Mapa de questões · 1º dia
Questão 88 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
O mito de Sísifo explora a noção de “o absurdo”, que Camus descreve alternativamente como sendo a condição humana e, ao mesmo tempo, uma difusa sensibilidade do nosso tempo. Sísifo, condenado pelos deuses a uma infindável e fútil tarefa de rolar uma pedra montanha acima (donde ela haveria de rolar montanha abaixo pelo seu próprio peso), torna-se, assim, um exemplar da condição humana, lutando desesperada e impotentemente para alcançar algo.
SOLOMON, R. C. In: AUDI, R. Dicionário de filosofia de Cambridge.
São Paulo: Paulus, 2006 (adaptado).
O absurdo da condição humana, representado pela alegoria contida no texto, fundamenta-se na
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → filosofia contemporânea; existencialismo/absurdismo; Albert Camus
- ⚡ Nível: Difícil — exige reconhecer um conceito filosófico técnico ("o absurdo" camusiano) por trás de uma alegoria literária que não define o termo diretamente
- 🎯 Tema/Habilidade: O absurdo em Camus como confronto entre a razão humana e a irracionalidade do mundo; leitura e interpretação de texto filosófico
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Em que se baseia, segundo o texto, a ideia de que a condição humana é absurda?"
- Palavras-chave decisivas: infindável e fútil tarefa, lutando desesperada e impotentemente, exemplar da condição humana
- Armadilha típica: confundir "absurdo" no sentido do senso comum (bizarro, sem sentido) com o conceito técnico de Camus, que é relacional — não é propriedade do mundo nem do homem isoladamente, mas de um encontro entre os dois.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o absurdo nasce do choque entre o desejo humano de sentido e clareza e um universo que não responde a esse desejo.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- O absurdo (Camus): em O Mito de Sísifo (1942), o absurdo surge do confronto entre a necessidade humana de razão e sentido e o silêncio irracional do universo — uma relação, não uma qualidade isolada do mundo ou do homem.
- A alegoria de Sísifo: condenado a empurrar eternamente uma pedra que sempre rola de volta, ele simboliza a busca humana por sentido numa existência que não oferece propósito último. A tarefa é "infindável e fútil" porque nunca se completa, como a busca racional por respostas definitivas nunca encontra eco no mundo.
- Revolta e responsabilidade: a resposta camusiana ao absurdo não é a fuga (suicídio físico ou "suicídio filosófico" — o salto para uma explicação transcendente), mas a revolta lúcida: viver com plena responsabilidade apesar da ausência de sentido garantido. Por isso Camus conclui: "é preciso imaginar Sísifo feliz".
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "infindável e fútil tarefa de rolar uma pedra montanha acima" → o esforço nunca se realiza porque a pedra sempre volta a cair: a busca humana por sentido colide com uma realidade que não coopera.
- Evidência 2: "lutando desesperada e impotentemente para alcançar algo" → há desejo/urgência de sentido (desesperada) e resistência do real a esse desejo (impotente). Esse par é a própria estrutura do absurdo.
- Síntese: o texto descreve alguém que enfrenta ("luta") uma realidade irracional frente aos seus anseios de sentido — não alguém que nega o mundo, abandona responsabilidades, discute transcendência ou está isolado de outros sujeitos.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Estrutura relacional do absurdo
O texto de Solomon diz que o absurdo é, ao mesmo tempo, "a condição humana" e "uma difusa sensibilidade do nosso tempo" — sinal de que não é traço isolado de Sísifo, do mundo ou dos deuses, mas relação entre um sujeito que busca (luta) e uma realidade que não corresponde a essa busca (a pedra sempre retorna).
Subpasso 4.2 — Da alegoria ao conceito
Rolar a pedra montanha acima = esforço humano por ordem e sentido. A pedra descer "pelo seu próprio peso" = o mundo obedece a suas próprias leis, indiferente ao desejo humano. O choque entre o movimento ascendente do sujeito e a resposta indiferente do mundo é o próprio absurdo — e é isso que fundamenta a questão.
Subpasso 4.3 — Verificação
Só a alternativa que nomeia esse confronto entre razão humana e mundo irracional — "confrontação da irracionalidade do real" — corresponde ao texto. As demais trazem ideias ausentes do trecho (negação da matéria, rejeição da responsabilidade, transcendência, intersubjetividade).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) confrontação da irracionalidade do real.
✅ Correta: é a definição do absurdo em Camus — o embate entre o desejo humano de sentido e um mundo irracional, silencioso, indiferente. Sísifo "luta desesperada e impotentemente" porque confronta essa irracionalidade sem vencê-la.
B) negação da materialidade do mundo.
❌ Incorreta: Camus não nega a existência material do mundo — a pedra existe, pesa, rola. O erro é confundir "irracionalidade" com "irrealidade"; o mundo é plenamente material, só não oferece sentido racional ao esforço humano.
C) rejeição da ideia de responsabilidade.
❌ Incorreta: é o oposto do que Camus defende. Ao aceitar lucidamente o absurdo e continuar empurrando a pedra, Sísifo assume plena responsabilidade por sua existência — daí Camus concluir que "é preciso imaginar Sísifo feliz". O absurdismo não é niilismo moral.
D) insuficiência da teoria da transcendência.
❌ Incorreta: inverte a lógica do texto. Camus rejeita a fuga para a transcendência como saída ao absurdo, mas isso é consequência de sua filosofia, não o fundamento do absurdo em si — o trecho nem menciona transcendência.
E) impossibilidade da existência de intersubjetividade.
❌ Incorreta: o mito não trata da relação entre sujeitos, mas da relação entre um único sujeito e o mundo. Não há menção a outras pessoas; o drama é solitário e cósmico, não social.
🏆 Gabarito: A — o absurdo da condição humana se fundamenta na confrontação entre a razão/o desejo de sentido do ser humano e a irracionalidade do mundo real, como na luta desesperada e impotente de Sísifo contra a pedra que sempre retorna.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A nomeia a estrutura relacional (sujeito racional × mundo irracional) descrita pela luta de Sísifo; as demais introduzem elementos ausentes do trecho.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer trechos de filósofos/comentadores sobre existencialismo e absurdismo pedindo o reconhecimento do conceito por trás de uma alegoria, sem citar o termo técnico diretamente.
- Generalização: em questões sobre Camus, a resposta correta quase sempre envolve confronto entre o ser humano (razão, desejo de sentido) e o mundo (irracionalidade, silêncio) — desconfie de alternativas de negação, fuga ou ausência total de relação sujeito-mundo.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que neguem algo que o texto não nega (B), que contradigam o engajamento existencial de Camus (C), ou que insiram temas ausentes do trecho, como transcendência (D) e intersubjetividade (E); sobra a que descreve o confronto ativo (A).
- Conexões: O Mito de Sísifo (Camus); existencialismo (Sartre, Kierkegaard).
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