Mapa de questões · 1º dia
Questão 77 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
TEXTO I
É muito importante entender que a significatividade do mundo, constituída pelas estruturas linguístico-conceituais, não se reduz a uma significatividade apenas cognitiva. Proporcionar uma significação para o mundo pode também consistir em lidar com ele no sentido do “padecer”.
CABRERA, J. Margens das filosofias da linguagem.
Brasília: UnB, 2003 (adaptado).
TEXTO II
Mundo, mundo, vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo, mundo, vasto mundo
Mais vasto é meu coração.
ANDRADE, C. D. Antologia poética. Rio de Janeiro:
Record, 1996 (fragmento).
Com base nas informações presentes no Texto I, a consideração sobre o mundo no Texto II tem uma significação:
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → filosofia da linguagem; fenomenologia da experiência; diálogo com a poesia (Carlos Drummond de Andrade)
- ⚡ Nível: Difícil — exige articular um conceito filosófico abstrato (significação não cognitiva, o "padecer") com a leitura de um poema, sem que nenhum dos dois textos entregue a resposta pronta
- 🎯 Tema/Habilidade: Funções da significação da linguagem (cognitiva x expressiva) e sua manifestação na experiência poética
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que tipo de significação sobre o mundo o poema de Drummond apresenta, à luz da distinção proposta por Cabrera no Texto I?"
- Palavras-chave decisivas: padecer, significatividade não cognitiva, coração
- Armadilha típica: escolher uma alternativa com palavra "sofisticada" (valorativa, atitudinal) sem checar se ela descreve o que o eu-lírico de fato faz com a linguagem — julgar, comandar ou desejar algo não é o mesmo que manifestar um sentimento vivido.
- O que a resposta precisa demonstrar: nomear com precisão a função da linguagem que o poema realiza e justificar com o motivo certo, coerente com os dois textos.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Significação cognitiva: a linguagem representa, descreve ou explica o mundo como ele objetivamente é — juízos de fato, classificações, argumentos sobre "como as coisas são".
- Significação não cognitiva ("padecer"): para Cabrera, dar sentido ao mundo também pode ser "padecê-lo" — sofrê-lo, senti-lo, vivê-lo na própria pele. É relação de afetação, não de descrição.
- Função expressiva da linguagem: centrada no emissor, não descreve o mundo exterior, mas exterioriza um estado interior — uma vivência (Erlebnis, na tradição fenomenológica).
- Poesia lírica como manifestação subjetiva: o gênero lírico projeta para fora a interioridade de quem enuncia, tornando visível o sentimento por meio da própria linguagem.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "a significatividade do mundo (...) não se reduz a uma significatividade apenas cognitiva (...) pode também consistir em lidar com ele no sentido do 'padecer'" → Cabrera abre espaço para um sentido experiencial, não conceitual: sentir o mundo, ser afetado por ele.
- Evidência 2: "Mundo, mundo, vasto mundo (...) Mais vasto é meu coração" → Drummond não descreve fatos do mundo real; compara sua vastidão à vastidão ainda maior do próprio coração, deslocando o sentido para dentro de si.
- Síntese: o poema ilustra justamente o que Cabrera chama de "padecer" o mundo — o eu-lírico não julga, não representa objetivamente, não comanda nem aspira: ele revela, pela linguagem, o tamanho da própria experiência interior diante do mundo.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a operação que o eu-lírico realiza com a linguagem
O poema não descreve, não julga moralmente, não ordena e não enuncia um desejo específico a alcançar. Ele exterioriza a percepção subjetiva de que o próprio interior ("coração") é mais vasto que o mundo exterior — uma manifestação, não uma representação ou um julgamento.
Subpasso 4.2 — Conectar essa operação ao conceito do Texto I
Cabrera diz que dar sentido ao mundo pode ser "padecê-lo": vivê-lo de modo afetivo, não apenas cognitivo-racional. O verbo indica postura receptiva, de quem é atravessado pela experiência — exatamente o gesto do eu-lírico ao confrontar o "vasto mundo" com o próprio coração. A linguagem do poema funciona, assim, como veículo de uma vivência, não como instrumento de conhecimento objetivo.
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando "expressiva": a linguagem manifesta o interior de quem fala — é o movimento de "Mais vasto é meu coração". O poema exterioriza uma experiência vivida (o "padecer" de Cabrera), sem descrever objetivamente o mundo, sem julgar, sem comandar e sem se resumir a uma aspiração pontual. A alternativa D nomeia corretamente a função em jogo e traz o motivo certo.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Valorativa, porque julga os atos praticados.
❌ Incorreta: significação valorativa emitiria um juízo de valor sobre condutas (certo/errado, bom/mau). O poema não avalia nenhum ato; expressa a desproporção entre a vastidão do mundo e a do próprio sentimento.
B) Imperativa, porque comanda as ações efetivas.
❌ Incorreta: a repetição vocativa "Mundo, mundo" parece interpelação direta, mas não é ordem — não há verbo no imperativo instruindo alguém a agir. A função aqui é manifestar um estado interior, não comandar.
C) Figurativa, porque contempla a realidade objetiva.
❌ Incorreta: inverte o sentido do poema. Em vez de "contemplar a realidade objetiva", o eu-lírico volta-se para dentro de si e afirma que sua interioridade supera a extensão do mundo — movimento subjetivo, não representacional.
D) Expressiva, porque manifesta a experiência vivida.
✅ Correta: única alternativa que identifica com precisão a função da linguagem exercida pelo poema — exteriorizar uma vivência subjetiva (o "padecer" de que fala Cabrera), e não descrever, julgar ou comandar o mundo.
E) Atitudinal, porque alcança as aspirações individuais.
❌ Incorreta: significação atitudinal remeteria a metas ou desejos a realizar no futuro. O poema não formula uma aspiração; expressa um estado de sentimento presente (a vastidão do coração), da ordem da experiência vivida, não do desejo projetado.
🏆 Gabarito: D — o Texto II ilustra poeticamente o "padecer" do Texto I: a linguagem do poema não descreve, julga ou comanda o mundo, mas manifesta a experiência subjetiva vivida pelo eu-lírico diante dele.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: D combina o termo certo ("expressiva") com a justificativa certa ("manifesta a experiência vivida"), espelhando o conceito de "padecer" do Texto I.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma cruzar um texto teórico/filosófico com um texto literário, pedindo que se aplique o conceito abstrato para interpretar a obra — a resposta nunca está pronta em um texto isolado, mas na relação entre eles.
- Generalização: diante de um conceito filosófico seguido de texto literário, pergunte-se: "o eu-lírico está descrevendo, julgando, comandando, desejando ou expressando um sentimento?" Essa pergunta filtra rapidamente a alternativa correta.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que descrevem ações ausentes do texto — sem juízo moral (fora "valorativa"), sem ordem (fora "imperativa"), sem descrição objetiva (fora "figurativa"); entre as restantes, prefira a que fala de vivência presente, não de aspiração futura.
- Conexões: funções da linguagem (Jakobson) — função emotiva/expressiva; fenomenologia da experiência (vivência); Carlos Drummond de Andrade e o lirismo confessional de "Poema de Sete Faces".
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