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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaDifícil

Questão 55ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia

Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, que, estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação à sua própria civilização, tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda esta civilização venha a explodir.

ADORNO, T. W. Educação e emancipação. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 2006 (adaptado).

Ao refletir sobre a crise civilizatória vivida com a Segunda Guerra Mundial, o autor aponta como uma das condições de possibilidade da barbarização o(a)

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Escola de Frankfurt, Teoria Crítica (Adorno e Horkheimer)
  • ⚡ Nível: Difícil — exige reconhecer um conceito filosófico técnico ("razão instrumental") por trás de uma descrição indireta, sem que o termo apareça no texto
  • 🎯 Tema/Habilidade: Crítica da razão instrumental e barbárie na Teoria Crítica; competência de leitura filosófica que associa um fenômeno histórico (Segunda Guerra) a uma categoria conceitual
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo Adorno, o que torna possível que uma civilização tecnologicamente avançada mergulhe na barbárie?"
  • Palavras-chave decisivas: mais alto desenvolvimento tecnológico, atrasadas de um modo peculiarmente disforme, impulso de destruição
  • Armadilha típica: confundir a causa estrutural (o modelo de razão que orienta essa civilização) com os sintomas ou consequências desse processo, como o enfraquecimento de laços afetivos, familiares ou de costumes sociais — que são efeitos colaterais, não a raiz do problema
  • O que a resposta precisa demonstrar: entendimento de que, para Adorno, a barbárie não é um retrocesso que ocorre apesar da técnica avançada, mas algo que essa própria forma de racionalidade técnica — divorciada de fins éticos — torna possível

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Teoria Crítica e Escola de Frankfurt: corrente filosófica (Adorno, Horkheimer, Marcuse, Benjamin) que investiga como a razão moderna, em vez de emancipar o ser humano, pode se converter em instrumento de dominação e destruição — tese central da obra Dialética do Esclarecimento (1947).
  • Razão instrumental: modalidade de racionalidade voltada exclusivamente para o cálculo de meios eficazes para atingir fins, sem qualquer reflexão sobre a legitimidade ética desses fins. É a razão que pergunta "como fazer" e nunca "se devo fazer" ou "por que fazer".
  • Barbárie (em Adorno): não é ausência de civilização, mas um produto interno dela — o retorno de impulsos destrutivos primitivos justamente no seio de sociedades tecnicamente sofisticadas, como ocorreu no nazismo e em Auschwitz.
  • Dialética do Esclarecimento: tese de que o próprio processo de esclarecimento (Aufklärung), ao reduzir a razão a puro cálculo técnico, gera as condições para seu oposto — a irracionalidade organizada e industrializada da violência.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico" → Adorno situa o problema exatamente no ápice do progresso técnico-instrumental — não numa sociedade "primitiva", mas na mais avançada tecnologicamente da história até então (a Alemanha nazista, berço de ciência, indústria e burocracia eficientes).
  • Evidência 2: "as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação à sua própria civilização" → esse "atraso disforme" é o descompasso entre o avanço técnico (meios) e o vazio ético (fins) — a marca exata da razão instrumental, que aperfeiçoa os meios de destruição sem qualquer freio moral sobre os fins.
  • Síntese: o texto descreve uma civilização que dominou os meios técnicos, mas perdeu a capacidade de refletir eticamente sobre os fins — e é exatamente essa cisão entre eficiência técnica e reflexão ética que caracteriza o obscurecimento (eclipse) da razão instrumental, condição estrutural apontada por Adorno para a barbarização.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o paradoxo central do texto

Adorno constrói uma imagem propositalmente paradoxal: uma civilização no "mais alto desenvolvimento tecnológico" que, ao mesmo tempo, abriga pessoas "atrasadas" e tomadas por "agressividade primitiva" e "impulso de destruição". Esse paradoxo não é acidental — é o núcleo da crítica frankfurtiana à modernidade. O erro de leitura mais comum é imaginar que a barbárie surge apesar do progresso técnico, como se fossem duas forças opostas que por acaso coexistem. Adorno afirma o contrário: a barbárie é possibilitada pela mesma lógica que produziu o avanço técnico.

Subpasso 4.2 — Conectar o paradoxo ao conceito de razão instrumental

Para Adorno e Horkheimer, a razão ocidental, ao longo do processo de esclarecimento, foi progressivamente reduzida a um instrumento de cálculo e controle da natureza e dos homens — a chamada razão instrumental. Essa razão sabe como fazer algo com máxima eficiência (construir armas, organizar burocracias de extermínio, administrar campos de concentração com precisão industrial), mas abandonou a pergunta sobre se e por que fazê-lo. Quando essa dimensão ética e reflexiva da razão é obscurecida — ou seja, deixa de orientar os fins da ação humana —, resta apenas a eficiência técnica a serviço de qualquer objetivo, inclusive os mais destrutivos. É esse obscurecimento (eclipse) da razão instrumental que abre espaço para que impulsos primitivos de destruição se manifestem com toda a potência que a técnica moderna oferece.

Subpasso 4.3 — Verificação

Relendo o trecho com essa chave interpretativa: "civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico" = razão instrumental plenamente desenvolvida em seus meios; "atrasadas... impulso de destruição" = ausência do componente ético-reflexivo da razão, isto é, seu obscurecimento. A frase final — "que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda esta civilização venha a explodir" — reforça que é justamente a potência técnica sem freio ético que amplia o risco catastrófico. Essa leitura confirma, sem ambiguidade, a alternativa D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) eclipse da experiência subjetiva.

❌ Incorreta: o "eclipse da subjetividade" (ou da experiência individual) é um tema presente em outras obras de Adorno e de Walter Benjamin, ligado à padronização da vida na sociedade de massas e à indústria cultural. No entanto, o texto não fala de perda de individualidade ou de experiência pessoal — fala de um descompasso entre desenvolvimento técnico e comportamento destrutivo. É uma alternativa que usa vocabulário adorniano genuíno para confundir o candidato, mas fora do contexto certo.

B) decadência da etiqueta burguesa.

❌ Incorreta: "etiqueta burguesa" remete a normas de conduta social e refinamento de costumes, tema totalmente alheio ao argumento filosófico de Adorno sobre a dialética entre técnica e barbárie. Nenhum trecho do texto sugere que o problema seja a perda de boas maneiras ou convenções sociais burguesas — essa é uma alternativa rasa que soa como "senso comum" e não como filosofia frankfurtiana.

C) esvanecimento da instituição familiar.

❌ Incorreta: a crise da família não é o eixo do argumento apresentado. Embora a Escola de Frankfurt tenha estudado a família em outros contextos (como na análise da autoridade e do fascismo), o trecho citado trata da relação entre desenvolvimento tecnológico e impulsos destrutivos, não de estrutura familiar. Essa alternativa desvia o foco para uma esfera social que o texto simplesmente não menciona.

D) obscurecimento da razão instrumental.

✅ Correta: é exatamente essa a tese adorniana explicitada no texto: a civilização mais desenvolvida tecnicamente é a mesma que se mostra "atrasada" eticamente, porque sua razão foi reduzida a puro instrumento de cálculo e eficiência, perdendo a capacidade de refletir sobre os fins morais da ação. Esse obscurecimento (eclipse) da dimensão ética da razão é a condição de possibilidade da barbárie descrita no trecho.

E) enfraquecimento do progresso produtivo.

❌ Incorreta: essa alternativa inverte o argumento do texto. Adorno não afirma que a barbárie decorre da queda do progresso técnico-produtivo — pelo contrário, ele parte exatamente do pressuposto de que a civilização está no "mais alto desenvolvimento tecnológico". O progresso produtivo está pleno, intacto e até crescente; o que falta é sua orientação ética, não sua força.

🏆 Gabarito: D — o texto descreve o descompasso entre avanço técnico e vazio ético como condição da barbárie, e esse descompasso é precisamente o que Adorno chama de obscurecimento (eclipse) da razão instrumental: uma razão que apenas calcula meios, sem refletir sobre fins.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa D nomeia corretamente o mecanismo filosófico — a razão reduzida a instrumento técnico, esvaziada de reflexão ética — que Adorno aponta como pré-condição da barbárie moderna; as demais alternativas ou desviam o tema (família, etiqueta, subjetividade) ou invertem a lógica do texto (progresso produtivo).
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra a Escola de Frankfurt associando trechos de Adorno, Horkheimer ou Marcuse a fenômenos históricos concretos (nazismo, indústria cultural, consumo de massa), exigindo que o candidato reconheça o conceito por trás da descrição, sem que o termo técnico apareça explicitamente no enunciado.
  • Generalização: sempre que um texto filosófico descrever um paradoxo entre "avanço técnico/científico" e "irracionalidade/violência", a chave de leitura quase sempre remete à crítica da razão instrumental da Teoria Crítica — associe automaticamente esse tipo de descrição a Adorno e Horkheimer.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de imediato alternativas que tratem de temas concretos ausentes do texto (família, etiqueta social, subjetividade individual) — se a palavra-chave da alternativa não tem correspondência direta em nenhum trecho citado, ela é isca. Fique com a alternativa que nomeia o tipo de razão ou lógica envolvida, já que o texto fala em termos estruturais, não pessoais ou institucionais específicos.
  • Conexões: Dialética do Esclarecimento (Adorno e Horkheimer); indústria cultural; conceito de "banalidade do mal" (Hannah Arendt), tema próximo que também discute burocracia técnica sem reflexão ética.

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