Mapa de questões · 1º dia
Questão 71 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
TEXTO I
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati
FIRMINO, D. et al. História pra ninar gente grande.
In: Sambas-Enredo 2019. Rio de Janeiro:
Universal Music, 2018 (fragmento).
TEXTO II
Prático do porto de Fortaleza, Chico da Matilde teve um importante papel no abolicionismo do Ceará ao liderar, em 1881, seus companheiros jangadeiros que se recusaram a embarcar os escravizados que seriam enviados às províncias do Sul. O Ceará seria a primeira província brasileira a abolir a escravidão, em 1884, quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea. Na ocasião, Chico da Matilde embarcou para o Rio de Janeiro, junto com ele levou uma de suas jangadas, nomeada Liberdade. A recepção e as comemorações abolicionistas na Corte ajudaram a consolidar a alcunha de Dragão do Mar.
BOUZADA, M. A. Em 1881, o Dragão do Mar impediu o
tráfico de escravos. Disponível em: www.bn.gov.br.
Acesso em: 8 nov. 2021 (adaptado).
As abordagens dos textos I e II se complementam por ressaltarem que o fator essencial para o sucesso do processo abolicionista no Brasil foi a
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História do Brasil → Segundo Reinado e abolicionismo popular
- ⚡ Nível: Médio — exige cruzar dois textos de linguagens diferentes (letra de samba-enredo e texto jornalístico/biográfico) para inferir um conceito histórico, e não apenas identificar informação explícita
- 🎯 Tema/Habilidade: Movimento abolicionista brasileiro e o protagonismo popular na conquista da liberdade — competência de leitura crítica de fontes históricas e superação da narrativa oficial
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que os dois textos, juntos, apontam como a verdadeira causa do fim da escravidão no Brasil?"
- Palavras-chave decisivas: se complementam, fator essencial, sucesso do processo abolicionista
- Armadilha típica: associar automaticamente "abolição" a "lei" (Lei Áurea, 1888) e marcar a alternativa que fala em norma jurídica ou ação do Estado, ignorando que os próprios textos negam explicitamente essa leitura
- O que a resposta precisa demonstrar: que o(a) candidato(a) entendeu que ambos os textos deslocam o protagonismo da abolição da Coroa/Estado para a ação organizada da população
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Narrativa oficial da abolição: versão escolar tradicional que atribui o fim da escravidão a Dom Pedro II e à Princesa Isabel, como um "presente" concedido de cima para baixo, coroado pela Lei Áurea de 1888.
- Abolicionismo popular: movimento social que precede e pressiona a legislação — imprensa abolicionista, sociedades de libertos, quilombos, fugas coletivas e, no caso cearense, a paralisação dos jangadeiros que se recusaram a transportar escravizados para os navios negreiros.
- Dragão do Mar (Francisco José do Nascimento): jangadeiro cearense que, em 1881, liderou seus companheiros no boicote ao embarque de escravizados no porto de Fortaleza; símbolo maior de que a abolição no Ceará (1884) nasceu da mobilização de trabalhadores livres e não de uma concessão institucional.
- Ceará como "Terra da Luz": primeira província a abolir a escravidão (1884), quatro anos antes da Lei Áurea — prova histórica de que a liberdade podia ser conquistada por pressão popular, independentemente da legislação nacional.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Não veio do céu / Nem das mãos de Isabel" → o samba-enredo nega, de forma direta, as duas explicações mais divulgadas para a abolição: a intervenção divina/providencial e o gesto pessoal da Princesa Isabel.
- Evidência 2: "seus companheiros jangadeiros que se recusaram a embarcar os escravizados" → o texto biográfico mostra a abolição sendo construída por trabalhadores comuns, em ação coletiva e organizada, e não por uma autoridade política.
- Síntese: os dois textos, em linguagens distintas (poética e narrativa histórica), convergem para a mesma ideia: a liberdade foi conquistada por baixo, pela ação coordenada de pessoas comuns — ou seja, por mobilização social, não por lei, técnica ou decisão estatal.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o que cada texto nega
O Texto I começa negando duas origens: "não veio do céu" (não foi um dom natural ou divino) e "nem das mãos de Isabel" (não foi um gesto de benevolência da família real). Ao negar essas duas explicações, o verso já sinaliza que a resposta correta deve apontar para uma origem alternativa: a ação humana coletiva, simbolizada pelo "dragão no mar de Aracati" — referência direta ao Dragão do Mar.
Subpasso 4.2 — Identificar o que o Texto II afirma positivamente
O Texto II não fala em leis, tribunais ou decisões do Império. Ele narra um episódio concreto: em 1881, jangadeiros liderados por Chico da Matilde (o Dragão do Mar) se recusaram a embarcar escravizados destinados ao tráfico interprovincial. Essa recusa coletiva, somada à mobilização abolicionista que se seguiu, resultou na abolição da escravidão no Ceará em 1884 — três anos antes de qualquer lei nacional determinar isso.
Subpasso 4.3 — Verificação: cruzando os dois textos
Se o Texto I nega a origem "de cima" (Isabel, o céu) e o Texto II mostra a origem "de baixo" (jangadeiros organizados recusando trabalho), a única leitura que une as duas evidências sem contradição é: o fator essencial foi a ação coletiva e organizada da sociedade civil — isto é, mobilização social. Nenhuma das outras opções (jurídica, náutica, laboral, estatal) é sustentada simultaneamente pelos dois textos.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) inovação jurídica.
❌ Incorreta: remete à ideia de lei (como a Lei Áurea), exatamente o que o Texto I rejeita ao dizer que a liberdade "não veio das mãos de Isabel" — figura associada à assinatura da lei abolicionista nacional.
B) mobilização social.
✅ Correta: é o único conceito sustentado pelos dois textos ao mesmo tempo — a negação da origem oficial (Texto I) e a demonstração da ação coletiva dos jangadeiros (Texto II) apontam para a organização popular como motor da abolição.
C) habilitação náutica.
❌ Incorreta: confunde a profissão dos sujeitos históricos (jangadeiros, prático de porto) com a causa do processo abolicionista. O saber náutico foi o meio pelo qual a recusa se tornou possível, mas não é o que os textos apontam como fator essencial — o essencial é a decisão coletiva de recusar o trabalho, não a técnica de navegar.
D) qualificação laboral.
❌ Incorreta: mesmo raciocínio da alternativa C — foca numa competência técnica individual, quando os textos destacam uma ação política coletiva. Não há, em nenhum dos dois textos, valorização de "qualificação" como causa da abolição.
E) organização estatal.
❌ Incorreta: é o oposto do que os textos defendem. O Texto I nega explicitamente a origem institucional/oficial ("não veio... das mãos de Isabel"), e o Texto II mostra que a abolição cearense antecedeu e pressionou o Estado, não o contrário.
🏆 Gabarito: B — os textos I e II se complementam ao mostrar que a liberdade não foi concedida pelo Estado ou pela Coroa, mas conquistada pela mobilização social organizada dos jangadeiros cearenses liderados pelo Dragão do Mar.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas "mobilização social" é confirmada simultaneamente pela negação do Texto I (não veio de cima) e pela narrativa de ação coletiva do Texto II (jangadeiros organizados) — as demais alternativas isolam um detalhe (profissão, técnica, Estado, lei) e ignoram a articulação entre os dois textos.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente contrapõe a "história oficial" (heróis, leis, datas comemorativas) à "história vista de baixo" (movimentos populares, sujeitos comuns, resistência cotidiana) — questões sobre abolição, república e cidadania costumam valorizar essa segunda perspectiva.
- Generalização: sempre que o comando pedir o que "complementa" dois textos de naturezas diferentes (um poético/cultural e outro documental/histórico), busque o conceito comum às duas evidências, não o detalhe exclusivo de apenas um deles.
- Dica de eliminação rápida: elimine de imediato qualquer alternativa que remeta a "lei", "Estado" ou "governo" quando o texto-base começar negando a autoria oficial de um processo histórico — é armadilha clássica para quem lembra apenas do nome "Lei Áurea".
- Conexões: Revolta dos Malês, quilombo dos Palmares, imprensa abolicionista (Luiz Gama, José do Patrocínio) e o conceito de "protagonismo negro" na historiografia contemporânea sobre a abolição.
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