Mapa de questões · 1º dia
Questão 32 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
Como é azul o oceano
E a lagoa, serena
Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena
Sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena
Em diálogo com importante fato da história política brasileira, o poema de Ferreira Gullar instaura tensivamente um olhar
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → interpretação de poesia; Ferreira Gullar; contexto histórico da ditadura militar brasileira
- ⚡ Nível: Médio — exige articular a leitura literal dos versos com o conhecimento histórico-político para não confundir "esperança" com "conformismo" ou "nostalgia"
- 🎯 Tema/Habilidade: Poesia engajada e resistência política — competência de relacionar recursos linguísticos e contexto de produção a efeitos de sentido no texto literário
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que tipo de olhar sobre a realidade sociopolítica o poema constrói, em tensão com um fato histórico da política brasileira?"
- Palavras-chave decisivas: "dois e dois são quatro", "vida vale a pena", "tempo de alegria... me acena", "a noite carrega o dia"
- Armadilha típica: confundir o reconhecimento das dificuldades ("pão caro", "liberdade pequena", "terror") com resignação (opção B) ou com saudade de um passado idealizado (opção C) — o poema fala de futuro, não de passado, e afirma a vida, não se acomoda a ela
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que o poema constrói uma tensão entre a certeza dolorosa do presente opressivo e uma certeza igualmente firme — quase matemática — de que o futuro pode ser diferente
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Poesia de resistência: tradição lírica que responde a contextos de repressão política (censura, perseguição, autoritarismo) não pelo silêncio, mas pela reafirmação da vida e da esperança como forma de enfrentamento simbólico.
- Ferreira Gullar e a ditadura militar (1964-1985): poeta ligado à poesia participante, perseguido durante os anos de chumbo; sua obra do período combina denúncia da opressão com afirmação obstinada de um horizonte de liberdade.
- Tensão dialética como recurso de sentido: o poema não escolhe entre "tudo está ruim" e "tudo vai ficar bem" — sustenta as duas verdades ao mesmo tempo ("embora...", "mesmo que..."), e é essa tensão que produz o efeito de esperança combativa (não ingênua) cobrado na questão.
- Metáfora estrutural: a certeza matemática ("dois e dois são quatro") é transferida ao plano político — tornar a esperança tão inquestionável quanto uma operação aritmética é a estratégia central do eu lírico.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Sei que dois e dois são quatro / sei que a vida vale a pena" → o eu lírico equipara o grau de certeza sobre a vida valer a pena ao de um fato matemático inquestionável — não é uma esperança frágil, é uma convicção.
- Evidência 2: "Embora o pão seja caro / E a liberdade pequena" → reconhecimento explícito e sem eufemismo das condições materiais e políticas adversas (fome, censura, repressão) — o poema não nega o presente difícil.
- Evidência 3: "Por trás do terror me acena / Um tempo de alegria... a noite carrega o dia" → mesmo em meio ao terror (violência de Estado), o eu lírico enxerga um tempo melhor que já se gesta dentro da própria escuridão — a noite "carrega" o dia, não o apaga.
- Síntese: as evidências convergem para o mesmo movimento: o poema admite a dureza do presente ("embora", "mesmo que") mas projeta, com firmeza quase matemática, uma renovação do horizonte político do país — fé ativa, não passiva.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a estrutura argumentativa do poema
O poema organiza-se em orações concessivas ("embora o pão seja caro", "mesmo que..."): a estrutura "sei que X, embora Y" mostra que o eu lírico não ignora Y (a dificuldade), mas afirma X (a vida vale a pena) apesar dela — marca discursiva de quem resiste sem negar a realidade, nem otimista ingênuo, nem derrotista.
Subpasso 4.2 — Relacionar a estrutura ao contexto histórico
O enunciado situa o poema em "diálogo com importante fato da história política brasileira": o período de repressão da ditadura militar, quando a liberdade era de fato "pequena" e o "terror" tinha correspondência direta na violência de Estado. Nesse cenário, afirmar que "a vida vale a pena" e que um "tempo de alegria" está por vir é gesto político de resistência, não constatação neutra.
Subpasso 4.3 — Verificação
A pergunta pede o tipo de "olhar" instaurado tensivamente. "Tensivamente" é a palavra-chave: o poema não resolve a tensão eliminando um dos polos, ele a mantém — dor presente + esperança futura. Isso corresponde a um olhar fortalecido, renovado ("revigorado") quanto ao futuro sociopolítico, pois atravessa a adversidade sem ser destruído por ela. Nenhuma outra alternativa dá conta simultaneamente da tensão e do foco no futuro — logo, A é confirmada.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) revigorado acerca do futuro sociopolítico do país.
✅ Correta: o poema reconhece a opressão presente ("liberdade pequena", "terror") mas reafirma, com força de certeza matemática, que "a vida vale a pena" e que "um tempo de alegria" se aproxima — esse fortalecimento da esperança em meio à adversidade caracteriza um olhar revigorado sobre o futuro político do país.
B) conformado com o limitado exercício dos direitos políticos.
❌ Incorreta: conformismo implica aceitação passiva e resignada. O poema faz o oposto — nomeia a opressão ("liberdade pequena") apenas para superá-la discursivamente com a afirmação de que a vida vale a pena. Há enfrentamento simbólico, não aceitação.
C) saudosista ao lembrar momentos em que imperava a paz social.
❌ Incorreta: saudosismo pressupõe olhar voltado ao passado, lamentando um tempo perdido. O poema é todo projetado para o futuro ("um tempo de alegria... me acena") — não há referência a uma paz social pretérita a recuperar.
D) esperançoso em relação à melhoria da política econômica nacional.
❌ Incorreta: reduz o poema a uma única dimensão (a econômica), quando "o pão seja caro" é apenas um elemento ao lado da "liberdade pequena" e do "terror". O eixo é a política em sentido amplo, não uma pauta econômica específica.
E) racional ao propor uma solução matemática para as turbulências políticas.
❌ Incorreta: interpreta literalmente a metáfora "dois e dois são quatro", como se fosse uma "solução matemática" para a política. A operação aritmética é apenas imagem de certeza inabalável — o poema propõe convicção e esperança, não cálculo.
🏆 Gabarito: A — o poema sustenta, em tensão deliberada, o reconhecimento da opressão política e a reafirmação enérgica da esperança no futuro do país, o que configura exatamente um olhar revigorado sobre o horizonte sociopolítico nacional.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A capta os dois polos da tensão do poema (dificuldade presente + esperança futura) sem reduzir o sentido a uma leitura literal, econômica ou nostálgica.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz poemas ligados a momentos de repressão política, pedindo o efeito de sentido produzido pela tensão entre linguagem figurada e contexto histórico de produção.
- Generalização: em poesia engajada, desconfie de alternativas que "resolvem" a tensão para um só lado (só otimismo ingênuo, só resignação, só nostalgia) — o texto quase sempre sustenta os dois polos, e a resposta certa nomeia esse equilíbrio.
- Dica de eliminação rápida: corte alternativas que apontam para o passado quando o poema fala de futuro ("saudosista"), e as que tomam ao pé da letra uma metáfora matemática ou reduzem o tema a economia quando o campo semântico é mais amplo.
- Conexões: poesia de resistência na ditadura militar brasileira; recursos de figuração (metáfora, oração concessiva) a serviço da crítica social.
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