Mapa de questões · 1º dia
Questão 76 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
Apesar da grande distância geográfica em relação ao território japonês, os otakus (jovens aficionados em cultura pop japonesa) brasileiros vinculam-se socialmente hoje em eventos e a partir de uma circulação intensa de mangás, animes, games, fanzines, j-music (música pop japonesa). O consumo em escala mundial dos produtos da cultura pop – enfaticamente midiática – produzida no Japão constitui um momento histórico em que se aponta a ambivalência sobre o que significa a produção midiática e cultural quando percebida no próprio país e como a percepção de tal produção se transforma radicalmente nos olhares de consumidores estrangeiros.
GUSHIKEN, Y.; HIRATA, T. Processos de consumo cultural e midiático: imagens dos otakus, do Japão ao mundo. Intercom – RBCC, n. 2, jul.-dez. 2014 (adaptado).
Considerando a relação entre meios de comunicação e formação de identidades tal como é abordada no texto, a noção que explica este fenômeno na atualidade é a de
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → identidades juvenis, culturas de consumo e teoria do neotribalismo
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer o conceito sociológico de "tribo urbana" por trás de uma situação concreta (otakus), sem que o termo apareça literalmente no texto
- 🎯 Tema/Habilidade: Meios de comunicação e formação de identidades juvenis contemporâneas (Competência de Área 6 do ENEM — Ciências Humanas)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual noção sociológica explica por que jovens se agrupam e constroem identidade em torno do consumo de uma cultura midiática global (no caso, a cultura pop japonesa)?"
- Palavras-chave decisivas: vinculam-se socialmente, eventos, circulação intensa de mangás/animes/games/j-music
- Armadilha típica: confundir consumo cultural intenso e apaixonado com "alienação" (B) ou "passividade" (D) — como se gostar muito de algo, de forma coletiva e ritualizada, fosse sinônimo de alienação ou de ausência de agência
- O que a resposta precisa demonstrar: que o fenômeno descrito é um tipo específico de sociabilidade juvenil contemporânea — baseada em afinidade eletiva e consumo cultural compartilhado, e não em critérios tradicionais como classe, religião ou nacionalidade
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Neotribalismo / tribos urbanas (Michel Maffesoli): teoria sociológica segundo a qual, na sociedade contemporânea, indivíduos — sobretudo jovens — se reagrupam em "tribos" temporárias e afetivas, unidas não por laços de sangue, território ou instituição formal, mas por gostos, estéticas e práticas de consumo compartilhadas (música, moda, games, esportes de nicho).
- Identidade juvenil pós-tradicional: na modernidade tardia, identidades deixam de ser herdadas (nação, religião, classe) e passam a ser construídas ativamente por escolha e adesão a estilos de vida — o que Maffesoli chama de "identificação" em vez de "identidade fixa".
- Globalização cultural e consumo midiático: fluxos culturais (mangá, anime, j-music) atravessam fronteiras geográficas e são ressignificados localmente; o consumidor não é passivo, mas participa ativamente da cena (cosplay, fanzines, eventos, produção amadora).
- Sociabilidade por afinidade eletiva: o vínculo social do otaku brasileiro não decorre de proximidade física com o Japão, mas de uma comunidade de gosto — típica das tribos urbanas contemporâneas.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "vinculam-se socialmente hoje em eventos e a partir de uma circulação intensa de mangás, animes, games, fanzines, j-music" → revela que o laço social não é territorial nem institucional, mas construído em torno de práticas de consumo cultural compartilhadas — a marca central do neotribalismo.
- Evidência 2: "Apesar da grande distância geográfica em relação ao território japonês" → reforça que o pertencimento não depende de nacionalidade ou proximidade física; é um vínculo simbólico e afetivo, característico de tribos urbanas globais e não de identidades nacionais tradicionais.
- Evidência 3: "consumo em escala mundial dos produtos da cultura pop... ambivalência sobre o que significa a produção midiática... quando percebida no próprio país" e "nos olhares de consumidores estrangeiros" → mostra que o mesmo produto cultural ganha sentidos distintos conforme o grupo que o consome e se identifica com ele — ou seja, cada "tribo" ressignifica o material cultural à sua maneira, criando identidade própria.
- Síntese: o texto descreve jovens brasileiros que constroem coesão social e identidade coletiva a partir da adesão ativa a um universo cultural específico (a cultura pop japonesa), reunindo-se em eventos e redes de circulação de conteúdo — exatamente o mecanismo que a Sociologia contemporânea nomeia como tribalismo/neotribalismo das culturas juvenis.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno social descrito
O texto apresenta os otakus brasileiros como um grupo que se organiza socialmente não por proximidade geográfica ou vínculo institucional, mas por afinidade a um conjunto de produtos midiáticos (mangás, animes, games, j-music). Esse tipo de agrupamento — voluntário, fluido, baseado em gosto e estética compartilhados, reforçado por encontros presenciais (eventos, convenções) — corresponde à definição clássica de "tribo urbana" na Sociologia contemporânea, formulada por Michel Maffesoli em "O Tempo das Tribos" (1988).
Subpasso 4.2 — Conectar o conceito teórico ao recorte etário do enunciado
O enunciado enfatiza que se trata de "jovens aficionados" — não de otakus em geral, mas especificamente de uma juventude que usa o consumo midiático como ferramenta de construção identitária. Isso direciona a resposta para "tribalismo das culturas juvenis", e não apenas para um conceito genérico de globalização cultural: o fenômeno central não é só a circulação do produto japonês pelo mundo, mas o modo como jovens se organizam socialmente em torno dele, formando uma comunidade com códigos, rituais (cosplay, convenções) e linguagem próprios.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando a síntese do Passo 3 com as cinco alternativas, apenas a noção de "tribalismo das culturas juvenis" descreve corretamente um agrupamento social voluntário, baseado em afinidade de consumo cultural e reforçado por rituais coletivos (eventos), sem hierarquia, alienação, passividade ou perda de referências nacionais envolvidas. A resposta converge para a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) tribalismo das culturas juvenis.
✅ Correta: descreve com precisão o mecanismo de sociabilidade dos otakus — agrupamento por afinidade eletiva e consumo cultural compartilhado, reforçado por encontros presenciais (eventos), formando uma "tribo urbana" global que independe da distância geográfica do Japão.
B) alienação das novas gerações.
❌ Incorreta: alienação sociológica implicaria ausência de consciência crítica ou de agência sobre a própria prática cultural. O texto mostra o oposto — jovens que produzem fanzines, organizam eventos e participam ativamente da circulação cultural, ou seja, sujeitos engajados e não meros receptores passivos de conteúdo.
C) hierarquização das matrizes culturais.
❌ Incorreta: o texto não estabelece nenhuma relação de superioridade/inferioridade entre a cultura japonesa e a brasileira. Pelo contrário, descreve uma "ambivalência" de sentidos entre o que a produção midiática significa no Japão e como é ressignificada por consumidores estrangeiros — uma relação horizontal de ressignificação, não uma hierarquia entre culturas.
D) passividade das relações de consumo.
❌ Incorreta: contraria diretamente as evidências do texto. O verbo "vincular-se socialmente" e a menção a "eventos" indicam participação ativa — os otakus não apenas consomem, mas se organizam coletivamente, produzem conteúdo amador e constroem sociabilidade em torno do consumo, o oposto de passividade.
E) deterioração das referências nacionais.
❌ Incorreta: o consumo da cultura pop japonesa por jovens brasileiros não implica abandono ou enfraquecimento da identidade nacional brasileira; trata-se de uma identidade adicional e específica (a de "tribo otaku"), que coexiste com outras pertenças identitárias do indivíduo, sem substituí-las ou corroê-las.
🏆 Gabarito: A — o texto descreve um agrupamento juvenil voluntário, ativo e baseado em afinidade de consumo cultural midiático, reforçado por encontros presenciais — a definição precisa de tribalismo das culturas juvenis.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A capta o duplo elemento do texto — vínculo social ativo (eventos, produção de fanzines) e identidade construída por afinidade cultural (não por território, hierarquia ou herança nacional) — os dois pilares do conceito de tribalismo juvenil.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra, em Sociologia, questões sobre culturas juvenis, subculturas e "tribos urbanas" (skatistas, roqueiros, gamers, otakus, torcidas organizadas) como exemplos empíricos do conceito de neotribalismo de Maffesoli, quase sempre sem citar o autor nominalmente.
- Generalização: sempre que a questão descrever jovens que se reúnem, criam rituais e linguagem próprios em torno de um gosto ou consumo cultural compartilhado (música, games, moda, esporte), a resposta apontará para tribalismo/neotribalismo das culturas juvenis — não para alienação, passividade ou hierarquia cultural.
- Dica de eliminação rápida: procure verbos de ação coletiva no texto ("vincular-se", "organizar eventos", "produzir fanzines"); se há agência e coesão grupal, elimine imediatamente "alienação" e "passividade"; se não há comparação de valor entre culturas, elimine "hierarquização"; se a identidade nacional não é mencionada como enfraquecida, elimine "deterioração".
- Conexões: Michel Maffesoli e o conceito de "tribos urbanas"; globalização cultural e hibridismo (Néstor García Canclini); consumo cultural juvenil e identidade na modernidade líquida (Zygmunt Bauman).
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