Mapa de questões · 1º dia
Questão 74 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
Roma foi imaginada e construída, de diferentes maneiras, nos mais distintos lugares e épocas, legitimando ou desautorizando grupos, práticas e políticas. Mas de todos os seus legados, apropriados ou frutos de invenções, a ideia de império e sua perenidade, assim como tudo o que ela acarreta, talvez seja o que mais tenha marcado o Ocidente.
SILVA, G. J. História antiga e usos do passado: um estudo de
apropriações da Antiguidade sob o regime de Vichy (1940-1944).
São Paulo: Annablume; Fapesp, 2007 (adaptado).
Uma apropriação significativa do legado mencionado foi realizada pelo movimento simbolizado no slogan:
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Idade Contemporânea; fascismo italiano; usos políticos do passado clássico
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer cinco slogans de movimentos político-culturais distintos (feminismo, modernismo, sionismo, fascismo, anarquismo) e associar corretamente apenas um deles ao legado do Império Romano
- 🎯 Tema/Habilidade: Apropriação política do passado clássico pelo fascismo italiano (culto ao Império Romano e ao Estado totalitário) — competência de reconhecer como diferentes épocas reinterpretam a Antiguidade para legitimar projetos políticos do presente
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual slogan expressa um movimento que se apropriou da ideia romana de império e de sua perenidade?"
- Palavras-chave decisivas: legado, império, perenidade
- Armadilha típica: confundir "apropriação de um passado histórico" genérico com qualquer slogan de forte carga ideológica, sem perceber que o texto pede especificamente o legado ROMANO e a noção de IMPÉRIO/ESTADO perene — não qualquer reivindicação identitária, territorial ou de gênero.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ligar o conceito de "império romano eterno" ao movimento político do século XX que efetivamente reconstruiu essa mitologia para justificar um Estado total.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Romanità (romanidade) fascista: política cultural do regime de Mussolini (1922-1943) que revivia símbolos, arquitetura, direito e retórica da Roma Antiga para apresentar o fascismo como "renascimento" do Império Romano.
- Fasces (fascio littorio): feixe de varas com um machado, símbolo do poder dos magistrados romanos; deu origem ao próprio nome "fascismo" e virou emblema oficial do regime.
- Totalitarismo: regime político em que o Estado busca controlar todas as esferas da vida social, sem deixar espaço para autonomia individual ou institucional fora de seu domínio.
- Estado como fim em si mesmo: doutrina fascista formulada por Mussolini em La Dottrina del Fascismo (1932), que inverte a lógica liberal (Estado a serviço do indivíduo) e subordina o indivíduo ao Estado.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "a ideia de império e sua perenidade" → aponta para regimes que se apresentaram como continuadores eternos ou renascidos de Roma, não para movimentos culturais, religiosos ou territoriais sem essa referência imperial específica.
- Evidência 2: "legitimando ou desautorizando grupos, práticas e políticas" → indica que o uso do passado romano serviu a propósitos políticos concretos: construir e justificar poder no presente.
- Síntese: o enunciado pede um movimento que converteu o mito do império eterno de Roma em programa de Estado — isso conduz diretamente ao fascismo italiano, que se autoproclamava herdeiro direto da grandeza romana e via no Estado forte e perene a realização desse legado.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o movimento que reivindica Roma
Dentre os cinco slogans, apenas um remete a um regime político que reconstruiu explicitamente símbolos, arquitetura e retórica de Roma Antiga: o fascismo italiano de Benito Mussolini. O próprio nome do movimento vem do fascio littorio, o feixe de varas que os lictores romanos carregavam como símbolo da autoridade dos magistrados — Mussolini adotou esse emblema para afirmar que seu regime restauraria a grandeza e a unidade do antigo Império.
Subpasso 4.2 — Relacionar o slogan ao conceito de "império perene"
O slogan "Tudo no Estado; nada fora do Estado; nada contra o Estado" (do original italiano "Tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato", extraído de La Dottrina del Fascismo, 1932) sintetiza a ideia de um Estado absoluto e totalizante, que não admite limites nem oposição — a mesma lógica do poder imperial romano que Mussolini reivindicava perpetuar. A proclamação do "Império" italiano em 1936, após a invasão da Etiópia, e a reforma urbanística de Roma (a criação do bairro EUR, a abertura da Via dei Fori Imperiali) são provas concretas dessa apropriação: o fascismo não apenas discursava sobre Roma, ele reconstruía fisicamente a cidade para provar continuidade entre o Império Antigo e o Estado fascista.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando com o texto-base — "a ideia de império e sua perenidade... talvez seja o que mais tenha marcado o Ocidente" — o fascismo é o único movimento, entre as opções, que transformou essa perenidade imperial em projeto de Estado total, confirmando a alternativa D como resposta.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) "O privado é público".
❌ Incorreta: slogan associado ao feminismo (variante de "o pessoal é político"), que denuncia relações de poder e opressão de gênero dentro do espaço doméstico — sem relação com o legado imperial romano.
B) "Tupi or not Tupi, that is the question".
❌ Incorreta: verso do Manifesto Antropófago (1928), de Oswald de Andrade, símbolo do Modernismo brasileiro e da "antropofagia cultural" — a devoração criativa da cultura europeia (aqui, Shakespeare) pela identidade indígena/nacional. Trata da formação cultural do Brasil, não do Império Romano.
C) "Uma terra sem povo para um povo sem terra".
❌ Incorreta: slogan histórico do movimento sionista, usado para justificar a colonização judaica da Palestina e a posterior fundação do Estado de Israel — trata de território e nacionalismo judaico, sem vínculo com a romanidade.
D) "Tudo no Estado; nada fora do Estado; nada contra o Estado".
✅ Correta: frase de Mussolini que define o totalitarismo fascista, doutrina que se apropriou explicitamente dos símbolos, do vocabulário (Duce, fascio, império) e da mitologia da eternidade de Roma para legitimar um Estado absoluto no século XX.
E) "Exercer o poder corrompe; submeter-se ao poder degrada".
❌ Incorreta: máxima associada ao pensamento anarquista (atribuída a Mikhail Bakunin), que denuncia o próprio exercício do poder — de qualquer natureza, inclusive estatal — como fonte de corrupção. É o oposto do culto fascista ao Estado forte, logo não expressa apropriação do legado imperial romano.
🏆 Gabarito: D — apenas o fascismo italiano converteu a "ideia de império e sua perenidade" romana em doutrina de Estado totalitário, resumida no slogan de Mussolini.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a letra D é a única alternativa que liga explicitamente o Estado absoluto e perene ao modelo que o fascismo declarava herdar de Roma; as demais tratam de gênero, identidade nacional, território ou crítica ao poder — temas sem relação com o legado imperial romano.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra os "usos do passado" — como diferentes épocas e regimes reinterpretam a Antiguidade (grega ou romana) para legitimar projetos políticos do presente, tema caro à história cultural e à historiografia contemporânea.
- Generalização: sempre que uma questão associar "Roma", "império" e "perenidade/eternidade" a um movimento político do século XX, pense primeiro em fascismo italiano e nazismo alemão — regimes totalitários que construíram mitologias de continuidade com impérios antigos.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara os slogans que falam de "terra", "povo" ou "privado/pessoal" (C e A) — são pistas de nacionalismo territorial ou de gênero, não de império. Entre as três restantes, busque a que fala em "Estado" — só ela remete a poder estatal absoluto, marca registrada do fascismo.
- Conexões: compare com o nazismo alemão (mito da "raça ariana" e do "Terceiro Reich" como sucessor do Sacro Império Romano-Germânico) e com o conceito de "Terceira Roma" reivindicado pela Rússia czarista — outros exemplos de apropriação política do mito da Roma eterna.
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