Mapa de questões · 1º dia
Questão 57 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
Se ilustres agrônomos, que eram ao mesmo tempo grandes proprietários, introduziram em certos países excelentes métodos de cultura, se eles trataram seus campos com ciência, como fábricas de produtos químicos nas quais se aplicam os mais recentes procedimentos, tornaram conhecidas novas espécies de plantas ou animais, ou então praticaram invenções ignoradas antes deles, não se deve contudo esquecer que o latifúndio, em sua essência, comporta fatalmente a privação da terra para a maioria: se alguns têm muito é porque a maioria não tem mais nada.
RECLUS, E. O homem e a terra: a cultura e a propriedade.
São Paulo: Expressão e Arte; Imaginário, 2010.
No texto, o autor realiza uma crítica ao processo de modernização, por este manter o(a)
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Geografia → estrutura fundiária, modernização conservadora e questão agrária
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um texto filosófico-geográfico denso e distinguir o alvo real da crítica entre vários elementos citados no enunciado
- 🎯 Tema/Habilidade: Modernização conservadora do campo e concentração fundiária (relaciona-se à competência de área que trata de dinâmicas do espaço agrário e da relação entre técnica e desigualdade social)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que exatamente Reclus condena quando fala da modernização agrícola?"
- Palavras-chave decisivas: latifúndio, privação da terra para a maioria, se alguns têm muito é porque a maioria não tem nada
- Armadilha típica: confundir os elogios do autor (métodos científicos, novas espécies, invenções) com o alvo da crítica — o candidato apressado marca "técnica agrícola" ou "variedade genética" por serem as palavras mais concretas do texto, ignorando que elas são citadas justamente para serem descartadas como o problema.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a crítica de Reclus não recai sobre os avanços técnicos em si, mas sobre o fato de que esses avanços convivem com a manutenção da concentração de terras nas mãos de poucos proprietários.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Latifúndio: grande propriedade rural associada à concentração fundiária e ao uso pouco eficiente da terra em relação à sua extensão, mas com altíssima concentração de poder econômico e político nas mãos do proprietário.
- Estrutura fundiária: forma como a propriedade da terra está distribuída em uma sociedade — quem possui, quanto possui e como esse acesso é (ou não) democratizado. É o conceito-chave para entender desigualdades no campo, muito além da produtividade técnica.
- Modernização conservadora: processo em que se incorporam máquinas, insumos químicos, sementes melhoradas e métodos científicos de cultivo sem qualquer redistribuição da terra — moderniza-se a produção, mas conserva-se (e às vezes aprofunda-se) a concentração fundiária original.
- Elisée Reclus: geógrafo francês do século XIX, ligado ao pensamento anarquista, que analisava a relação entre geografia, sociedade e justiça social, denunciando como estruturas de poder — como a propriedade privada da terra — se perpetuam através das transformações econômicas.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "introduziram em certos países excelentes métodos de cultura... trataram seus campos com ciência... tornaram conhecidas novas espécies... praticaram invenções ignoradas" → o autor reconhece, sem ironia, os ganhos técnicos e científicos da modernização agrícola — isso não é o que ele ataca.
- Evidência 2: "não se deve contudo esquecer que o latifúndio, em sua essência, comporta fatalmente a privação da terra para a maioria: se alguns têm muito é porque a maioria não tem mais nada" → o núcleo argumentativo: por trás do progresso técnico, permanece intacta — "em sua essência" — a lógica de concentração da propriedade fundiária, um jogo de soma zero.
- Síntese: a estrutura do texto é concessiva: "se... se... se... [elogios técnicos], não se deve contudo esquecer [crítica central]". O "contudo" é a bissagra que revela o verdadeiro alvo: tudo antes é concedido como verdade parcial, mas o que vem depois é o problema estrutural que a modernização não resolveu — a permanência da concentração da terra.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a estrutura retórica do texto
Reclus constrói o parágrafo em torno de uma concessão seguida de uma ressalva. Ele lista três conquistas da modernização agrícola: métodos científicos de cultivo, aplicação de procedimentos químicos avançados e introdução de novas espécies/invenções. Cada uma dessas conquistas corresponde, respectivamente, às alternativas C (técnica agrícola), B/D (ganho produtivo e econômico) e E (variedade genética) — todas mencionadas de forma elogiosa, não crítica.
Subpasso 4.2 — Localizar o ponto de inflexão argumentativa
A expressão "não se deve contudo esquecer" marca a virada do texto: depois de reconhecer os méritos técnicos, o autor afirma que o essencial do latifúndio permanece inalterado — a privação da terra para a maioria da população. O sujeito da crítica muda de "como se produz" para "quem possui a terra".
Subpasso 4.3 — Verificação
A frase final — "se alguns têm muito é porque a maioria não tem mais nada" — é a formulação mais direta possível de uma crítica à concentração de terras, ou seja, à estrutura fundiária. Nenhuma das outras alternativas é tratada como problema no texto; todas aparecem como avanços que convivem, sem contradição para o autor, com a manutenção do latifúndio.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) estrutura fundiária.
✅ Correta: é exatamente o que o trecho final do texto denuncia — a modernização técnica não alterou a distribuição desigual da propriedade da terra; o latifúndio, em sua "essência", continua concentrando a terra nas mãos de poucos, privando a maioria.
B) índice produtivo.
❌ Incorreta: o aumento de produtividade é citado como um dos méritos da modernização ("trataram seus campos com ciência, como fábricas de produtos químicos"), não como alvo da crítica — o autor não questiona a eficiência produtiva, e sim a concentração da posse da terra.
C) técnica agrícola.
❌ Incorreta: a técnica agrícola é justamente elogiada no início do texto ("excelentes métodos de cultura", "os mais recentes procedimentos"); Reclus não critica o avanço técnico em si, mas o fato de ele não alterar a estrutura de propriedade da terra.
D) ganho econômico.
❌ Incorreta: o lucro ou ganho econômico dos grandes proprietários é uma consequência implícita do sistema descrito, mas não é o objeto explícito da crítica textual — o foco do autor está na desigualdade do acesso à terra, não na renda gerada por ela.
E) variedade genética.
❌ Incorreta: a introdução de "novas espécies de plantas ou animais" é citada como um avanço científico positivo, um exemplo de inovação — não há qualquer crítica a esse aspecto no texto.
🏆 Gabarito: A — o texto de Reclus reconhece os méritos técnicos e científicos da modernização agrícola, mas denuncia que ela mantém intacta a estrutura fundiária concentradora, na qual a posse da terra por poucos implica necessariamente a privação da maioria.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas "estrutura fundiária" corresponde ao elemento que o texto apresenta como problema não resolvido pela modernização; os demais itens são citados como conquistas, não como falhas.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra o conceito de "modernização conservadora" — a ideia de que modernizar a produção agrícola não implica democratizar o acesso à terra; chave usada em questões sobre a Revolução Verde e a estrutura fundiária brasileira pós-1960.
- Generalização: em textos argumentativos com estrutura concessiva ("embora... não se deve esquecer que..."), o alvo da crítica está depois do conectivo adversativo, nunca nos elogios que o precedem.
- Dica de eliminação rápida: risque de cara qualquer alternativa que apareça como elogio explícito no texto (técnica, produtividade e variedade genética são louvadas logo no início) — o gabarito de uma questão "de crítica" quase nunca é o que o autor elogia.
- Conexões: Revolução Verde e reforma agrária no Brasil; pensamento geográfico crítico de Elisée Reclus e o anarquismo.
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