Mapa de questões · 1º dia
Questão 16 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
O valente Romano
Não rolaram pelo chão, machucando-se nas pedras, como fazem os guerreiros. Nem esmurraram-se as bocas. Num tempo que não tem medida, sentiram o calor e o cheiro que cada um exalava. Olhavam o céu procurando resposta e nada estava escrito. Teriam eles mesmos de inventar a sentença para o encontro.
Derrotados pela certeza de que gostariam de nunca romper o abraço, desvencilharam-se, bruscamente. De cabeças baixas, guardaram o silêncio que apenas os homens de coragem conhecem.
— Vá embora! — suplicou Romano.
Anselmo Dantas experimentou um derradeiro impulso de partir em cima do inimigo, mas duvidou se queria matá-lo ou retê-lo junto ao peito. Virou as costas e desapareceu na escuridão. Um galho de baraúna e um laço de corda de agave eram a única luz que seus olhos enxergavam.
BRITO, R. C. Faca. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
Nesse fragmento, a tensão da luta corporal entre os personagens desdobra-se na consciência com que cada um
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → interpretação de narrativa literária; análise da interioridade dos personagens
- ⚡ Nível: Médio — o texto não descreve diretamente os sentimentos dos personagens; é preciso inferir, a partir de gestos e sensações físicas, o conflito psicológico entre desejo e recusa
- 🎯 Tema/Habilidade: Leitura de prosa contemporânea brasileira com foco no conflito entre ação exterior (a luta) e consciência interior (o afeto reprimido) — competência de leitura e interpretação de textos literários
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que a mente de cada personagem revela, durante e depois do confronto físico, sobre aquilo que sentem um pelo outro?"
- Palavras-chave decisivas: desdobra-se na consciência, derrotados pela certeza, duvidou se queria matá-lo ou retê-lo
- Armadilha típica: ler a cena apenas no nível da ação (dois homens brigando e depois parando) e escolher uma alternativa que fale só de "calma" ou "desistência da violência" (D), ignorando que o texto insiste em um sentimento que os personagens sentem e depois reprimem.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a consciência dos personagens não é neutra — ela primeiro percebe algo (um sentimento forte, quase incontrolável) e, em seguida, o recusa deliberadamente.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Narração com acesso à interioridade: o narrador em 3ª pessoa entra na mente dos personagens ("duvidou se queria matá-lo ou retê-lo junto ao peito"), revelando pensamentos que a ação física sozinha não mostraria.
- Contaminação entre violência e afeto: o combate corporal é descrito com o vocabulário do abraço ("romper o abraço", "retê-lo junto ao peito"), sinal de que o embate físico produz, paradoxalmente, proximidade e ternura entre os rivais.
- Sentimento imperioso: um impulso emocional tão forte que se impõe à vontade racional dos personagens — aqui, o desejo de permanecer unidos —, e que por isso precisa ser ativamente combatido (renegado) para que a lógica do duelo (a separação, a partida) prevaleça.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "sentiram o calor e o cheiro que cada um exalava" → o contato de luta se transforma em percepção sensorial íntima; o corpo do inimigo passa a ser sentido, não apenas atacado.
- Evidência 2: "Derrotados pela certeza de que gostariam de nunca romper o abraço" → confissão indireta: os dois reconhecem, ainda que a contragosto ("derrotados"), que desejam continuar abraçados — o sentimento imperioso está identificado com clareza.
- Evidência 3: "desvencilharam-se, bruscamente" e "Vá embora! — suplicou Romano" → o verbo "suplicou" (não "ordenou") mostra que romper o abraço dói; é um ato de negação forçada, não de indiferença.
- Evidência 4: "duvidou se queria matá-lo ou retê-lo junto ao peito. Virou as costas e desapareceu" → Anselmo Dantas hesita entre os dois extremos (matar ou reter/abraçar) e resolve a dúvida indo embora, ou seja, recusando o sentimento sem consumar nenhum dos dois impulsos.
- Síntese: em todos os trechos há o mesmo padrão de dois tempos: primeiro o personagem percebe/sente algo poderoso que o atrai ao outro; depois, ativamente, ele o nega e se afasta. É exatamente esse movimento duplo — reconhecer e depois renegar — que a resposta correta precisa nomear.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o que o comando pede
O enunciado não pergunta "o que os personagens fazem", mas "com que consciência" a tensão da luta "se desdobra". Isso desloca o foco da ação física (rolar no chão, esmurrar) para o plano mental: o que cada um percebe e decide internamente enquanto/depois de lutar.
Subpasso 4.2 — Rastrear o movimento de reconhecimento
O texto mostra, em sequência, a percepção sensorial do outro (calor, cheiro), a certeza de um desejo compartilhado (não romper o abraço) e a dúvida entre matar ou reter junto ao peito. Esses três momentos formam a etapa de reconhecimento: os personagens tomam consciência de um sentimento forte — de afeto, atração ou identificação — que a lógica do duelo não previa.
Subpasso 4.3 — Rastrear o movimento de recusa (verificação)
Logo após cada reconhecimento, vem um gesto de ruptura: "desvencilharam-se, bruscamente"; a súplica "Vá embora!"; Anselmo "virou as costas e desapareceu". Nenhum dos dois cede ao sentimento — ambos o renegam, isto é, o recusam conscientemente, ainda que ele continue latente ("de cabeças baixas, guardaram o silêncio"). Ao confrontar esse resultado com as cinco alternativas, apenas a opção B nomeia com precisão os dois tempos identificados: reconhecer (perceber o sentimento) e renegar (negá-lo em seguida).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) procura descobrir e atacar as fraquezas do adversário.
❌ Incorreta: não há, em nenhum momento, descrição de cálculo estratégico ou busca por pontos fracos do outro; a cena é sensorial e emocional (calor, cheiro, abraço), não tática.
B) reconhece e renega a força de um sentimento imperioso.
✅ Correta: os personagens percebem um sentimento que se impõe a eles (o desejo de não romper o abraço, a dúvida entre matar ou reter) e, em seguida, o recusam de forma deliberada e brusca, o que corresponde exatamente ao par "reconhece" + "renega".
C) admite a culpa por seus crimes e cede ao impulso de morte.
❌ Incorreta: não há qualquer menção a crimes ou confissão de culpa; além disso, o impulso homicida de Anselmo é contido, não consumado — ele não cede a ele, ao contrário do que a alternativa afirma.
D) recompõe a calma e desiste da violência do confronto físico.
❌ Incorreta: a cena está longe de "calma" — há súplica, dúvida angustiante e ruptura brusca; reduzir o desfecho a uma simples desistência pacífica ignora a tensão emocional que o texto constrói entre desejo e recusa.
E) percebe o impasse da situação e espera pelo momento oportuno.
❌ Incorreta: não há espera estratégica nem adiamento do confronto para "momento oportuno"; o que ocorre é uma resolução definitiva (a partida de Anselmo), motivada pela negação do sentimento, não por cálculo de timing.
🏆 Gabarito: B — apenas essa alternativa capta o duplo movimento da consciência dos personagens: primeiro perceber um sentimento poderoso e inesperado (o desejo de permanecer unidos), depois recusá-lo ativamente para que a separação e a partida se cumpram.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que nomeia tanto a percepção do sentimento (calor, cheiro, certeza do desejo de abraço) quanto a sua recusa consciente (desvencilhar-se, suplicar que o outro vá embora, virar as costas), sem reduzir a cena a tática (A, E), culpa (C) ou simples calma (D).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra, na prosa contemporânea brasileira, questões que pedem a leitura do plano psicológico dos personagens — o que sentem e escondem — em contraste com o que fazem fisicamente na superfície do texto.
- Generalização: quando o comando menciona "consciência", "interioridade" ou "o que revela sobre os personagens", procure verbos e trechos ligados a sentir, duvidar, hesitar — não apenas a ações físicas descritas no enredo.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que descrevem cálculo ou estratégia externa (A e E, sem respaldo no texto) e depois as que atribuem categorias morais/emocionais não sustentadas (C — culpa; D — calma); sobra a única que fala em sentimento reconhecido e negado.
- Conexões: ficção nordestina contemporânea (Ronaldo Correia de Brito), masculinidades e código de honra no sertão, narrativa de fluxo de consciência.
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