Mapa de questões · 1º dia
Questão 18 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
Cotidiano
[…]
Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
CHICO BUARQUE. Construção. São Paulo: Phonogram / Philips, 1971 (fragmento).
Nessa letra de canção, que retrata o cotidiano de um casal, há marca de uso coloquial da língua portuguesa em
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Variação Linguística e Registro (coloquialismo x norma padrão)
- ⚡ Nível: Fácil — basta reconhecer, em meio a versos que seguem a norma padrão, uma única construção sintática típica da oralidade
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer os usos da língua e a diversidade linguística (variação diastrática/de registro) em um gênero que mistura oralidade e escrita — a letra de canção
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Em qual verso da canção aparece uma construção gramatical típica da fala informal (coloquial), diferente da norma padrão que predomina no restante do texto?"
- Palavras-chave decisivas: marca, uso coloquial, língua portuguesa
- Armadilha típica: confundir "linguagem coloquial" com "tema cotidiano/afetivo". Versos como "boca de paixão", "boca de pavor" e "boca de hortelã" tratam de sensações íntimas do dia a dia, o que engana o candidato a marcá-los como "informais" — mas conteúdo cotidiano não é o mesmo que desvio gramatical da norma padrão.
- O que a resposta precisa demonstrar: apontar uma estrutura sintática ou lexical que se afaste da gramática normativa escrita e reproduza um traço genuíno da fala espontânea brasileira.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Norma padrão (norma culta): variedade da língua ensinada na escola e usada em contextos formais, que segue as regras gramaticais prescritivas de concordância, regência e construção sintática.
- Variação coloquial (registro informal): modo de falar espontâneo do cotidiano, marcado por construções que fogem à gramática normativa, mas são plenamente aceitas e compreendidas na oralidade — sem que isso represente "erro" de linguagem, apenas outro registro.
- Perífrase verbal "pegar e + verbo": construção genuinamente brasileira e coloquial em que o verbo "pegar" perde o sentido literal de "agarrar/segurar" e passa a funcionar como partícula narrativa, indicando uma ação repentina, decidida ou inesperada — equivalente a "de repente ela..." ou "ela simplesmente...". Exemplos do dia a dia: "ele pegou e saiu batendo a porta", "ela pega e liga do nada".
- Canção como gênero híbrido: a letra de música costuma narrar em norma padrão (para manter fluência poética e melódica), mas pode inserir marcas de oralidade propositais para aproximar o texto da fala real e reforçar o efeito de espontaneidade — exatamente o recurso que Chico Buarque usa no verso em questão.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Ela pega e me espera no portão" → o verbo "pegar" não indica a ação física de segurar nada; ele antecede outro verbo ("espera") numa estrutura que só existe na fala espontânea, nunca em um texto formal escrito.
- Evidência 2: "E me beija com a boca de paixão" / "E me morde com a boca de pavor" / "E me beija com a boca de hortelã" → padrão sintático regular (sujeito oculto + verbo + complemento + adjunto adnominal introduzido por "de"), sem qualquer marca de oralidade; a carga afetiva do vocabulário (paixão, pavor, hortelã) não altera a gramaticalidade da frase.
- Evidência 3: "Meia-noite ela jura eterno amor" / "Todo dia ela faz tudo sempre igual" → verbos "jurar" e "fazer" empregados diretamente, em ordem direta sujeito-verbo-objeto, sem perífrases ou desvios.
- Síntese: dos cinco versos, apenas o trecho A emprega uma estrutura sintática (a perífrase "pegar e + verbo") reconhecidamente típica da oralidade brasileira; os demais, mesmo tratando de gestos íntimos e cotidianos, permanecem dentro da norma padrão escrita.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o fenômeno linguístico pedido
A questão não pergunta sobre figura de linguagem (metáfora, sinestesia, comparação), nem sobre o tema dos versos — ela pede especificamente uma "marca de uso coloquial da língua portuguesa", isto é, um traço gramatical ou sintático que sinalize registro informal, de fala espontânea, em contraste com a escrita normativa.
Subpasso 4.2 — Testar cada verso contra a norma padrão
Passando as cinco alternativas pelo crivo da gramática normativa:
- A) "Ela pega e me espera no portão" → dois verbos ligados por "e" (pega / espera), mas "pega" não tem aqui sentido literal de agarrar algo; funciona como partícula que antecipa a ação seguinte. É a perífrase coloquial "pegar e + verbo", equivalente a "de repente ela me espera" — construção estranha a qualquer manual de gramática normativa.
- B) "E me beija com a boca de paixão" → verbo "beijar" em sentido literal + adjunto adnominal "de paixão". Estrutura plenamente normativa.
- C) "Meia-noite ela jura eterno amor" → verbo "jurar" + objeto direto "eterno amor", em ordem direta. Estrutura normativa, até de registro relativamente solene.
- D) "E me morde com a boca de pavor" → mesma estrutura de B (verbo + complemento + adjunto adnominal), trocando apenas o verbo e o substantivo abstrato. Normativa.
- E) "Todo dia ela faz tudo sempre igual" → verbo "fazer" + objeto direto "tudo" + advérbios de modo/intensidade. Estrutura normativa, mesmo narrando uma rotina cotidiana.
Subpasso 4.3 — Verificação
Apenas o verso A apresenta uma construção que se desvia da sintaxe prescritiva e reproduz um padrão exclusivo da fala informal brasileira. Isso confirma, sem ambiguidade, que a resposta correta é a alternativa A — coerente com o gabarito oficial.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) "Ela pega e me espera no portão".
✅ Correta: a construção "pega e espera" é um marcador de oralidade genuinamente brasileiro, em que "pegar" perde o sentido literal e vira partícula narrativa coloquial, equivalente a "de repente" ou "então". Essa estrutura não existe na norma padrão escrita formal — é oralidade pura incorporada ao texto poético.
B) "E me beija com a boca de paixão".
❌ Incorreta: o verbo "beijar" está empregado no sentido literal e direto, seguido de adjunto adnominal ("de paixão") dentro da norma culta. O conteúdo é afetivo e sensorial, mas a construção gramatical segue rigorosamente o padrão.
C) "Meia-noite ela jura eterno amor".
❌ Incorreta: "jurar eterno amor" é, inclusive, uma expressão de registro relativamente cristalizado e solene, sem nenhum traço sintático de oralidade; segue a ordem canônica sujeito-verbo-objeto.
D) "E me morde com a boca de pavor".
❌ Incorreta: reproduz a mesma estrutura sintática de B (verbo + complemento + adjunto adnominal), apenas trocando o verbo e o substantivo abstrato. Nenhuma marca coloquial identificável.
E) "Todo dia ela faz tudo sempre igual".
❌ Incorreta: "faz tudo sempre igual" é norma padrão; o verbo "fazer" está empregado em seu uso corriqueiro e gramaticalmente regular, sem perífrase ou desvio sintático — a repetição da rotina está no sentido da frase, não na sua gramática.
🏆 Gabarito: A — "Ela pega e me espera no portão" é o único verso que emprega uma estrutura genuinamente coloquial (a perífrase "pegar e + verbo"), enquanto os demais versos, apesar do tema íntimo e cotidiano, seguem rigorosamente a norma padrão.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa A é a única que contém um desvio sintático real em relação à norma padrão; os demais versos apenas têm conteúdo afetivo e cotidiano, o que não equivale a coloquialismo gramatical.
- Padrão de cobrança: o ENEM usa com frequência letras de música, tirinhas, diálogos e depoimentos para testar a percepção de variação linguística — o candidato precisa diferenciar "tema cotidiano" (o que a frase diz) de "registro coloquial" (como a frase é construída gramaticalmente).
- Generalização: sempre que a questão pedir "marca de coloquialismo", procure por gírias, expressões de fala espontânea, perífrases verbais não normativas ("pegar e...", "ficar de...", "sair fazendo..."), elipses ou concordâncias fora do padrão — nunca julgue pelo assunto tratado no verso ou na frase.
- Dica de eliminação rápida: para cada alternativa, pergunte "essa frase poderia estar em um texto formal escrito sem soar estranha?". Se a resposta for sim (como em B, C, D e E), elimine; se houver uma construção que "só soa bem falada em voz alta", como "pega e...", ela é a resposta.
- Conexões: sociolinguística (variação diastrática e diafásica da língua); a canção "Construção", de Chico Buarque (1971), e seu contexto de crítica social; funções da linguagem em letras de música cobradas no ENEM.
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