Mapa de questões · 1º dia
Questão 19 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
“Escrever não é uma questão apenas de satisfação pessoal”, disse o filósofo e educador pernambucano Paulo Freire, na abertura de suas Cartas a Cristina, revelando a importância do hábito ritualizado da escrita para o desenvolvimento de suas ideias, para a concretização de sua missão e disseminação de seus pontos de vista. Freire destaca especial importância à escrita pelo desejo de “convencer outras pessoas”, de transmitir seus pensamentos e de engajar aqueles que o leem na realização de seus sonhos.
KNAPP, L. Linha fina. Comunicação Empresarial, n. 88, out. 2013.
Segundo o fragmento, para Paulo Freire, os textos devem exercer, em alguma medida, a função conativa, porque a atividade de escrita, notadamente, possibilita
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Funções da Linguagem (Roman Jakobson); função conativa/apelativa
- ⚡ Nível: Fácil — o próprio fragmento entrega, em linguagem direta, os verbos "convencer" e "engajar", que apontam sem ambiguidade para a função conativa
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento das funções da linguagem a partir dos elementos do processo comunicativo (Competência de Área 1 — Linguagens)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Se o texto de Freire tem função conativa, qual é o efeito que essa função produz por meio da escrita?"
- Palavras-chave decisivas: convencer outras pessoas, engajar aqueles que o leem, realização de seus sonhos
- Armadilha típica: confundir a função conativa com a emotiva, puxado pela frase de abertura "não é uma questão apenas de satisfação pessoal" — o candidato desatento associa "escrita pessoal" a "sentimentos do autor" e marca a alternativa B.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a função conativa tem o RECEPTOR como alvo e busca provocar uma resposta comportamental nele — não informar, não emocionar, não chamar atenção e não falar da própria língua.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Funções da linguagem (Jakobson): todo ato comunicativo envolve seis elementos — emissor, receptor, mensagem, código, canal e contexto —, e cada um deles pode se tornar o foco predominante do texto, gerando uma função da linguagem correspondente.
- Função conativa (ou apelativa): centra-se no receptor; a linguagem tenta persuadir, orientar ou mobilizar o interlocutor para uma atitude ou ação. Suas marcas típicas são verbos no imperativo, vocativos, pronomes de 2ª pessoa e verbos de influência como "convencer", "persuadir" e "engajar". É a função dominante em propagandas, discursos de campanha e textos motivacionais.
- As demais funções, por contraste: emotiva (foco no emissor, exprime sentimentos), referencial (foco no contexto, informa fatos objetivos), fática (foco no canal, testa ou mantém o contato), metalinguística (foco no código, a língua explica a própria língua) e poética (foco na mensagem, valoriza a forma/estética).
- Paulo Freire e a escrita como ato político: para Freire, escrever nunca é neutro — é um instrumento de diálogo e transformação social, coerente com sua pedagogia libertadora. O fragmento reforça isso ao dizer que escrever "não é uma questão apenas de satisfação pessoal", descartando de saída a leitura autocentrada (emissor) em favor de uma escrita voltada ao outro (receptor).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "desejo de 'convencer outras pessoas'" → o verbo convencer tem como alvo direto o interlocutor; convencer é agir sobre a mente e a conduta de outrem, marca lexical clássica da função conativa.
- Evidência 2: "engajar aqueles que o leem na realização de seus sonhos" → engajar é verbo de mobilização: o leitor não é mero receptor passivo de dados, é convocado a se movimentar, a agir para realizar algo.
- Evidência 3 (contraponto): "Escrever não é uma questão apenas de satisfação pessoal" → Freire nega explicitamente que o centro da escrita seja o próprio autor (o que afastaria a função emotiva), reforçando que o foco está em quem lê.
- Síntese: as três evidências caminham na mesma direção — o texto não fala de emoções do autor, não versa sobre a própria língua, não busca apenas prender a atenção nem apenas informar; ele descreve uma escrita que quer mudar o comportamento de quem lê. Essa é exatamente a definição operacional da função conativa aplicada ao caso.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Localizar o elemento da comunicação em foco
No esquema de Jakobson, cada função corresponde a um elemento do circuito comunicativo. Quando a linguagem se organiza para atuar sobre o comportamento do RECEPTOR — não para descrevê-lo, nem para expressar o emissor —, o elemento em foco é o receptor, e a função correspondente é a conativa (do latim conatus, "esforço", "tendência a agir").
Subpasso 4.2 — Aplicar o conceito ao fragmento
O enunciado já entrega a premissa: "os textos devem exercer [...] a função conativa". A pergunta não pede para identificar a função (isso já foi dado), e sim o que essa função POSSIBILITA na escrita de Freire. Reunindo "convencer" (persuasão) com "engajar... na realização de seus sonhos" (mobilização para a ação), o efeito descrito é: o texto atua sobre o leitor de modo a levá-lo a agir — seja aderindo a uma ideia, seja concretamente perseguindo seus objetivos, movido pela leitura.
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando a pergunta "o que a escrita, marcada pela função conativa, possibilita?" contra cada alternativa, apenas uma sentença descreve uma AÇÃO do leitor decorrente do apelo do texto — as demais descrevem efeitos ligados a outras funções (emissor, canal, código, contexto). Isso confirma que a resposta é a alternativa que fala em "levar o leitor a realizar ações", validando a convergência com o gabarito oficial.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) levar o leitor a realizar ações.
✅ Correta: é a tradução exata do par "convencer" + "engajar... na realização de seus sonhos". A função conativa existe justamente para mover o receptor à ação, e é isso que a escrita de Freire, segundo o fragmento, possibilita.
B) expressar sentimentos do autor.
❌ Incorreta: descreve a função EMOTIVA (ou expressiva), centrada no emissor. O próprio fragmento descarta essa leitura ao afirmar que escrever "não é uma questão apenas de satisfação pessoal" — ou seja, o texto explicitamente desloca o foco do autor para o leitor.
C) despertar a atenção do leitor.
❌ Incorreta: corresponde à função FÁTICA, ligada ao canal de comunicação (testar, iniciar ou manter o contato — como em "alô", "está me ouvindo?"). Despertar atenção é diferente de provocar ação; o fragmento vai além da atenção, fala em convencimento e engajamento efetivos.
D) falar da própria linguagem.
❌ Incorreta: define a função METALINGUÍSTICA, focada no código (quando a linguagem explica ou comenta a si mesma, como em um dicionário ou uma aula de gramática). Não há no fragmento nenhuma reflexão sobre a língua enquanto sistema.
E) repassar informações.
❌ Incorreta: caracteriza a função REFERENCIAL (ou denotativa), centrada no contexto/nos fatos objetivos. Embora o texto-base traga dados biográficos sobre Freire, a pergunta é sobre o que a função CONATIVA especificamente possibilita — e informar não é persuadir nem mobilizar.
🏆 Gabarito: A — a escrita de Paulo Freire, tal como descrita no fragmento, usa a função conativa para convencer e engajar o leitor, ou seja, para levá-lo a realizar ações.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que descreve um efeito sobre o COMPORTAMENTO do receptor — exatamente o que os verbos "convencer" e "engajar" comunicam no fragmento.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra funções da linguagem quase sempre embutidas em textos reais (propagandas, entrevistas, depoimentos, crônicas), pedindo que o candidato identifique a função predominante ou o efeito de sentido que ela produz — raramente cobra a teoria de forma isolada e decorada.
- Generalização: sempre que o texto trouxer verbos de persuasão ou mobilização ("convencer", "incentivar", "engajar", "conclamar", "convocar") dirigidos a um "você"/leitor implícito, a função em jogo é a conativa, e a resposta certa tende a mencionar ação ou mudança de comportamento do receptor.
- Dica de eliminação rápida: localize o verbo-chave do enunciado e pergunte "para quem essa palavra aponta?". Se aponta para o emissor, é emotiva (elimine alternativas sobre sentimentos); se aponta para o código, é metalinguística (elimine alternativas sobre "a própria língua"); se aponta para o canal, é fática (elimine alternativas sobre "atenção/contato"); o que sobrar entre referencial e conativa se resolve perguntando se o texto apenas informa ou se ele convoca à ação.
- Conexões: Roman Jakobson e as seis funções da linguagem; Paulo Freire e a pedagogia dialógica/libertadora (Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia); linguagem publicitária e textos de apelo, tema recorrente em outras edições do ENEM.
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