Mapa de questões · 1º dia
Questão 66 — ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia
Temos vivido, como nação, atormentados pelos males modernos e pelos males do passado, pelo velho e pelo novo, sem termos podido conhecer uma história de rupturas revolucionárias. Não que não tenhamos nos modernizado e chegado ao desenvolvimento. Mas não eliminamos relações, estruturas e procedimentos contrários ao espírito do tempo. Nossa modernização tem sido conservadora.
NOGUEIRA, M. As possibilidades da política: ideias para a reforma democrática do Estado.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
O texto apresenta uma análise recorrente sobre o processo de modernização do Brasil na segunda metade do século XX. De acordo com a análise, uma característica desse processo reside na(s)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil república, ditadura civil-militar e redemocratização; o conceito de modernização conservadora
- ⚡ Nível: Médio — o texto é teórico-abstrato e exige descartar alternativas que descrevem processos históricos reais, porém fora do recorte pedido pelo comando
- 🎯 Tema/Habilidade: Modernização conservadora do Brasil e permanência de estruturas arcaicas diante da necessidade de reformas sociais — leitura crítica de processos históricos e de poder (eixo Estado, política e sociedade)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é a característica central do processo brasileiro de se modernizar sem romper com o passado, na segunda metade do século XX?"
- Palavras-chave decisivas: não eliminamos relações, estruturas e procedimentos, contrários ao espírito do tempo, modernização conservadora
- Armadilha típica: confundir "modernização" (que de fato ocorreu — indústria, tecnologia, urbanização) com "ausência de conservadorismo". O texto não nega que o Brasil avançou; nega que esse avanço tenha vindo acompanhado de ruptura política e social.
- O que a resposta precisa demonstrar: que "conservadora" qualifica o adjetivo do processo — modernização econômica e técnica ANDANDO JUNTO com o bloqueio às mudanças político-sociais que deveriam acompanhá-la.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Modernização conservadora: processo histórico em que a economia se moderniza (indústria, tecnologia, infraestrutura, urbanização) sem que as estruturas sociais e políticas arcaicas — concentração fundiária, clientelismo, hierarquias de poder — sejam desmontadas.
- Via prussiana (Barrington Moore Jr.): um dos três caminhos para a modernidade descritos pelo autor — ao lado da revolução burguesa clássica (Inglaterra, França) e da revolução camponesa (Rússia, China) —, em que a própria elite tradicional conduz a modernização "pelo alto", evitando a mobilização popular e preservando privilégios.
- Revolução passiva: conceito de matriz gramsciana, muito usado por historiadores brasileiros, para descrever como as classes dominantes absorvem parte das demandas de mudança sem permitir ruptura, mantendo a hegemonia pela conciliação em vez do confronto.
- Reformas de base: pacote de reformas estruturais (agrária, tributária, política, urbana, bancária) defendido no início dos anos 1960 e que reaparece, sob outras formas, em toda a agenda democrática brasileira posterior — historicamente travado por coalizões conservadoras.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "não eliminamos relações, estruturas e procedimentos contrários ao espírito do tempo" → mesmo modernizando-se, o Brasil manteve intocados arranjos de poder antigos: concentração de terra, clientelismo, patrimonialismo, hierarquias sociais.
- Evidência 2: "Nossa modernização tem sido conservadora" → síntese do autor: modernizar não significa, no caso brasileiro, democratizar ou reformar a estrutura social — os dois processos se dissociaram historicamente.
- Síntese: o texto descreve um padrão em que o avanço técnico-econômico caminha ao lado da resistência das elites a qualquer reforma que redistribua poder, renda ou terra. É exatamente essa resistência — um bloqueio de natureza política — que a questão pede para identificar como "característica desse processo".
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Situar o texto no tempo histórico
Nogueira fala da modernização brasileira na "segunda metade do século XX" — período que abrange o nacional-desenvolvimentismo de JK ("50 anos em 5"), as reformas de base propostas por João Goulart (1961-1964), a ditadura civil-militar (1964-1985) com seu "milagre econômico" e, por fim, a redemocratização e a Constituição de 1988. Em todos esses momentos repete-se o mesmo padrão: o crescimento econômico e a modernização técnica avançam, mas as reformas estruturais — sobretudo a agrária — são adiadas, esvaziadas ou diretamente combatidas.
Subpasso 4.2 — Identificar o mecanismo da "conservação"
O texto não afirma que o Brasil ficou estagnado; afirma que ele se modernizou por um caminho que preserva o poder das elites tradicionais. O obstáculo decisivo não é técnico — o país absorve tecnologia, mecaniza a produção, urbaniza-se sem dificuldade — nem primariamente financeiro: é político. São as correlações de força no Congresso, os pactos de elite e até golpes de Estado (como o de 1964, deflagrado exatamente para impedir as reformas de base) que travam a transformação da estrutura social. Isso aponta diretamente para "limitações políticas no estabelecimento de reformas sociais".
Subpasso 4.3 — Verificação
Voltando às alternativas: nenhuma delas menciona diretamente "reformas sociais" bloqueadas por decisão política — exceto a alternativa D, que sintetiza com precisão a tese do autor: modernização real na base econômica + bloqueio real na esfera política das reformas sociais = modernização conservadora. As demais alternativas descrevem fenômenos técnicos, institucionais ou financeiros que não correspondem ao núcleo do texto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) uniformização técnica dos espaços de produção.
❌ Incorreta: essa é, no máximo, uma consequência do lado "moderno" do processo (mecanização, difusão de tecnologia agrícola e industrial), não do lado "conservador". O texto fala do que NÃO mudou nas estruturas sociais e políticas, e não da difusão de técnicas produtivas pelo território.
B) construção municipalista do regime representativo.
❌ Incorreta: não há, na história republicana brasileira, um fortalecimento do município como eixo do regime representativo; ao contrário, o poder político oscilou entre oligarquias estaduais (Primeira República) e forte centralização federal (Era Vargas, ditadura militar). Municipalismo simplesmente não é o traço discutido pelo autor.
C) organização estadual das agremiações partidárias.
❌ Incorreta: essa característica remete à "política dos governadores" e aos partidos estaduais (como o PRP e o PRM) da Primeira República (1889-1930) — período anterior ao recorte temporal do texto, que fala em "segunda metade do século XX" — e descreve um arranjo institucional-partidário, não um bloqueio a reformas sociais.
D) limitações políticas no estabelecimento de reformas sociais.
✅ Correta: é exatamente o "não eliminamos relações, estruturas e procedimentos contrários ao espírito do tempo": as elites usam seu poder político — no Congresso, nos pactos, inclusive por golpes — para impedir ou esvaziar reformas (agrária, tributária, urbana) que mudariam de fato a estrutura social. É a marca central da modernização conservadora.
E) restrições financeiras no encaminhamento das demandas ruralistas.
❌ Incorreta: inverte a realidade histórica. As demandas ruralistas raramente enfrentaram restrição financeira; pelo contrário, esse setor historicamente teve grande capacidade de pressão política e obteve crédito, subsídio e proteção contra reformas (como a agrária) — o oposto de "restrição".
🏆 Gabarito: D — a modernização brasileira combinou avanço técnico-econômico real com o bloqueio político sistemático às reformas sociais que romperiam com as estruturas arcaicas de poder e propriedade.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa D nomeia o mecanismo político — e não técnico, geográfico ou partidário — que sustenta a "modernização conservadora": o veto das elites às reformas sociais.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra esse tema de forma recorrente a partir de textos de cientistas políticos e historiadores (Nogueira, Florestan Fernandes, Barrington Moore) que descrevem o Brasil como um caso de "revolução pelo alto" — da Abolição sem terra para os libertos à Constituição de 1988 com reformas ainda incompletas.
- Generalização: sempre que a questão citar "modernização sem ruptura", "conciliação de elites" ou "conservadorismo" associado a mudança histórica, associe à ideia de avanço econômico sem redistribuição de poder, renda ou terra.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que descrevem aspectos técnicos, geográficos ou institucionais neutros (uniformização técnica, municipalismo, organização estadual de partidos) — a resposta certa quase sempre aponta para um bloqueio político-social explícito, ligado a reformas.
- Conexões: via prussiana (Barrington Moore Jr.); revolução passiva (Gramsci); reformas de base e golpe de 1964; "conciliação" como padrão recorrente da elite brasileira desde a Independência.
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