Mapa de questões · 1º dia
Questão 47 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
Então, a arte urbana — a arte das catedrais — extraiu dos campos vizinhos o principal alimento de seu crescimento, e foram os esforços de inumeráveis pioneiros, desmatadores, plantadores de cepos, construtores de valas e de diques que, no êxito de uma imensa expansão produtiva, levaram à sua realização. Tendo como cenário novas colheitas e jovens vinhedos, ergueram-se as torres de Laon: esculpida na pedra, a figura dos bois de trabalho as coroa; nos capitéis de todas as catedrais florescem ramos de videiras. As fachadas de Amiens e de Paris representam o ciclo das estações por meio da imagem dos trabalhos do campo. Justa celebração: esse cultivador que afia sua foice, esse vinhateiro que talha, capina, ou faz suas mudas, com o trabalho, fizeram com que da terra brotasse o monumento. Ele é o fruto do campo, ou seja, de seu trabalho.
O texto traz uma reflexão sobre o patrimônio artístico urbano medieval e o seu desenvolvimento, relacionado com a(s)
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Baixa Idade Média; revolução agrícola medieval; arte gótica e urbanização
- ⚡ Nível: Médio — o texto (Georges Duby) usa linguagem literária e simbólica, exigindo que o candidato traduza imagens ("bois de trabalho", "ramos de videiras") em um conceito histórico
- 🎯 Tema/Habilidade: Relação entre excedente agrícola, renascimento urbano e produção artística medieval — competência de leitura e contextualização histórica (H6/H19 da matriz de Ciências Humanas)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A origem e o crescimento da arte urbana das catedrais medievais estão associados a qual base econômica e social?"
- Palavras-chave decisivas: "extraiu dos campos vizinhos o principal alimento de seu crescimento", "desmatadores, plantadores de cepos", "bois de trabalho" e "ramos de videiras" esculpidos, "ciclo das estações" e "trabalhos do campo"
- Armadilha típica: associar "catedral" automaticamente à Igreja enquanto instituição religiosa (levando à alternativa B, ordens monásticas) sem perceber que o texto fala do trabalho agrícola leigo — camponeses, vinhateiros, desmatadores — como fonte material da riqueza urbana
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a pujança artística urbana (catedrais góticas) nasceu de um excedente produzido no campo, e não de outra atividade econômica ou social
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Revolução agrícola medieval (séculos XI–XIII): conjunto de inovações técnicas — arado pesado de aiveca, ferradura de cavalo, moinho de água e vento, sistema de rotação trienal de culturas — que aumentou a produtividade da terra e permitiu desmatamentos e a incorporação de novas áreas de cultivo.
- Excedente agrícola e renascimento urbano: o aumento da produção liberou parte da população do trabalho no campo e gerou sobra de alimentos, o que alimentou o crescimento das cidades (burgos), o comércio e, por consequência, obras monumentais como as catedrais góticas.
- Arte gótica como espelho da sociedade: esculturas, vitrais e relevos das catedrais (Laon, Amiens, Paris) não retratam apenas temas religiosos; também narram o calendário agrícola e o trabalho camponês, funcionando como uma "enciclopédia visual" da vida medieval, inclusive para uma população majoritariamente analfabeta.
- Trabalho camponês como base material da civilização urbana: o texto do historiador francês Georges Duby (referência clássica sobre economia rural medieval) inverte a ideia de que a cidade é autossuficiente, mostrando que ela "brota" do campo — é "fruto" do trabalho agropecuário.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "a arte urbana — a arte das catedrais — extraiu dos campos vizinhos o principal alimento de seu crescimento" → afirma explicitamente que a fonte de sustento e expansão da arte urbana está no campo, não na cidade em si.
- Evidência 2: "esculpida na pedra, a figura dos bois de trabalho as coroa; nos capitéis de todas as catedrais florescem ramos de videiras" e "as fachadas de Amiens e de Paris representam o ciclo das estações por meio da imagem dos trabalhos do campo" → mostra que a própria iconografia das catedrais celebra atividades agropecuárias (boi de arado, cultivo da vinha, colheitas), tornando o campo tema central da arte urbana.
- Síntese: o texto encadeia causa (trabalho agrícola gera excedente e riqueza) e efeito/representação (esse trabalho é celebrado esculpido nas próprias catedrais), de modo que o desenvolvimento do patrimônio artístico urbano medieval está diretamente ligado à cultura agropecuária.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o sujeito histórico do texto
O trecho não fala de reis, bispos ou mercadores como protagonistas do crescimento das catedrais. Ele nomeia explicitamente "pioneiros, desmatadores, plantadores de cepos, construtores de valas e de diques" — ou seja, trabalhadores rurais envolvidos em desmatamento, plantio de vinhas ("cepos" são as mudas/troncos da videira) e obras de drenagem de terras. Esses são agentes da expansão agrícola medieval, fenômeno amplamente estudado como parte da "Renascença Comercial e Urbana" dos séculos XI-XIII, mas cuja base foi justamente o aumento da produção no campo.
Subpasso 4.2 — Conectar o trabalho agrícola à obra arquitetônica
O texto estabelece uma relação de causa e consequência: o "êxito de uma imensa expansão produtiva" (aumento da produção agrícola) "levou à sua realização" (à construção das catedrais). Em seguida, o autor mostra que essa relação não é apenas econômica, mas também simbólica: a própria pedra das catedrais — capitéis, fachadas, torres — traz esculpidos bois de trabalho e ramos de videira, elementos do universo rural. Isso reforça que a "arte urbana" homenageia, na própria matéria de que é feita, o trabalho que a financiou.
Subpasso 4.3 — Verificação
A frase final do texto resume tudo: "com o trabalho, fizeram com que da terra brotasse o monumento. Ele é o fruto do campo, ou seja, de seu trabalho." Trata-se de uma metáfora agrícola explícita — o monumento "brota" e é "fruto", como se fosse uma colheita. Isso confirma, sem ambiguidade, que a chave de leitura da questão é a cultura agropecuária como base material e simbólica do patrimônio artístico urbano medieval, validando a alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) aristocracia feudal.
❌ Incorreta: o texto não menciona senhores feudais, nobreza guerreira ou relações de vassalagem. Os sujeitos citados são trabalhadores do campo (desmatadores, vinhateiros, cultivadores), não a aristocracia proprietária de terras — a ênfase está no trabalho produtivo, não na hierarquia social feudal.
B) ordens monásticas.
❌ Incorreta: embora mosteiros beneditinos e cistercienses tenham, de fato, promovido desmatamentos e técnicas agrícolas na Idade Média, o texto não cita monges, abades ou instituições religiosas específicas em nenhum momento. A alternativa tenta seduzir pela associação "catedral = Igreja", mas o enunciado fala do trabalhador rural leigo, não do clero regular.
C) cultura agropecuária.
✅ Correta: todas as evidências do texto — desmatamento, plantio de cepos de vinha, construção de valas e diques, esculturas de bois de trabalho e videiras, representação do ciclo das estações e dos trabalhos do campo — convergem para o mesmo conceito: a base agropecuária (agrícola e pecuária) que sustentou material e simbolicamente a arte urbana das catedrais.
D) feiras internacionais.
❌ Incorreta: feiras e comércio de longa distância (como as Feiras de Champagne) foram, de fato, outro motor do renascimento urbano medieval, mas não aparecem no texto. O "alimento" citado pelo autor vem explicitamente "dos campos vizinhos", não de rotas comerciais ou mercadores.
E) manufaturas regionais.
❌ Incorreta: manufaturas e corporações de ofício urbanas (como as de tecelagem) pertencem a uma etapa posterior e a um espaço distinto (a cidade produzindo bens), enquanto o texto localiza a origem do crescimento urbano no campo — na produção agrícola primária, não na transformação manufatureira de matérias-primas.
🏆 Gabarito: C — o texto de Georges Duby atribui explicitamente o crescimento e a riqueza simbólica das catedrais góticas ao trabalho e à produção do campo (agricultura e viticultura), tornando a cultura agropecuária a única alternativa sustentada por todas as evidências textuais.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a cultura agropecuária é citada de forma direta e repetida (desmatadores, plantadores, bois, videiras, estações, trabalhos do campo) como origem do "alimento" que fez crescer a arte urbana; nenhuma outra alternativa tem respaldo textual equivalente.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa textos de historiadores (Duby, Le Goff, Jacques Heers) sobre a Baixa Idade Média para testar se o aluno entende a ligação entre expansão agrícola, crescimento demográfico e renascimento urbano/comercial dos séculos XI-XIII — evitando a visão simplista de "Idade Média = estagnação total".
- Generalização: sempre que um texto histórico associar arte, arquitetura ou cidade medieval a imagens de campo, colheita, trabalho rural ou natureza, a resposta tende a apontar para a base econômica agrária que sustentou aquele fenômeno urbano, e não para instituições (Igreja, nobreza) que não estejam citadas explicitamente.
- Dica de eliminação rápida: risque de imediato qualquer alternativa que nomeie um grupo social ou atividade (aristocracia, monges, feiras, manufaturas) que não apareça de forma literal no texto — em questões de interpretação histórica, a resposta certa quase sempre "ecoa" vocabulário do próprio trecho, aqui claramente agrícola.
- Conexões: revolução agrícola medieval e sistema de rotação trienal; arte gótica como narrativa visual da sociedade medieval; renascimento comercial e urbano dos séculos XI-XIII.
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