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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensArtesDifícil

Questão 27ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

A imagem reproduz a instalação da paulista Lina Kim, apresentada na 25ª Bienal de São Paulo em março de 2002. Nessa obra, a artista se utiliza de elementos dispostos num determinado ambiente para propor que o observador reconheça o(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Artes → Leitura de instalação artística contemporânea; relação entre arte, filosofia e crítica social (razão × loucura)
  • ⚡ Nível: Médio — não exige conteúdo decorado, mas a leitura simbólica dos objetos e as alternativas-armadilha elevam a dificuldade
  • 🎯 Tema/Habilidade: Leitura de obra de arte contemporânea e articulação do sentido simbólico dos elementos plásticos com temas socioculturais (Competência de área 6 — Linguagens: reconhecer manifestações artísticas como expressão de valores e visões de mundo)
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que a disposição dos objetos na instalação de Lina Kim leva o observador a perceber ou repensar?"
  • Palavras-chave decisivas: elementos dispostos, ambiente, reconheça
  • Armadilha típica: confundir o assunto aparente da obra (hospital, sofrimento, saúde mental) com a pergunta conceitual que ela de fato propõe — o que é razão; muitos candidatos marcam a alternativa D só porque ela também usa a palavra "razão"/"racionalização"
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ler objetos plásticos como signos de um debate abstrato (razão × loucura), indo além da simples descrição da cena

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Instalação artística: linguagem da arte contemporânea que organiza objetos (e, por vezes, luz e som) num espaço tridimensional a ser percorrido pelo espectador; o sentido nasce da disposição espacial dos elementos, não de uma imagem emoldurada e única
  • Camisa de força como símbolo cultural: dispositivo histórico de contenção física usado em hospícios e manicômios para imobilizar pacientes considerados "loucos"; tornou-se ícone da repressão da loucura pela ordem médica e racional
  • Dicotomia razão × loucura: desde a modernidade europeia, a psiquiatria construiu a "loucura" como o outro da razão, isolando-a e classificando-a; pensadores como Michel Foucault (em História da Loucura na Idade Clássica) mostraram que essa fronteira é uma construção histórica de poder, não um dado natural e estável
  • Arte contemporânea: costuma deslocar objetos do cotidiano ou de instituições (hospitalares, escolares, prisionais) de sua função original para provocar reflexão crítica sobre estruturas de poder e identidade, em vez de representar a realidade de forma mimética

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1 (imagem): camisas de força vazias — sem nenhum corpo dentro — espalhadas pelo chão e escorrendo para fora de baldes de metal, uma delas pendurada sobre a pia → indica que o dispositivo criado para conter algo (um corpo, um comportamento tido como "irracional") perdeu sua função de contenção; aquilo que deveria estar contido "vazou"
  • Evidência 2 (imagem/legenda): pia, torneira, baldes, espelho e uma única lâmpada pendurada no teto de uma sala vazia e fria → monta um ambiente de higienização/vigilância (como um consultório ou banheiro institucional), reforçado pelo título da obra, "Cry me a river" ("chore um rio"), que remete a um transbordamento emocional incontrolável, em contraste com o controle esperado nesse tipo de espaço
  • Evidência 3 (comando): "propõe que o observador reconheça o(a)…" → o verbo pede o efeito conceitual/reflexivo provocado no espectador, não apenas a identificação temática (hospital, loucura) da cena
  • Síntese: o conjunto de camisas de força esvaziadas "transbordando" de baldes ao redor de uma pia projeta visualmente o colapso do aparato que separa razão e loucura, conduzindo o observador a questionar os limites e a legitimidade desse próprio conceito

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Reconhecer o gênero e a estratégia da obra

Cry me a river (2001) é uma instalação, não uma pintura ou fotografia isolada: seu significado depende da disposição espacial dos objetos numa sala que o público percorre fisicamente. Isso já orienta a leitura: a obra não ilustra um fato social de forma direta e documental — ela constrói uma experiência simbólica e corporal para quem a visita, característica central da linguagem instalativa na arte contemporânea.

Subpasso 4.2 — Interpretar cada objeto como parte de um sistema de signos

Camisas de força remetem historicamente à contenção física da loucura pela racionalidade médica. Estarem vazias, largadas no chão e escorrendo para fora de baldes metálicos sugere que o "conteúdo" que deveriam conter — o corpo, o comportamento, a emoção tida como irracional — extravasou, não cabe mais no dispositivo de controle. A pia, a torneira e os baldes formam um vocabulário visual de fluxo e contenção de líquido, ecoado pelo título da obra (o choro como um rio que transborda). A lâmpada solitária, pendurada no teto de uma sala fria e vazia, evoca a atmosfera de vigilância típica de espaços de exame e internação.

Subpasso 4.3 — Verificação: conectar a leitura ao comando

Se os objetos, tomados em conjunto, encenam o colapso do dispositivo que a "razão" institucional usa para conter a "loucura", então a obra não está simplesmente retratando um hospício: ela pergunta ao espectador quem define essa fronteira, se a razão é de fato estável e neutra ou se ela mesma pode ser posta em xeque. Esse é exatamente o efeito descrito na alternativa B — "questionamento do que seja razão" —, confirmando-a como resposta.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) recusa à representação dos problemas sociais.

❌ Incorreta: a obra não recusa temas sociais — pelo contrário, dialoga diretamente com a questão da saúde mental e da institucionalização, um problema social concreto. O erro é confundir "não representar de forma literal/documental" com "recusar representar": a instalação representa esse problema de modo simbólico e metafórico, não ausente.

B) questionamento do que seja razão.

✅ Correta: as camisas de força vazias, transbordando de baldes ao redor de uma pia — símbolos do controle médico-institucional sobre a "loucura" —, colocam em xeque justamente aquilo que as legitima: a noção de razão. A obra convida o observador a questionar os limites e a validade histórica dessa fronteira entre racional e irracional.

C) esgotamento das estéticas recentes.

❌ Incorreta: não há na obra nenhuma referência autorreflexiva à história dos estilos artísticos, nem a ideia de que a arte teria esgotado seus recursos formais; o eixo da instalação é temático-conceitual (razão e loucura), não uma metalinguagem sobre a própria arte.

D) processo de racionalização inerente à arte contemporânea.

❌ Incorreta: é a alternativa-armadilha, pois reaproveita a palavra "razão"/"racionalização" do universo semântico da obra, mas inverte o sentido da crítica. A arte contemporânea, e esta instalação em particular, tende a desestabilizar processos racionalizantes e classificatórios — não a incorporá-los como método ou característica inerente.

E) ruptura estética com movimentos passados.

❌ Incorreta: a questão não trata da filiação ou do rompimento da obra com escolas e movimentos artísticos anteriores (como o modernismo ou o cubismo); o centro da obra é a crítica conceitual à dicotomia razão/loucura, não um debate historiográfico sobre estilos.

🏆 Gabarito: B — a instalação usa o símbolo histórico da camisa de força, esvaziada e "transbordando" ao lado de objetos de contenção de líquido, para questionar a própria noção de razão como categoria estável que separa o "são" do "louco".

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa B nomeia o efeito conceitual — e não apenas temático — que a disposição dos objetos provoca: repensar o que se entende por razão.
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer leituras de arte contemporânea (instalações, fotografias, performances) pedindo que o candidato extraia o sentido simbólico da organização espacial dos elementos, e não apenas identifique o "assunto" superficial da obra.
  • Generalização: diante de uma instalação ou obra conceitual, pergunte sempre: "que oposição de ideias (razão/loucura, natureza/cultura, público/privado etc.) os objetos, retirados de seu uso cotidiano, estão encenando?" A alternativa correta costuma nomear essa oposição ou o seu questionamento — nunca apenas descrever a cena.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que (1) neguem um tema social evidente na obra (como A); (2) desviem para uma discussão de historiografia de estilos sem qualquer evidência textual disso (C e E); (3) reaproveitem palavras do próprio enunciado com sentido invertido, como "razão" em D.
  • Conexões: Michel Foucault e História da Loucura na Idade Clássica; outras instalações de arte contemporânea brasileira que usam objetos institucionais (hospitalares, escolares, prisionais) como crítica social; a Bienal de São Paulo como espaço de circulação da arte contemporânea nacional e internacional.

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