Mapa de questões · 1º dia
Questão 14 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
O tradicional ornato para cabelos, a tiara ou diadema, já foi uma exclusividade feminina. Na origem, tanto “tiara” quanto “diadema” eram palavras de bom berço. “Tiara” nomeava o adorno que era o signo de poder entre os poderosos da Pérsia antiga e povos como os frísios, os bizantinos e os etíopes. A palavra foi incorporada do Oriente pela Grécia e chegou até nós por via latina, para quem queria referir-se à mitra usada pelos persas. Diadema era a faixa ou tira de linho fino colocado na cabeça pelos antigos latinos, herança do derivado grego para diádo (atar em volta, segundo o Houaiss). No Brasil, a forma de arco ou de laço das tiaras e alguns usos específicos (o nordestino “gigolete” faz alusão ao ornato usado por cafetinas, versões femininas do “gigolô”) produziram novos sinônimos regionais do objeto.
Os sinônimos da tiara. Língua Portuguesa, n. 23, 2007 (adaptado).
No texto, relata-se que o nome de um enfeite para cabelo assumiu diferentes denominações ao longo da história. Essa variação justifica-se pelo(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Sociolinguística; variação lexical; formação de sinônimos regionais
- ⚡ Nível: Médio — a resposta certa exige separar a causa específica que o texto aponta (uso social) das informações históricas e religiosas que aparecem no primeiro parágrafo apenas como pano de fundo etimológico
- 🎯 Tema/Habilidade: Variação linguística e lexical — reconhecer, em um texto expositivo, o mecanismo social responsável pela criação de sinônimos regionais
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que explica, segundo o texto, o surgimento de diferentes nomes (sinônimos) para o mesmo enfeite de cabelo?"
- Palavras-chave decisivas: variação, denominações, justifica-se
- Armadilha típica: transportar para a resposta o conteúdo histórico e religioso do primeiro parágrafo (Pérsia antiga, mitra, realeza) — que explica a origem das palavras "tiara" e "diadema", mas não é a causa da variação regional que o comando pergunta.
- O que a resposta precisa demonstrar: localizar, no próprio texto, o trecho que funciona como explicação causal para o surgimento dos sinônimos — não uma dedução externa ao texto.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Variação lexical: fenômeno pelo qual um mesmo referente (objeto, ideia) recebe nomes diferentes conforme a região, a época, o grupo social ou o contexto de uso — é um dos pilares da sociolinguística cobrada no ENEM.
- Sociolinguística: ramo da linguística que estuda como fatores sociais (profissão, classe, comunidade, região) interferem na formação e no uso das palavras.
- Denominação motivada pelo uso: quando o nome de um objeto nasce de uma associação com quem o utiliza (e não com sua forma, material ou origem) — é exatamente o que ocorre com "gigolete", cunhado por analogia com "gigolô" para nomear o adorno usado por cafetinas.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "No Brasil, a forma de arco ou de laço das tiaras e alguns usos específicos [...] produziram novos sinônimos regionais do objeto." → o próprio texto aponta "usos específicos" como gerador direto dos sinônimos regionais, com o verbo "produziram" marcando relação de causa e efeito.
- Evidência 2: "o nordestino 'gigolete' faz alusão ao ornato usado por cafetinas, versões femininas do 'gigolô'" → o nome "gigolete" não vem da forma do objeto nem de sua origem histórica, mas do grupo social (cafetinas) que o usa, numa analogia direta com a palavra que designa o parceiro delas.
- Síntese: o texto oferece um exemplo concreto e verificável — "gigolete" — que comprova que a variação de nomes se explica pela associação do objeto ao grupo social que dele faz uso, e não por fatores como tempo de permanência da palavra, motivação religiosa ou afastamento de sentido.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Separar os dois fenômenos do texto
O texto trata de dois movimentos distintos que não podem ser confundidos. O primeiro parágrafo narra a origem histórica das palavras "tiara" e "diadema" — de reis persas, gregos, latinos, com direito a menção à mitra e a povos antigos (frísios, bizantinos, etíopes). Esse trecho é etimológico: explica de onde vêm as palavras originais, não por que elas variam hoje. O segundo bloco, no entanto, trata da variação regional contemporânea no Brasil, que é justamente o que o comando pergunta.
Subpasso 4.2 — Isolar a frase que responde ao comando
A pergunta "essa variação justifica-se pelo(a)..." remete diretamente à frase final do texto, que fecha o raciocínio: os "usos específicos" do objeto "produziram novos sinônimos regionais". Em seguida, o texto ilustra esse mecanismo com um único exemplo — "gigolete" — para não deixar dúvida sobre o que significa "uso específico": trata-se de o objeto ser utilizado por um determinado grupo de pessoas (as cafetinas), o que gera, por analogia, um nome novo.
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando a alternativa E ("utilização do objeto por um grupo social") contra a Evidência 2: cafetinas (grupo social específico) usam o ornato → o nome do objeto passa a ser "gigolete", por analogia com "gigolô". A correspondência é direta e literal. Nenhuma outra alternativa encontra no texto um trecho que a sustente com o mesmo grau de precisão — o que confirma que E é a única resposta compatível com o que foi lido.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) distanciamento de sentidos mais antigos.
❌ Incorreta: o texto não descreve uma palavra que se afasta de seu sentido original. Pelo contrário, todos os sinônimos citados (tiara, diadema, gigolete) mantêm o mesmo sentido básico — "enfeite de cabeça" —, apenas com nomes diferentes. Não há argumento de perda ou afastamento semântico sustentando a variação.
B) registro de fatos históricos ocorridos em uma dada época.
❌ Incorreta: essa alternativa explora o conteúdo histórico do primeiro parágrafo (Pérsia antiga, gregos, latinos) como se fosse a causa da variação regional. Mas esses dados explicam a origem etimológica de "tiara" e "diadema", não o surgimento de "gigolete" — não há, no trecho que resolve a questão, menção a um fato histórico datado como causa do sinônimo.
C) associação a questões religiosas específicas de uma sociedade.
❌ Incorreta: a referência religiosa (a mitra usada pelos persas, por exemplo) também pertence ao contexto de origem das palavras "tiara" e "diadema", citada de passagem no primeiro parágrafo. É uma armadilha que reaproveita informação verdadeira do texto, mas fora do trecho que efetivamente justifica a variação perguntada no comando.
D) tempo de uso em uma comunidade linguística.
❌ Incorreta: o texto não atribui a variação à duração ou à permanência do uso da palavra ao longo do tempo dentro de uma comunidade. O foco do trecho final está em quem usa o objeto (grupo social), não em há quanto tempo a palavra circula.
E) utilização do objeto por um grupo social.
✅ Correta: o texto afirma explicitamente que "usos específicos" produziram sinônimos regionais, exemplificando com "gigolete" — palavra criada por associação ao grupo social (cafetinas) que utiliza o ornato. É a única alternativa com respaldo textual direto, literal e específico.
🏆 Gabarito: E — a variação de denominações do enfeite de cabelo se justifica pela utilização do objeto por um grupo social específico, como evidencia o exemplo de "gigolete", sinônimo regional motivado pelo uso do ornato por cafetinas.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E encontra respaldo direto no texto — o exemplo de "gigolete" comprova que o nome do objeto muda conforme o grupo social que o utiliza, não conforme o tempo, a religião ou uma suposta perda de sentido.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra variação linguística ligando a causa da variação a um fator sociolinguístico concreto (quem fala, quem usa, em que contexto) — quase sempre pedindo que o candidato identifique esse fator dentro de um exemplo dado no próprio texto, e não que ele o deduza de conhecimento externo.
- Generalização: quando um texto expositivo traz um EXEMPLO concreto associando um nome a um grupo de pessoas (profissão, classe social, comunidade), a resposta sobre "causa da variação" tende a ser esse fator social — a menos que o texto afirme explicitamente outra causa (tempo, religião, região geográfica pura).
- Dica de eliminação rápida: desconfie de alternativas que retomam elementos "genéricos" do início do texto (história antiga, religião) sem relação direta com o exemplo dado no fechamento — em textos expositivos do ENEM, o exemplo final costuma conter a resposta da pergunta interpretativa.
- Conexões: sociolinguística; formação de palavras por analogia (neologismo semântico); variação lexical regional; leitura de relação tese-exemplo em textos expositivos.
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