Mapa de questões · 1º dia
Questão 17 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
E fui mostrar ao ilustre hóspede [o governador do Estado] a serraria, o descaroçador e o estábulo. Expliquei em resumo a prensa, o dínamo, as serras e o banheiro carrapaticida. De repente supus que a escola poderia trazer a benevolência do governador para certos favores que eu tencionava solicitar.
— Pois sim senhor. Quando V. Exª. vier aqui outra vez, encontrará essa gente aprendendo cartilha.
RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1991.
O fragmento do romance de Graciliano Ramos dialoga com o contexto da Primeira República no Brasil, ao focalizar o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura Brasileira (Graciliano Ramos, romance de 30) → articulada com História do Brasil (Primeira República, coronelismo)
- ⚡ Nível: Difícil — exige traduzir uma cena narrativa concreta em um conceito histórico-sociológico abstrato (coronelismo) sem que o texto use esse termo
- 🎯 Tema/Habilidade: Literatura como registro do contexto histórico-social — relacionar texto literário ao momento de sua produção (Competência de Área 5 de Linguagens)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que aspecto da Primeira República brasileira o trecho do romance de Graciliano Ramos retrata?"
- Palavras-chave decisivas: ilustre hóspede [o governador do Estado], benevolência do governador, favores que eu tencionava solicitar
- Armadilha típica: ler a palavra "escola" e concluir apressadamente que o texto celebra investimento em educação pública (alternativa D), sem perceber que ela é citada apenas como instrumento de barganha pessoal
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entende a cena como uma transação de interesses entre um proprietário rural e uma autoridade política — a estrutura de poder típica da Primeira República
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Primeira República (1889-1930): também chamada República Velha; período de domínio das oligarquias estaduais, sustentado pela aliança entre poder econômico rural e poder político institucional, e não por uma cidadania ampla ou por burocracia estatal autônoma.
- Política dos Governadores (1898, Campos Sales): acordo pelo qual o presidente reconhecia o domínio de cada oligarquia sobre seu estado em troca de apoio no Congresso — formalizava, no plano nacional, a lógica de troca de favores que a cena do texto reproduz em escala local.
- Coronelismo: sistema de mandonismo local em que grandes proprietários rurais ("coronéis") controlavam o voto de seus dependentes e trocavam esse controle eleitoral por benefícios do poder público — cargos, obras, verbas, reconhecimento. É a chave interpretativa de toda a cena.
- Graciliano Ramos e São Bernardo (1934): obra-prima do regionalismo nordestino (2ª geração modernista), narrada em 1ª pessoa por Paulo Honório, fazendeiro que ascende por meios violentos e calculistas. O romance expõe como a racionalidade capitalista do narrador (produzir, modernizar, lucrar) convive, sem contradição, com práticas políticas arcaicas de favorecimento.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "fui mostrar ao ilustre hóspede [o governador do Estado] a serraria, o descaroçador e o estábulo" → Paulo Honório exibe seu aparato produtivo à maior autoridade política do estado, numa visita guiada que aproxima fisicamente riqueza rural e poder político.
- Evidência 2: "supus que a escola poderia trazer a benevolência do governador para certos favores que eu tencionava solicitar" → o verbo "supus" denuncia cálculo consciente: a escola não nasce de compromisso educacional, mas de expectativa de retorno político.
- Evidência 3: "Quando V. Exª. vier aqui outra vez, encontrará essa gente aprendendo cartilha" → resposta protocolar e paternalista do governador (note o distanciamento em "essa gente"), sem qualquer promessa de investimento público — confirma que a educação, ali, é cenário, não política de Estado.
- Síntese: as três evidências apontam para o mesmo fenômeno — fazendeiro e governador selam, na cena, um pacto informal de interesses recíprocos, retrato literário exato da aliança entre elite agrária e dirigentes políticos que sustentou a Primeira República.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear os sujeitos e a relação de poder entre eles
De um lado, Paulo Honório: narrador-protagonista, proprietário da fazenda São Bernardo, representante da elite agrária que enriqueceu modernizando a produção rural (serraria, descaroçador de algodão, dínamo, prensa, banheiro carrapaticida — tecnologia de ponta para o campo da época). De outro, "o governador do Estado": autoridade máxima do poder político estadual, explicitado entre colchetes para eliminar qualquer ambiguidade. A cena os coloca lado a lado numa visita guiada — já essa disposição espacial sinaliza proximidade e trânsito livre entre os dois polos de poder.
Subpasso 4.2 — Identificar a lógica de troca que estrutura a cena
O trecho central da decodificação é: "supus que a escola poderia trazer a benevolência do governador para certos favores que eu tencionava solicitar." Aqui está a equação completa do coronelismo: benfeitoria oferecida (a escola) → benevolência esperada (reconhecimento do governador) → retorno concreto visado (favores ainda não especificados, mas certamente ligados aos negócios de Paulo Honório). Não há, em nenhum momento, menção a um projeto pedagógico, a currículo, a professores ou a continuidade — a escola importa como capital político, não como direito social.
Subpasso 4.3 — Verificação pela fala do governador e confronto com as alternativas
A resposta do governador é reveladora por sua vacuidade: uma frase de cortesia, sem compromisso de verba, sem menção a política pública, apenas a promessa de "encontrar essa gente aprendendo cartilha" numa próxima visita — um gesto que valida o fazendeiro sem custar nada ao Estado. Isso descarta de imediato a leitura de que o texto celebraria "fortalecimento de políticas públicas educacionais" (D): o que se vê é o oposto, a educação instrumentalizada como moeda de barganha privada. Ao mesmo tempo, a cena não mostra ruptura, declínio ou superação de nada — mostra o sistema de trocas em pleno funcionamento, ao vivo, na visita. A única alternativa que descreve com exatidão essa transação de interesses entre proprietário rural e autoridade política é a (E).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) derrocada de práticas clientelistas.
❌ Incorreta: "derrocada" indica queda, superação. O trecho não narra o fim do clientelismo — narra exatamente sua prática em curso, com Paulo Honório construindo ativamente uma relação de favores com o governador.
B) declínio do antigo atraso socioeconômico.
❌ Incorreta: há modernização técnica visível (máquinas, prensa, dínamo), mas ela não corresponde a um declínio da estrutura política arcaica. Pelo contrário, a nova infraestrutura produtiva coexiste e até financia a velha lógica de barganha com o poder público — modernização econômica sem modernização política.
C) liberalismo desapartado de favores do Estado.
❌ Incorreta: é o inverso exato da cena. "Desapartado de favores do Estado" sugeriria autonomia e autossuficiência; o texto mostra justamente o oposto — Paulo Honório busca, de forma deliberada e estratégica, os favores do governador.
D) fortalecimento de políticas públicas educacionais.
❌ Incorreta: a escola é citada como instrumento particular de conquista política, não como parte de um projeto de Estado para universalizar educação. A fala vazia e protocolar do governador reforça esse caráter simbólico, sem qualquer compromisso de investimento real.
E) aliança entre a elite agrária e os dirigentes políticos.
✅ Correta: o encontro entre o fazendeiro (elite agrária) e o governador (dirigente político), mediado pela expectativa de troca de favores, é a tradução literária precisa do coronelismo — base de sustentação política da Primeira República brasileira.
🏆 Gabarito: E — o fragmento de São Bernardo dramatiza, na relação entre Paulo Honório e o governador, a aliança de interesses entre proprietários rurais e autoridades políticas que caracterizou a Primeira República.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E nomeia com precisão o fenômeno textual — uma troca de favores (benfeitoria por benevolência política) entre um representante da elite agrária e um dirigente político, o núcleo exato do coronelismo.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a romances regionalistas — sobretudo Graciliano Ramos, em São Bernardo e Vidas Secas — para exigir que o candidato leia a literatura como documento histórico e social, relacionando cena ficcional a processos reais (coronelismo, seca, êxodo rural, latifúndio, mandonismo local).
- Generalização: em questões desse tipo, procure sempre o verbo ou a intenção por trás da ação narrada (aqui, "supus... para certos favores") — é nele que se revela o real objetivo social do personagem, não na aparência superficial do gesto (a escola, a "boa ação").
- Dica de eliminação rápida: desconfie de alternativas com palavras de ruptura ou mudança ("derrocada", "declínio", "fortalecimento") quando o trecho descreve uma cena de troca de favores em pleno funcionamento — costumam inverter o sentido do texto. Elimine também qualquer alternativa que trate a "escola" como fim público genuíno, quando o texto a apresenta claramente como meio.
- Conexões: Vidas Secas (Graciliano Ramos) e o êxodo rural nordestino; política do café com leite e voto de cabresto; Revolução de 1930 como marco do fim da Primeira República.
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