Mapa de questões · 1º dia
Questão 28 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
33ª poética
estou farta da materialidade embrulhada do signo
da metalinguagem narcísica dos poetas
do texto de espelho em punho revirando os óculos
modernos
estou farta dessa falta enxuta
dessa ausência de objetos rotundos e contundentes
do conluio entre cifras e cifrantes
da feminil hora quieta da palavra
da lista (política raquítica sifilítica) de supersignos
cabais: “duro ofício”, “espaço em branco”, “vocábulo delirante”,
“traço infinito”
quero antes
a página atravancada de abajures
o zoológico inteiro caindo pelas tabelas
a sedução os maxilares
o plágio atroz
ratas devorando ninhadas úmidas
multidões mostrando as dentinas
multidões desejantes
diluvianas
bandos ilícitos fartos excessivos pesados e
bastardos
a pecar e por cima
os cortinados do pudor
vedando tudo
com goma
de mascar
Recorrendo à intertextualidade e à metalinguagem, esse poema expande os referentes da poética de Manuel Bandeira ao
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → poesia moderna e contemporânea; intertextualidade com Manuel Bandeira; recursos de estilo (metalinguagem, estilização/paródia)
- ⚡ Nível: Difícil — exige reconhecer o poema "Poética", de Manuel Bandeira, como hipotexto implícito e diferenciar o efeito estético central (imagem desconcertante) de leituras plausíveis, mas secundárias, como identidade de gênero ou criação lexical
- 🎯 Tema/Habilidade: Intertextualidade e metalinguagem na poesia; leitura crítica de recursos expressivos do texto literário (Enem — competência de linguagem: reconhecer e analisar diferentes recursos expressivos empregados na produção de textos poéticos)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "De que modo o poema, dialogando com a poética de Manuel Bandeira, amplia os elementos que essa tradição costuma tratar?"
- Palavras-chave decisivas: expande os referentes, intertextualidade, metalinguagem
- Armadilha típica: interpretar a marca de gênero "estou farta" e a crítica à "feminil hora quieta da palavra" como se o poema estivesse construindo uma tese sobre identidade de gênero (alternativa D), quando esse traço é apenas um dos elementos citados e rejeitados dentro de um projeto estético maior
- O que a resposta precisa demonstrar: que o poema preserva a estrutura herdada — o gênero "poética", consagrado por Bandeira como poema-manifesto sobre o fazer poético — mas insere nesse espaço tradicional um repertório novo de imagens chocantes, excessivas e viscerais
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Poética (gênero literário): poema em que o eu lírico declara, em tom de manifesto, do que gosta e do que rejeita em matéria de poesia. Manuel Bandeira consagrou esse formato em "Poética" (1930): "Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem comportado (...) / Quero antes o lirismo dos loucos / O lirismo dos bêbedos / O lirismo difícil e pungente dos bêbedos".
- Intertextualidade (estilização): diálogo entre textos em que um poema retoma a estrutura, o léxico ou a cadência de outro para atualizá-lo. Aqui, "estou farta" ecoa deliberadamente o "estou farto" de Bandeira, sinalizando ao leitor competente que se trata de uma releitura consciente do cânone modernista.
- Metalinguagem: a poesia que fala sobre o próprio fazer poético. Tanto o poema de Bandeira quanto este operam nesse nível — mas o poema em análise vai além, criticando explicitamente a "metalinguagem narcísica dos poetas" como um vício a ser superado.
- Imagem de efeito desconcertante: recurso que provoca estranhamento e impacto por aproximar elementos violentos, corporais ou grotescos de forma direta e concreta, rompendo a expectativa de contenção lírica sem recorrer a ambiguidade vaga.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "estou farta da materialidade embrulhada do signo / da metalinguagem narcísica dos poetas" → retoma a estrutura anafórica de Bandeira ("estou farto") e rejeita, de saída, a poesia excessivamente conceitual, autorreferente e comedida — o mesmo alvo que Bandeira já mirava, agora atualizado para o vocabulário crítico-teórico contemporâneo ("cifras e cifrantes", "supersignos cabais").
- Evidência 2: "quero antes / a página atravancada de abajures / o zoológico inteiro caindo pelas tabelas (...) ratas devorando ninhadas úmidas / multidões mostrando as dentinas" → em vez de imagens contidas, o eu lírico propõe cenas hiperconcretas, sensoriais, violentas e excessivas — um catálogo de imagens que choca justamente por sua materialidade crua.
- Síntese: o poema usa a moldura herdada do gênero "poética" (a estrutura de manifesto que Bandeira consolidou) para, dentro desse mesmo espaço tradicional, introduzir um repertório visual radicalmente novo — grotesco, animalesco, erótico e caótico — que produz efeito de choque e estranhamento no leitor.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o hipotexto e a estrutura herdada
O poema "33ª poética" cita, pelo próprio título e pela construção sintática, o gênero que Bandeira imortalizou. A estrutura é a mesma: uma primeira parte de rejeição ("estou farta de...") seguida de uma segunda parte de afirmação do que se deseja ("quero antes..."). Essa moldura — o "espaço do repertório tradicional" mencionado na alternativa correta — não é abandonada; é justamente o palco sobre o qual o poema constrói sua novidade.
Subpasso 4.2 — Mapear o gesto de expansão temática
Onde Bandeira, em 1930, já rompia com o lirismo "bem comportado" propondo o lirismo "dos bêbedos" e "dos clowns de Shakespeare", o poema de 2024 radicaliza esse gesto: as imagens propostas — zoológico caindo pelas tabelas, ratas devorando ninhadas úmidas, multidões mostrando os dentes, bandos "ilícitos fartos excessivos pesados e bastardos" — são explicitamente corporais, violentas e sexualizadas, indo além do que a tradição modernista havia ousado. Isso é exatamente "introduzir imagens de efeito desconcertante" dentro de um espaço já consagrado.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando a síntese com as cinco alternativas, apenas uma reúne os dois elementos identificados nos Passos 1 a 3: (i) permanência no repertório/gênero tradicional herdado de Bandeira e (ii) inserção de imagens que desconcertam pelo excesso e pela violência. Esse cruzamento aponta com precisão para a alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) reiterar a importância da tradição inaugurada pela primeira geração modernista.
❌ Incorreta: o poema não apenas reitera a tradição — ele a tensiona e a ultrapassa. Embora dialogue com Bandeira, sua proposta é justamente romper com a "metalinguagem narcísica" e propor imagens que a poética modernista de 1930 não chegou a explorar nesse grau de violência e excesso.
B) optar por uma linguagem de sentido impreciso, marcando o afastamento do leitor.
❌ Incorreta: as imagens do poema são hiperconcretas e sensoriais — ratas, dentina, ninhadas úmidas, zoológico caindo pelas tabelas. É exatamente o oposto de linguagem vaga: o poema busca impacto direto e proximidade brutal com o leitor, não distanciamento por imprecisão.
C) propor novos níveis de possibilidades semânticas, por meio de neologismos.
❌ Incorreta: o poema praticamente não cria palavras novas. Termos como "supersignos cabais" aparecem entre aspas justamente como citação do jargão que o eu lírico rejeita, não como neologismos autorais. A estratégia central é imagética, não lexical.
D) configurar uma poesia identitária, demarcada pela manifestação de gênero.
❌ Incorreta: embora o poema use a flexão feminina ("farta") e mencione a "feminil hora quieta da palavra", esse traço aparece dentro da lista do que é rejeitado, não como afirmação de uma identidade de gênero enquanto eixo temático central. O foco do poema é o embate estético entre poesia contida e poesia excessiva, não a construção de uma poética identitária.
E) introduzir, no espaço do repertório tradicional, imagens de efeito desconcertante.
✅ Correta: o poema preserva a estrutura consagrada por Bandeira (o gênero "poética") e, dentro desse espaço já legitimado pela tradição, insere um catálogo de imagens grotescas, violentas e excessivas que chocam o leitor — exatamente o gesto de expansão dos referentes exigido pelo comando.
🏆 Gabarito: E — o poema mantém a forma-manifesto herdada de Manuel Bandeira, mas expande seus referentes ao substituir a contenção lírica por imagens desconcertantes, corporais e excessivas.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E combina permanência estrutural (o gênero "poética" de Bandeira) com a novidade temática do poema (imagens de choque), que é exatamente o que o comando pede ao falar em "expandir referentes".
- Padrão de cobrança: o Enem frequentemente testa o diálogo entre poetas contemporâneos e o cânone modernista, pedindo que o candidato identifique o que permanece (forma, gênero, estrutura) e o que é inovado (tema, imagem, tom) em um processo de estilização ou paródia.
- Generalização: quando uma questão pergunta como um texto "expande" ou "atualiza" os referentes de uma obra canônica, procure sempre dois movimentos simultâneos — o que o texto conserva da tradição e o que ele acrescenta de novo — pois a resposta correta costuma articular os dois.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro B e C, pois exigem respectivamente vagueza e criação lexical, ausentes num poema de imagens concretas e vocabulário corrente; depois, compare A e D com E — A erra por ignorar a ruptura, D erra por elevar um detalhe (a marca de gênero) a tema central quando o eixo do poema é imagético.
- Conexões: "Poética" e "Pneumotórax", de Manuel Bandeira; a tradição do poema-manifesto na poesia brasileira; recursos de estilização e paródia como formas de diálogo entre poetas de diferentes gerações.
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