Mapa de questões · 1º dia
Questão 49 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
Para provar que os índios se encontram no estado de barbárie, Sepúlveda vai utilizar a Historia general y natural de las índias, na qual o índio americano era um ser um tanto infra-humano. Para provar o contrário, Las Casas escreve um novo tratado: La apologética historia, em que contraria os vários argumentos de Sepúlveda para justificar a guerra contra os índios. Aí, o índio é um homem como os outros do universo, superior até em muitos aspectos.
No contexto da colonização americana, as narrativas conflitantes de Sepúlveda e Las Casas expressam o seguinte aspecto:
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → colonização espanhola da América; humanismo renascentista; conceitos de etnocentrismo e alteridade
- ⚡ Nível: Difícil — a armadilha não está em identificar o debate histórico (Sepúlveda × Las Casas), mas em diferenciar duas categorias conceituais muito próximas: "reconhecimento da alteridade" e "reprodução do etnocentrismo"
- 🎯 Tema/Habilidade: A Controvérsia de Valladolid e os discursos europeus sobre o "outro" americano; competência de interpretar textos historiográficos e relacionar visões de mundo distintas sobre a colonização
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Apesar de chegarem a conclusões opostas sobre o índio, o que Sepúlveda e Las Casas têm em comum no modo como constroem seus argumentos?"
- Palavras-chave decisivas: infra-humano, estado de barbárie, superior... em muitos aspectos
- Armadilha típica: ler apenas a fala de Las Casas — que parece elogiosa e "aberta" ao índio — e marcar "reconhecimento da alteridade" (B), esquecendo que o comando pede o que as duas narrativas, em conjunto, expressam.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entende que julgar o índio — seja para rebaixá-lo, seja para elevá-lo — usando como régua os valores religiosos e civilizacionais europeus é, estruturalmente, a mesma operação: o etnocentrismo.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Etnocentrismo: tendência de tomar os próprios valores culturais como padrão universal de julgamento, hierarquizando outros povos como "inferiores" ou até "superiores" sempre em comparação com o referencial de quem julga — a régua de medida nunca deixa de ser a europeia.
- Alteridade: reconhecimento do outro como radicalmente diferente e legítimo em sua própria lógica cultural, sem depender de comparação hierárquica com um padrão externo; o índio seria compreendido a partir de seus próprios códigos, não avaliado por critérios alheios.
- Controvérsia de Valladolid (1550-1551): debate teológico-jurídico convocado pela Coroa espanhola, na cidade de Valladolid, entre Juan Ginés de Sepúlveda e frei Bartolomé de Las Casas, para decidir se a guerra de conquista contra os povos indígenas americanos era moralmente justificável.
- Humanismo cristão renascentista: corrente de pensamento que usava a razão e a fé cristã como critério de dignidade humana — mas aplicava esse critério a partir de padrões teológicos e civilizacionais estritamente europeus, mesmo quando o resultado era favorável ao "outro".
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "o índio americano era um ser um tanto infra-humano" (Sepúlveda) → aplica a teoria aristotélica da escravidão natural, medindo o índio pelo padrão civilizacional europeu (escrita, metalurgia, organização político-religiosa cristã) e concluindo que ele está abaixo dele — etnocentrismo explícito e hierarquizante.
- Evidência 2: "o índio é um homem como os outros do universo, superior até em muitos aspectos" (Las Casas) → repare que Las Casas não abandona a régua comparativa europeia: ele avalia o índio pelas mesmas virtudes valorizadas pelo humanismo cristão (mansidão, capacidade de razão natural, disposição para a conversão), apenas invertendo o resultado do julgamento.
- Síntese: os dois autores operam dentro do mesmo referencial de valores europeus para julgar o índio — divergem no veredito (inferior versus superior), mas concordam no método (avaliar o "outro" a partir de categorias que não são dele). Isso é, por definição, a reprodução do etnocentrismo, e não sua superação.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo do argumento de Sepúlveda
Em Historia general y natural de las Indias, Sepúlveda retoma a ideia aristotélica de que alguns povos nascem para servir e outros para comandar. Para ele, o índio, por não possuir escrita alfabética, metalurgia avançada nem a religião cristã, ocupa um degrau inferior na escala civilizacional — sendo, portanto, "infra-humano". Esse argumento sustentou a "guerra justa" de conquista: se o índio é inferior por natureza, subjugá-lo seria legítimo e até benéfico, pois o aproximaria da civilização e da fé verdadeira.
Subpasso 4.2 — Analisar o contra-argumento de Las Casas
Em Apologética historia sumaria, Las Casas rebate ponto a ponto: descreve os povos americanos como racionais, organizados, capazes de virtude e de receber a fé cristã — em muitos aspectos, diz ele, até superiores aos europeus. À primeira vista, isso soa como respeito à diferença. Mas o critério usado continua sendo europeu: mansidão, inocência, razão natural e receptividade ao cristianismo são exatamente as virtudes que o humanismo europeu já valorizava. Las Casas não deixa de julgar o índio por essa tabela de valores — ele apenas o posiciona no topo dela, em vez de na base.
Subpasso 4.3 — Verificação
Se o critério de julgamento em ambos os textos continua sendo "o quanto o índio se aproxima dos valores civilizacionais e religiosos europeus", então o próprio debate — em sua existência e estrutura — reproduz o etnocentrismo colonial, mesmo quando um dos lados defende o indígena. A conclusão bate exatamente com a alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Aceitação da diversidade.
❌ Incorreta: nem Sepúlveda nem, rigorosamente, Las Casas aceitam a diversidade do índio em seus próprios termos culturais; Sepúlveda nega sua humanidade plena, e Las Casas só o valoriza na medida em que ele se aproxima de virtudes europeias e cristãs — não há aceitação da diferença como tal, mas sua avaliação por um padrão externo.
B) Reconhecimento da alteridade.
❌ Incorreta: reconhecer a alteridade significaria compreender o índio como radicalmente distinto e legítimo em sua própria lógica cultural, sem depender de uma escala hierárquica europeia. Mesmo o discurso "favorável" de Las Casas continua medindo o índio pelos critérios de virtude e civilização do colonizador — o que descaracteriza o reconhecimento pleno da alteridade.
C) Reprodução do etnocentrismo.
✅ Correta: tanto Sepúlveda quanto Las Casas avaliam o índio a partir do referencial de valores religiosos e civilizacionais europeus, chegando a resultados opostos (inferior/superior), mas usando o mesmo eixo de julgamento eurocêntrico — exatamente a estrutura que sustenta a lógica colonial da época.
D) Compartilhamento do bem comum.
❌ Incorreta: não há qualquer consenso ou objetivo compartilhado entre os dois autores; trata-se de uma disputa jurídico-teológica com desfechos práticos opostos — um justifica a guerra de conquista, o outro a condena.
E) Convergência das crenças religiosas.
❌ Incorreta: o enunciado não trata de crenças indígenas dialogando com crenças europeias. A disputa ocorre inteiramente dentro do pensamento cristão europeu, sobre como esse pensamento deve classificar o índio — não há qualquer convergência de crenças em jogo.
🏆 Gabarito: C — as narrativas de Sepúlveda e Las Casas, apesar de opostas no veredito sobre o índio, compartilham o mesmo método de julgamento baseado em valores europeus, o que caracteriza a reprodução do etnocentrismo colonial.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que capta o que há de comum entre as duas narrativas — não o conteúdo divergente (inferior vs. superior), mas o método compartilhado de julgar o índio pela régua europeia.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora o contato entre europeus e povos indígenas na colonização, contrastando o "olhar do colonizador" com o conceito de alteridade — cobrando do estudante a capacidade de perceber quando um discurso apenas inverte uma hierarquia (permanecendo etnocêntrico) em vez de superá-la de fato.
- Generalização: sempre que um texto histórico avalia povos não-europeus a partir de critérios europeus — ainda que de forma elogiosa —, isso configura etnocentrismo, e não alteridade; alteridade exige reconhecer o outro por seus próprios códigos, sem hierarquizá-lo.
- Dica de eliminação rápida: elimine D e E de imediato, pois o texto não menciona consenso nem crenças religiosas em comum; em seguida, pergunte-se "de quem são os critérios usados para julgar o índio?" — se a resposta for "do colonizador europeu", mesmo em tom favorável, a resposta correta é etnocentrismo, não alteridade.
- Conexões: Controvérsia de Valladolid; teoria aristotélica da escravidão natural; humanismo cristão renascentista; crítica antropológica ao etnocentrismo (como em Claude Lévi-Strauss, Raça e História).
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