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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 13ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia

Venha ver o pôr do sol
O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada, mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.

TELLES, L. F. Antes do baile verde. São Paulo: Cia. das Letras, 2009.

Nesse trecho, os procedimentos de construção que promovem a expressividade decorrem da

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → prosa brasileira contemporânea; Lygia Fagundes Telles; procedimentos descritivos e figuras de linguagem
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, ao mesmo tempo, personificação, sinestesia e adjetivação sensorial, e depois filtrar essa leitura contra cinco alternativas muito parecidas entre si
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de procedimentos de construção do texto literário (competência de linguagens ligada à análise de recursos expressivos e efeitos de sentido)
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que faz esse trecho ser expressivo — isto é, qual procedimento de escrita produz o efeito de sentido do texto?"
  • Palavras-chave decisivas: "procedimentos de construção", "promovem a expressividade", "decorrem da"
  • Armadilha típica: confundir um recurso pontual e secundário (como uma comparação isolada) com o procedimento estrutural que organiza o trecho inteiro; ou trocar a análise da linguagem por uma interpretação temática abstrata (como "fragilidade humana") que o texto sugere apenas indiretamente, sem ser o foco do comando.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de nomear, com precisão técnica, o procedimento textual — não apenas parafrasear o clima do cemitério, mas identificar o mecanismo linguístico (tipo de descrição) que o narrador usa para construir esse clima.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Descrição impressionista: modo de descrever que não busca o inventário objetivo e enciclopédico do espaço (medidas, nomes, disposição fria dos elementos), mas a impressão sensorial e subjetiva que o espaço causa em quem observa — luz, cor, som, movimento, sensação de vida ou de decadência.
  • Personificação (prosopopeia): atribuir ações e intenções próprias de seres vivos/humanos a algo inanimado ou vegetal — no trecho, o mato "domina", "não satisfeito", "infiltra-se ávido", "invade", como se tivesse vontade própria.
  • Sinestesia: cruzamento de sentidos diferentes numa mesma imagem — os passos (som) viram "música" (também som, mas estilizada e quase melódica), e o som das folhas é descrito com verbo tátil ("trituradas"), misturando audição e textura.
  • Adjetivação impressionista: adjetivos que não informam dados objetivos, mas registram tonalidade e sensação — "pedregulhos esverdinhados", "pálidos medalhões", "estranha música" — todos evocam cor, luz e atmosfera, não medida ou função.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "O mato rasteiro dominava tudo. [...] subira pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas" → o vegetal é narrado como força quase animada, avançando sobre a morte; é personificação a serviço de uma impressão de vida vencendo o espaço fúnebre, não uma descrição fria de um jardim mal cuidado.
  • Evidência 2: "Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos" → o som cotidiano de pisar em folhas secas é transfigurado em "música", numa imagem sinestésica e subjetiva — o narrador não relata um dado acústico neutro, registra uma sensação.
  • Síntese: as duas evidências não são recursos avulsos e desconectados: ambas cumprem a mesma função — construir o ambiente do cemitério por meio de sensações (visuais, sonoras, táteis) e não por descrição referencial objetiva. Esse é exatamente o traço definidor da descrição impressionista, que integra personificação, sinestesia e adjetivação sensorial como sub-recursos de um único procedimento maior.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar o procedimento dominante do trecho

O parágrafo de abertura é quase inteiramente descritivo: descreve o mato invadindo o cemitério. Repare que a autora não escolhe verbos neutros ("crescia", "cobria") — escolhe verbos de ação voluntariosa: "dominava", "alastrado furioso", "subira", "infiltrara-se ávido", "invadira", "quisesse [...] cobrir". Esse vocabulário transforma a vegetação em agente quase humano, com fome e intenção ("ávido", "furioso", "quisesse"). Isso já é um traço impressionista clássico: o observador não relata fatos, projeta sensação e humor sobre o que vê.

Subpasso 4.2 — Confirmar o padrão no segundo período

No trecho seguinte, o procedimento se repete em outro plano sensorial: agora não é mais a visão do mato, mas a audição dos passos. De novo, o narrador não descreve objetivamente ("os passos faziam barulho"); ele metaforiza o som em "música" e qualifica essa música de "estranha", produzida por folhas "trituradas" sobre pedregulhos. Há, portanto, dois blocos de linguagem sensorial e subjetiva (visual-cinético no primeiro período, sonoro-tátil no segundo) construindo, juntos, a atmosfera do lugar — exatamente o que se entende por descrição impressionista: cenário revelado por impressões e sensações do observador, não por dados objetivos e enumerativos.

Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas

Se o procedimento central é "descrever por impressões sensoriais o ambiente do cemitério", isso corresponde literalmente à alternativa C. As demais alternativas ou citam um recurso secundário isolado (comparações, em A), ou apontam para algo que o trecho não desenvolve de fato (mudança de reação das personagens, reflexão filosófica, visão bucólica). A leitura converge, sem ambiguidade, para C.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) presença de comparações com a natureza.

❌ Incorreta: há, sim, uma comparação explícita ("como uma estranha música"), mas ela é apenas um recurso pontual dentro de um procedimento mais amplo. Reduzir a expressividade do trecho a "comparações" ignora a personificação do mato e a construção sensorial do ambiente como um todo — a comparação é efeito, não a causa estrutural da expressividade.

B) mudança gradativa de reação das personagens.

❌ Incorreta: o texto não narra uma transformação psicológica progressiva. Ela é descrita como "amuada, mas obediente" e "andando" de modo estável ao longo do trecho; não há gradação de humor ou de comportamento das personagens — o foco do parágrafo está no espaço (o cemitério, o mato, os sons), não numa evolução emocional dos dois.

C) descrição impressionista do ambiente do cemitério.

✅ Correta: a expressividade do trecho nasce exatamente da forma como o cemitério é descrito — por meio de personificação do mato, sinestesia dos sons transformados em música e adjetivação sensorial ("esverdinhados", "pálidos"). É um procedimento técnico coeso, que organiza todo o parágrafo, e não um efeito isolado.

D) reflexão sobre a fragilidade humana diante da finitude.

❌ Incorreta: esse seria um tema filosófico possível de se inferir do cenário (cemitério, morte), mas o texto não desenvolve uma reflexão explícita sobre finitude — ele descreve, não argumenta ou medita. Confundir "cenário fúnebre" com "reflexão sobre a morte" é o erro clássico de trocar o assunto de fundo pelo procedimento de construção efetivamente usado.

E) visão bucólica do narrador sobre o espaço contemplado.

❌ Incorreta: bucolismo remete a paz, harmonia e vida campestre serena. O trecho descreve o oposto disso — uma vegetação "furiosa", "ávida", que invade e domina o espaço da morte com violência ("violenta força de vida"). Não há serenidade pastoril, há tensão entre vida vegetal agressiva e o cenário fúnebre.

🏆 Gabarito: C — a expressividade do trecho decorre da descrição impressionista do cemitério, construída por personificação do mato, sinestesia dos sons e adjetivação sensorial, e não de um recurso isolado (comparação), de uma evolução psicológica (B), de uma reflexão filosófica explícita (D) ou de uma atmosfera bucólica (E).

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que nomeia o procedimento estrutural — o modo como o espaço é descrito — e não um efeito secundário ou uma leitura temática solta do texto.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente pede que o aluno identifique "o procedimento" ou "o recurso" que sustenta a expressividade de um trecho literário; a resposta certa costuma nomear uma técnica de construção textual (tipo de descrição, foco narrativo, recurso de linguagem), não um tema ou moral da história.
  • Generalização: quando a questão pergunta pelo procedimento de construção, procure sempre o padrão que se repete ao longo do trecho (aqui: linguagem sensorial e subjetiva aplicada a mais de um sentido — visão e audição), pois é isso que caracteriza um procedimento, e não uma figura isolada.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que nomeiam um clima ou tema geral do texto (fragilidade humana, visão bucólica) sem indicar como a linguagem constrói esse efeito — elas confundem "sobre o que o texto fala" com "como o texto é construído". Fique com a alternativa que nomeia a técnica descritiva.
  • Conexões: Lygia Fagundes Telles e a prosa impressionista brasileira; recursos de expressividade (personificação, sinestesia, adjetivação) em outras questões de interpretação textual do ENEM.

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