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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 74ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

A letra da canção relaciona dois aspectos da contemporaneidade com reflexos na sociedade brasileira:

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → relação entre ciência, tecnologia e desigualdade social; a canção de protesto como crítica social
  • ⚡ Nível: Médio — a letra não é difícil de ler, mas exige decodificar uma metáfora (ciência de ponta × pobreza) e reconhecer que a canção formula uma denúncia, não uma celebração do progresso
  • 🎯 Tema/Habilidade: A produção cultural (letra de música) como registro sociológico da realidade; o paradoxo do avanço técnico-científico que não elimina a desigualdade — Competência de Área 4 de Ciências Humanas do ENEM (transformações técnico-científicas e seu impacto na vida social)
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Quais dois temas da atualidade a canção coloca lado a lado, e como esse par se reflete na sociedade brasileira?"
  • Palavras-chave decisivas: novas invenções, antimatéria, homens pobres
  • Armadilha típica: ler "emancipação do homem" como se a canção afirmasse que a ciência já libertou as populações pobres. Na verdade, o verbo que comanda a estrofe é "queremos saber" — uma cobrança, uma pergunta em aberto — e o que vem na sequência (pobres das cidades, das estepes, dos sertões) é a resposta implícita: a ciência avança, mas a pobreza continua.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar os dois campos de sentido que a letra contrapõe — avanço técnico-científico de um lado, permanência da pobreza de outro — sem inventar temas que a letra não menciona (desemprego, autoritarismo, fome, isolamento cultural).

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Canção-denúncia / música de protesto: gênero em que a poesia cantada denuncia estruturas sociais, econômicas ou políticas; no Brasil, essa tradição vai do samba de protesto à MPB e ao Tropicalismo, usando metáfora e ironia para criticar sem sempre nomear diretamente o alvo.
  • Contexto da canção: os versos do enunciado são de "Queremos Saber", de Gilberto Gil (1969), lançada no auge do Tropicalismo, poucos meses depois do AI-5 (dezembro de 1968), que endureceu a censura e a repressão da ditadura militar. É também o período do chamado "milagre econômico brasileiro" — alto crescimento do PIB acompanhado de forte concentração de renda. A canção questiona justamente essa promessa oficial de progresso.
  • Paradoxo do progresso técnico-científico: conceito sociológico segundo o qual o avanço da ciência e da tecnologia não garante, por si só, mais justiça social; pode até aprofundar a distância entre quem tem acesso à inovação e quem permanece à margem dela.
  • Desigualdade social estrutural: disparidade persistente de renda e de acesso a bens e oportunidades entre grupos sociais, que resiste a mudanças tecnológicas quando não vem acompanhada de redistribuição e políticas públicas de inclusão.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

> "Queremos saber o que vão fazer / Com as novas invenções / Queremos notícia mais séria / Sobre a descoberta da antimatéria / E suas implicações / Na emancipação do homem / Das grandes populações / Homens pobres das cidades / Das estepes, dos sertões"

  • Evidência 1: "as novas invenções" e "a descoberta da antimatéria" → vocabulário da ciência de ponta: a antimatéria é um dos temas mais avançados da física do século XX, símbolo máximo do progresso técnico-científico.
  • Evidência 2: "Homens pobres das cidades / Das estepes, dos sertões" → a pobreza aparece em escala quase universal — cidades (contexto urbano), estepes (paisagem fora do Brasil, sugerindo alcance global da crítica) e sertões (marca típica da pobreza rural brasileira). O avanço científico é anunciado, mas quem continua pobre é nomeado logo em seguida.
  • Síntese: a letra não separa os dois blocos, ela os choca de propósito: pergunta ("queremos saber") se as invenções vão de fato "emancipar" essas populações pobres, e a simples enumeração da pobreza — nas cidades, nas estepes, nos sertões — funciona como resposta irônica: não, a ciência avança e a desigualdade permanece.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar os dois campos semânticos da letra

A estrofe é construída sobre dois blocos de vocabulário que se chocam. Bloco 1, científico: "novas invenções", "descoberta da antimatéria", "implicações". Bloco 2, social: "homens pobres das cidades", "das estepes, dos sertões". Antes de olhar para as alternativas, o candidato precisa nomear com precisão esses dois blocos — é exatamente isso que o comando pede ao falar em "dois aspectos da contemporaneidade".

Subpasso 4.2 — Interpretar a relação entre os blocos, não apenas somá-los

O verbo "queremos saber" não é neutro: é uma cobrança, um questionamento sobre para quem serve o progresso. Gil não nega que a ciência avança — ele pergunta o que essa ciência vai fazer pelos "homens pobres". Ao emendar a pergunta sobre a antimatéria com a lista de populações pobres, a canção sugere que a resposta, na prática, tem sido "nada": o avanço técnico-científico segue seu curso enquanto a pobreza — urbana e rural, no Brasil e fora dele — permanece intacta. Esse é o "aspecto da contemporaneidade com reflexos na sociedade brasileira" que a questão pede para identificar.

Subpasso 4.3 — Verificação

Testando essa síntese ("avanço tecnológico" × "desigualdade que persiste") contra as cinco alternativas, apenas uma reproduz exatamente esse par sem acrescentar elementos ausentes da letra: a alternativa D, que fala em "avanço da tecnologia" (equivalente a "novas invenções"/"antimatéria") e "permanência das desigualdades sociais" (equivalente a "homens pobres das cidades, estepes, sertões"). Nenhuma das outras corresponde ao par de temas identificado nos Passos 1 a 3 — confirmação de que o gabarito é D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) A elevação da escolaridade e o aumento do desemprego.

❌ Incorreta: a letra não cita escolaridade nem desemprego. É uma alternativa que soa plausível por tratar de temas socioeconômicos, mas troca os dois eixos reais (ciência e pobreza) por outros que simplesmente não aparecem no texto.

B) O investimento em pesquisa e a ascensão do autoritarismo.

❌ Incorreta: "pesquisa" até ecoa "antimatéria", mas "autoritarismo" não está na letra citada. É o erro clássico de confundir o contexto histórico de produção da canção (ditadura militar, censura) com o conteúdo literal da letra — a crítica explícita nos versos é à desigualdade social, não a um regime político.

C) O crescimento demográfico e a redução da produção de alimentos.

❌ Incorreta: não há menção a crescimento populacional como problema nem a escassez de alimentos. "Grandes populações" aparece apenas como alvo da (não) emancipação prometida pela ciência, não como uma questão demográfica ligada à fome.

D) O avanço da tecnologia e a permanência das desigualdades sociais.

✅ Correta: sintetiza com exatidão os dois polos da letra — "novas invenções" e "antimatéria" (avanço tecnológico) contrapostos a "homens pobres das cidades, das estepes, dos sertões" (desigualdade que resiste ao progresso).

E) A acumulação de conhecimento e o isolamento das comunidades tradicionais.

❌ Incorreta: a letra fala em pobreza urbana e rural, não em isolamento cultural. "Isolamento de comunidades tradicionais" é um tema diferente de "pobreza que persiste apesar da ciência" — a canção denuncia exclusão socioeconômica, não afastamento cultural voluntário ou geográfico.

🏆 Gabarito: D — a letra contrapõe diretamente o avanço técnico-científico ("novas invenções", "a descoberta da antimatéria") à persistência da pobreza ("homens pobres das cidades, das estepes, dos sertões"), formando exatamente o par "tecnologia × desigualdades sociais".

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que nomeia os dois eixos efetivamente presentes na letra — avanço tecnológico e desigualdade social persistente — sem importar temas que o texto não aborda.
  • Padrão de cobrança: o ENEM usa com frequência letras de música (MPB, Tropicalismo, samba, rap) como documento sociológico, pedindo que o candidato extraia a crítica social embutida na poesia, e não apenas o significado literal de cada verso isolado.
  • Generalização: diante de uma questão de humanas com letra de canção, primeiro identifique os campos semânticos em oposição no texto (o que é celebrado x o que é denunciado); a alternativa correta quase sempre nomeia esse contraste com precisão, sem acrescentar elementos ausentes da letra.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que cite um termo que não aparece na letra (autoritarismo, desemprego, alimentos, comunidades tradicionais) — em questões de interpretação de canção, o gabarito nunca extrapola o texto apresentado.
  • Conexões: o conceito de "globalização perversa" de Milton Santos e a teoria da dependência (Celso Furtado), que também discutem por que o avanço técnico-científico não se traduz automaticamente em inclusão social; o contexto histórico do Tropicalismo e da ditadura militar brasileira.

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