunicativa do autor e efeito de sentido de recursos estilísticos em texto literário
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Ao reunir esses ditados populares no poema, qual é o objetivo do poeta?"
  • Palavras-chave decisivas: ditados populares, objetivo, intenção comunicativa
  • Armadilha típica: confundir o conteúdo de cada ditado (que muitas vezes soa como "conselho" ou "sabedoria") com a finalidade do poeta ao selecioná-los e organizá-los no poema — o que leva o candidato a marcar C ou D por associação automática com "provérbio = sabedoria/conselho".
  • O que a resposta precisa demonstrar: a capacidade de distinguir o RECURSO empregado (o provérbio, carregado de sabedoria popular) da FINALIDADE do texto (o efeito que esse recurso produz no conjunto do poema).

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Barroco brasileiro: movimento literário do século XVII marcado pelo conflito entre razão e fé, prazer e culpa, luxo e efemeridade; no Brasil colonial, floresce sobretudo na Bahia.
  • Gregório de Matos ("Boca do Inferno"): principal poeta satírico do Barroco brasileiro; parte de sua obra ataca, com ironia mordaz, os vícios e hipocrisias da sociedade baiana — clero, comerciantes, autoridades.
  • Ditado popular como recurso retórico: frase de sabedoria coletiva já validada pelo senso comum; ao empregá-la, o autor empresta a essa sabedoria compartilhada a força de uma verdade inquestionável para reforçar seu julgamento sobre quem critica.
  • Sátira: registro que expõe e ridiculariza vícios humanos com tom irônico e mordaz — diferente da descrição neutra (que apenas relata) e do conselho (que orienta o próprio leitor a se prevenir).

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Quantos há que os telhados têm vidrosos / E deixam de atirar sua pedrada, / De sua mesma telha receiosos." → retoma o ditado "quem tem telhado de vidro não atira pedras no do vizinho", mas denuncia que essas pessoas se calam não por virtude, e sim por medo de serem expostas — crítica à hipocrisia.
  • Evidência 2: "De regatões tabaquista, / Que vende gato por lebre / Querendo enganar a vista." → usa a expressão "vender gato por lebre" para acusar vendedores ambulantes de tabaco de enganar propositalmente os fregueses — crítica à desonestidade comercial.
  • Evidência 3: "Que se o cão entra na igreja, / É porque acha aberta a porta." → aplica o ditado do cão à ideia de que "nenhuma desculpa vale": quem permite a transgressão também é culpado por ela — crítica à conivência e à permissividade.
  • Síntese: as três estrofes repetem o mesmo mecanismo — partir de uma verdade popular aceita por todos para apontar e condenar um vício específico. O fio condutor não é ensinar, descrever ou aconselhar: é criticar comportamentos.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Reconhecer o padrão estrutural do poema

As três estrofes do fragmento seguem o mesmo esquema em paralelo: (1) evocar um ditado popular de domínio público e (2) aplicá-lo a um comportamento humano reconhecível pelo leitor. Essa repetição do mecanismo três vezes seguidas não é acaso: é a construção de uma sequência de acusações, cada uma mirando um alvo diferente — o hipócrita, o vendedor desonesto, o conivente. Reconhecer esse paralelismo é o primeiro passo para entender que o poema tem um projeto unificado, e não uma simples coleção de frases feitas.

Subpasso 4.2 — Determinar a função dos ditados dentro do projeto poético de Gregório de Matos

Gregório de Matos é historicamente reconhecido como o poeta satírico do Barroco brasileiro; sua produção nesse registro tem finalidade declarada de denúncia social e moral, atacando desde autoridades e religiosos até comerciantes e a população em geral. Ao inserir ditados populares — que carregam autoridade e credibilidade coletiva —, ele reforça o efeito de verdade da crítica: o julgamento não soa como opinião pessoal do poeta, e sim como algo que "todo mundo já sabe", o que torna o ataque mais contundente e mais difícil de rebater por quem é criticado. O ditado é, portanto, o meio (a ferramenta retórica); a crítica ao comportamento é o fim (o objetivo comunicativo).

Subpasso 4.3 — Verificação

Testando essa leitura contra o texto: em nenhum momento o eu lírico elogia, ensina algo de modo neutro ou aconselha o leitor a agir com cautela para o próprio bem. Ao contrário, o tom é de acusação direta e categórica — "nenhum modo de desculpa tendes, que valer-vos possa" —, dirigida a comportamentos já praticados por terceiros ("regatões", "quantos há que..."). Esse tom acusatório e mordaz, sem abertura para defesa, é a marca registrada da sátira de Gregório de Matos e confirma que a intenção comunicativa do poema é criticar comportamentos.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) enumerar atitudes.

❌ Incorreta: "enumerar" sugere uma listagem neutra, sem juízo de valor, como um catálogo de exemplos. O poema até apresenta atitudes em sequência (a do hipócrita, a do vendedor, a do conivente), mas cada uma vem carregada de julgamento moral explícito; não há neutralidade descritiva, e sim condenação.

B) descrever costumes.

❌ Incorreta: descrever implica apenas relatar como as coisas são, sem posicionamento crítico — é o registro costumbrista, que documenta hábitos sem julgá-los. Gregório não se limita a retratar a hipocrisia, a enganação comercial e a conivência: ele as julga e condena por meio do tom irônico e acusatório dos ditados.

C) demonstrar sabedoria.

❌ Incorreta: esta é a armadilha central da questão. Os ditados populares carregam, em si, sabedoria coletiva — mas essa sabedoria é o meio retórico usado pelo poeta, não o fim do poema. O objetivo não é ensinar uma lição de vida ao leitor, e sim usar essa sabedoria já compartilhada como arma para expor e condenar comportamentos alheios.

D) recomendar precaução.

❌ Incorreta: recomendar precaução implicaria um tom de conselho preventivo, voltado ao próprio leitor ("cuidado para você não fazer isso"). O poema, porém, fala de comportamentos já praticados por terceiros, em tom de denúncia retrospectiva e acusatória — "nenhum modo de desculpa tendes" —, não de aviso preventivo.

E) criticar comportamentos.

✅ Correta: as três estrofes, cada uma ancorada em um ditado popular diferente, convergem para o mesmo efeito — expor e condenar vícios sociais: hipocrisia ("telhado de vidro"), desonestidade ("gato por lebre") e conivência ("cão na igreja"). Esse é o projeto poético típico de Gregório de Matos, o "Boca do Inferno", cuja sátira baiana tinha exatamente essa finalidade: criticar, com ironia mordaz, os comportamentos de sua sociedade.

🏆 Gabarito: E — o poema usa três ditados populares distintos como instrumentos retóricos para denunciar hipocrisia, desonestidade e conivência, revelando a intenção satírica e crítica típica de Gregório de Matos.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que capta o efeito unificador das três estrofes — usar sabedoria popular como instrumento de acusação, e não de ensinamento, descrição neutra ou conselho preventivo.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente pede a "intenção comunicativa" ou o "efeito de sentido" por trás de escolhas do autor (metáforas, ditados, ironias, escolhas lexicais); o candidato precisa sempre separar o RECURSO usado da FINALIDADE para a qual ele é empregado.
  • Generalização: quando o texto for de um autor conhecido por sátira e crítica social, desconfie de alternativas "neutras" (descrever, enumerar) e priorize alternativas que impliquem julgamento (criticar, denunciar, ironizar).
  • Dica de eliminação rápida: procure marcas de julgamento explícito no texto (acusações diretas, tom irônico, ausência de espaço para desculpa). Havendo essas marcas — como em "nenhum modo de desculpa tendes" —, elimine de imediato as alternativas neutras (enumerar, descrever) e as de conselho preventivo (recomendar), restando a crítica.
  • Conexões: Barroco brasileiro; cultismo e conceptismo; poesia satírica; funções da linguagem aplicadas à argumentação.

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.