Mapa de questões · 1º dia
Questão 35 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
Irmãos em livros
Outro dia, num táxi, o motorista me disse que “gostava de ler” e “comprava muitos livros”. Dei-lhe parabéns e perguntei qual era sua livraria favorita. Respondeu que “gostava de todas”, mas, de há alguns anos, só comprava livros pela internet. Ah, sim? Comentei que também gostava de todos os táxis, mas, a partir dali, passaria a andar só de transporte por aplicativo. Ele diminuiu a marcha, como se processasse a informação. Virou-se para mim e disse: “Entendi. O senhor tem razão.”.
Nessa crônica, a ironia é utilizada com o objetivo de
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → interpretação de texto, gênero crônica, figuras de linguagem (ironia)
- ⚡ Nível: Médio — exige perceber a analogia implícita entre dois campos (livrarias/e-commerce e táxi/aplicativo) para identificar a intenção crítica da fala irônica do narrador.
- 🎯 Tema/Habilidade: Efeitos de sentido da ironia em textos narrativos curtos; leitura de recursos expressivos em gêneros literários.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é o objetivo comunicativo da ironia usada pelo cronista nesse diálogo com o taxista?"
- Palavras-chave decisivas: ironia, objetivo, crônica
- Armadilha típica: achar que o cronista zomba da inteligência do taxista (levaria à B) ou que o texto fala de transporte público (levaria à C), quando o foco real é o comportamento de consumo que o próprio taxista revela sem perceber.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a ironia funciona como espelho — o cronista repete a lógica do taxista em outro contexto (táxi x aplicativo) para expor a contradição do comportamento dele mesmo (livraria x internet).
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Crônica: gênero híbrido entre narrativa e reflexão, breve, que parte de um episódio cotidiano (a corrida de táxi) para uma observação mais ampla sobre comportamentos sociais.
- Ironia: recurso discursivo em que se diz algo com sentido diferente (muitas vezes oposto) do literal, produzindo efeito crítico ao expor uma contradição do interlocutor.
- Analogia como estratégia argumentativa: o cronista cria uma situação paralela ("gostava de todos os táxis, mas só usaria aplicativo") estruturalmente idêntica à fala do taxista ("gostava de todas as livrarias, mas só comprava pela internet"), para que ele reconheça, no espelho, a própria incoerência.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Respondeu que 'gostava de todas', mas, de há alguns anos, só comprava livros pela internet." → afeto declarado por livrarias físicas, mas compra inteiramente deslocada para o comércio eletrônico.
- Evidência 2: "Comentei que também gostava de todos os táxis, mas, a partir dali, passaria a andar só de transporte por aplicativo." → o cronista devolve a mesma estrutura lógica do taxista, agora aplicada à profissão dele, tornando a contradição palpável.
- Síntese: a fala do cronista não trata de táxis ou aplicativos em si; é ironia por espelhamento para revelar que dizer "gostar" de um comércio físico enquanto se abandona esse comércio na prática é uma contradição comum. O gesto final do taxista ("Entendi. O senhor tem razão.") confirma que a ironia atingiu seu alvo.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o mecanismo da ironia
A ironia aqui não é uma frase isolada de sentido invertido (como "que ótimo!" numa situação ruim), mas uma analogia irônica: o cronista imita a estrutura do discurso do taxista, trocando apenas o objeto (livrarias → táxis; internet → aplicativo). Ele não ataca o taxista pessoalmente, nem debate transporte público ou livros impressos — usa a própria lógica do interlocutor contra ele, como um espelho que expõe a contradição.
Subpasso 4.2 — Localizar o alvo da crítica
Se a fala espelhada faz sentido também para os táxis — que enfrentam a concorrência dos aplicativos como as livrarias enfrentam a do e-commerce —, o efeito é generalizar o problema: não é um caso isolado do taxista, mas um padrão do consumidor médio, que declara apreço por um comércio físico e tradicional, mas na prática migra o consumo para plataformas digitais, enfraquecendo aquilo que diz valorizar. Esse padrão de consumo — e sua mudança silenciosa — é o que a ironia expõe para criticar.
Subpasso 4.3 — Verificação
A reação do taxista ("Entendi. O senhor tem razão.") confirma textualmente que ele reconheceu, via analogia, a mesma contradição em sua própria fala sobre livrarias. Isso reforça que o efeito pretendido foi expor uma autocrítica sobre a mudança no padrão de consumo — não elogiar, não debater transporte público, não desqualificar livros impressos e não promover e-commerce. A alternativa que sintetiza esse efeito é a A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) criticar a mudança no padrão de consumo dos leitores.
✅ Correta: é o alvo da ironia — expor, pela analogia entre livrarias/internet e táxis/aplicativo, a contradição de quem diz valorizar o comércio físico mas migrou o consumo para o digital.
B) valorizar o nível de informação dos motoristas de táxi.
❌ Incorreta: a ironia tem função crítica, não elogiosa. Não há intenção de elogiar conhecimento ou cultura do taxista; sua fala sobre "gostar de ler" é apenas o gatilho da situação.
C) questionar a oferta do transporte público no país.
❌ Incorreta: o texto não trata de transporte público (ônibus, metrô); "táxi" e "aplicativo" servem só como espelho analógico para a questão das livrarias, não como crítica à mobilidade urbana.
D) contestar a qualidade dos livros impressos.
❌ Incorreta: a crônica não questiona o produto (o livro), mas o canal de compra (livraria física versus internet); a discussão é sobre hábito de consumo, não sobre a qualidade do objeto livro.
E) estimular o comércio eletrônico de livros.
❌ Incorreta: é o oposto do efeito pretendido — a ironia não incentiva a compra online, ela denuncia, sutilmente, as consequências desse hábito para o comércio físico que o consumidor diz apreciar.
🏆 Gabarito: A — a ironia funciona como espelho retórico: ao aplicar a mesma lógica contraditória do taxista (gostar de livrarias, mas comprar só pela internet) ao próprio ofício dele (gostar de táxis, mas usar só aplicativo), o cronista expõe e critica a mudança no padrão de consumo que abandona o comércio físico em favor do digital.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A nomeia com precisão o efeito de sentido da ironia — crítica ao comportamento de consumo que despreza, na prática, aquilo que se afirma valorizar no discurso.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma usar crônicas curtas com diálogos cotidianos para testar a leitura de recursos irônicos; a pegadinha típica é confundir o assunto de superfície (táxi, aplicativo) com o verdadeiro alvo crítico (o hábito de consumo do interlocutor).
- Generalização: em ironia por analogia, pergunte "o que o autor quer que o leitor perceba sobre o comportamento de alguém?" — a resposta certa nomeia esse comportamento, não o cenário superficial em que ele aparece.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que tomam o cenário literal (transporte público, qualidade de livros) como tema central — ironias por espelhamento falam do comportamento revelado, não do objeto citado por último.
- Conexões: figuras de linguagem em textos literários; crítica social na crônica contemporânea.
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