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Mapa de questões · 1º dia
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Questão 15ENEM 2018 PPLCaderno azul · 1º Dia

Glossário diferenciado

Outro dia vi um anúncio de alguma coisa que não lembro o que era (como vocês podem deduzir, o anúncio era péssimo). Lembro apenas que o produto era diferenciado, funcional e sustentável. Pensando nisso, fiz um glossário de termos diferenciados e suas respectivas funcionalidades.

Diferenciado: um adjetivo que define um substantivo mas também o sujeito que o está usando. Quem fala “diferenciado” poderia falar “diferente”. Mas escolheu uma palavra diferenciada. Porque ele quer mostrar que ele próprio é “diferenciado”. Essa é a função da palavra “diferenciado”: diferenciar-se. Por diferençado, entenda: “mais caro”. Estudos indicam que a palavra “diferenciado” representa um aumento de 50% no valor do produto. É uma palavra que faz a diferença.

DUVIVIER, G. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 17 nov. 2014 (adaptado).

Os gêneros são definidos, entre outros fatores, por sua função social. Nesse texto, um verbete foi criado pelo autor para

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de Texto, Gêneros Textuais e Função Social da Linguagem
  • ⚡ Nível: Médio — a disputa entre as alternativas A e C exige atenção fina à ironia do texto, não apenas leitura superficial
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer a função social de um gênero apropriado ironicamente (o verbete de dicionário usado como paródia) para fins de crítica
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Por que o autor escreveu esse falso verbete de dicionário? Qual é a real intenção por trás da forma escolhida?"
  • Palavras-chave decisivas: verbete criado pelo autor, função social, gêneros são definidos... por sua função social
  • Armadilha típica: confundir a redefinição irônica da palavra "diferenciado" (que parece, à primeira vista, uma "atribuição de novo sentido") com o objetivo real do texto, que é usar essa redefinição como instrumento de crítica.
  • O que a resposta precisa demonstrar: entendimento de que a forma de um gênero — aqui, o verbete de dicionário — pode ser deslocada de sua função habitual (definir palavras de modo neutro e objetivo) para cumprir outra função social, distinta da original.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Gênero textual e função social: todo gênero (bula, receita, verbete, notícia) existe para cumprir um propósito comunicativo em determinado contexto. Quando um autor usa a estrutura de um gênero com outro propósito, ocorre um deslocamento de função — recurso comum no humor e na crônica.
  • Verbete-paródia: o texto de Duvivier imita a estrutura de um dicionário (palavra + definição + explicação), mas o conteúdo dessa "definição" é subjetivo, opinativo e exagerado — o oposto de um verbete real, que busca objetividade e consenso.
  • Ironia como estratégia argumentativa: afirmar que "diferenciado" significa "mais caro" não é uma informação lexicográfica; é uma forma de expor, pelo humor, tanto o discurso publicitário vazio quanto a vaidade de quem usa a palavra para parecer especial.
  • Crônica de humor (o gênero de origem do texto): Gregório Duvivier é humorista e cronista, com textos publicados na Folha de S.Paulo; parte de observações banais do cotidiano — aqui, um anúncio esquecido — para construir uma crítica social mais ampla, traço típico da crônica.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Quem fala 'diferenciado' poderia falar 'diferente'. Mas escolheu uma palavra diferenciada. Porque ele quer mostrar que ele próprio é 'diferenciado'." → o autor não está descrevendo o produto do anúncio, e sim o comportamento pretensioso de quem escolhe essa palavra — já é uma crítica ao falante, não uma definição neutra.
  • Evidência 2: "Por diferençado, entenda: 'mais caro'. Estudos indicam que a palavra 'diferenciado' representa um aumento de 50% no valor do produto." → o dado numérico funciona como prova humorística e propositalmente exagerada, reforçando a denúncia de que a palavra serve para justificar preços mais altos, e não para comunicar qualidade real.
  • Síntese: as duas evidências mostram que o "verbete" não tem compromisso com o significado real da palavra — ele é um pretexto para o autor expor, com ironia, um vício da linguagem publicitária e do comportamento social a ela associado. A forma é de dicionário; a função é de crítica.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o gênero de base e o gênero apropriado

O texto começa como crônica pessoal ("Outro dia vi um anúncio de alguma coisa que não lembro o que era...") e, já na segunda frase, vira "glossário": o autor cria um verbete no molde de dicionário. Mas esse verbete não cumpre a função de um verbete comum — informar objetivamente o significado consensual de uma palavra. Isso já descarta D: "diferenciado" não é termo novo, é palavra corriqueira reaproveitada com outra intenção.

Subpasso 4.2 — Analisar o conteúdo da "definição" criada

Ao definir "diferenciado" como "mais caro" e ligar seu uso à necessidade do falante de parecer especial, o autor não descreve um produto real — ele nem lembra qual era o anúncio — nem narra o episódio por si só: essa narrativa ocupa uma frase inicial; o resto do texto, a maior parte dele, analisa a palavra e quem a usa.

Subpasso 4.3 — Verificação: o que resta é a função crítica

Restam A e C, as alternativas mais próximas. A tentação de marcar A existe porque, literalmente, o autor propõe um novo "significado" para "diferenciado". Mas atribuir novo sentido a uma palavra, no sentido lexicográfico, supõe um uso sério, voltado a fixar um significado na língua — não é essa a intenção de Duvivier. O "sentido" que ele dá à palavra é deliberadamente exagerado e tem função retórica: expor, pelo riso, um comportamento social (a pretensão de parecer diferenciado) e uma prática de mercado (encarecer produtos com adjetivos vazios). Isso é, por definição, um posicionamento crítico expresso através do humor — o que confirma C.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) atribuir novo sentido a uma palavra.

❌ Incorreta: é a armadilha mais forte da questão. O autor até "redefine" a palavra, mas sem compromisso lexicográfico algum — é recurso irônico a serviço de crítica maior. Tomar o meio (a forma de verbete) pelo fim (a crítica) é o erro típico de quem marca esta alternativa.

B) apresentar as características de um produto.

❌ Incorreta: o texto afirma que o autor nem lembra do produto anunciado. Não há descrição de características de nenhum produto específico; o foco recai sobre a palavra "diferenciado" e sobre quem a utiliza.

C) mostrar um posicionamento crítico.

✅ Correta: o verbete-paródia é o instrumento escolhido para criticar, com ironia, tanto a pretensão de quem usa "diferenciado" para se autopromover quanto a lógica publicitária que encarece produtos com adjetivos esvaziados de sentido. A função social do "verbete", aqui, é argumentativa — não lexicográfica.

D) registrar o surgimento de um novo termo.

❌ Incorreta: "diferenciado" não é termo novo na língua; é palavra já existente e amplamente usada antes do texto. O autor não documenta um neologismo — ironiza o uso de uma palavra corriqueira no discurso publicitário.

E) contar um fato do cotidiano.

❌ Incorreta: o relato do anúncio esquecido é só o mote inicial, que ocupa uma única frase e dispara a reflexão seguinte. O cerne do texto, em extensão e em importância, é a análise crítica da palavra "diferenciado", não a narrativa do episódio em si.

🏆 Gabarito: C — o autor usa a estrutura de um verbete de dicionário como estratégia irônica para expor e criticar o uso pretensioso e mercadológico da palavra "diferenciado", caracterizando um claro posicionamento crítico.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa C reconhece que a forma do verbete foi deslocada de sua função original — definir palavras de modo neutro — para cumprir outra função social: a crítica irônica ao discurso publicitário e à vaidade linguística.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos de humoristas e cronistas (Gregório Duvivier, entre outros) em que o gênero de partida — bula, receita, verbete, manual, anúncio — é "traído" pelo conteúdo, gerando humor com intenção crítica. A pergunta quase sempre gira em torno da função social do texto, não da sua forma aparente.
  • Generalização: sempre que um texto imita a estrutura de um gênero técnico ou objetivo (dicionário, manual, bula, regulamento), mas o conteúdo é subjetivo, exagerado ou opinativo, a resposta buscada quase sempre envolve crítica, ironia ou humor — raramente a função literal daquele gênero.
  • Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que dependem de informação ausente no texto (aqui, um "produto" específico, em B) e as que descrevem a forma sem captar a intenção (D, já que a palavra não é nova). Entre as duas restantes, pergunte: "o autor quer fixar esse novo sentido na língua ou usar esse 'sentido' para criticar algo?" Se a resposta for criticar, a alternativa certa é sempre a que menciona posicionamento crítico, crítica ou ironia.
  • Conexões: crônica de humor; verbete-paródia; linguagem publicitária; função social dos gêneros textuais; ironia como recurso argumentativo.

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